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Tentando decifrar os segredos do sono através da filosofia racionalista cristã

Glaci Ribeiro da Silva

"O sono, quer o natural quer o provocado pela hipnose ou pelos anestésicos assim como os sonhos e as alucinações, não pode ser explicado de modo compreensível, racional e satisfatoriamente, pelos processos fisiológicos comuns e ordinários da escola organicista ou materialista." (Pinheiro Guedes, no livro Ciência Espírita)

Embora um longo tempo tenha se passado após as declarações feitas acima pelo médico espiritualista brasileiro – Antonio Pinheiro Guedes – até agora a ciência, com sua visão puramente materialista, não encontrou ainda uma explicação racional e satisfatória sobre a(s) causa(s) do sono.

É verdade, porém, que graças aos modernos recursos tecnológicos muita coisa se tem aprendido ultimamente a respeito da fisiologia desse fenômeno.

O sono sempre foi visto como um testemunho do bom senso da natureza e, assim, ninguém se perguntava: por que dormimos? Exceto pelos sonhos, que sequer eram vistos como parte do sono, nada parecia ocorrer durante essas horas vazias e, o sono, parecia ser somente um intervalo que separava o "Boa-noite" do "Bom-dia".

Foi só na segunda metade do século XX que o sono passou a interessar não somente aos filósofos e poetas mas, também, aos cientistas.

Até os anos 50, o sono era considerado como um fenômeno passivo. Mas, em 1953, os pioneiros na pesquisa desse assunto, Nathaniel Kleitman e seu aluno Eugene Aseriensky, ambos da Universidade de Chicago (EUA), derrubaram definitivamente essa crença.

Esses cientistas demonstraram que o sono é uma atividade dinâmica onde o cérebro nunca fica totalmente inativo. Pelo contrário, durante o sono ele tem uma atividade elétrica de complexidade semelhante àquela que se observa durante o estado de vigília (ou seja, quando estamos acordados).

O sono afeta nossa saúde física e mental de várias maneiras que, somente agora, estão começando a ser desvendadas. Substâncias químicas responsáveis pela comunicação das células nervosas – os chamados neurotransmissores – agindo em diferentes grupos de neurônios cerebrais, controlam nosso estado de vigília e de sono. Entre os neurotransmissores envolvidos nesse processo estão a serotonina, a histamina e a noradrenalina.

Existem normalmente no sono cinco Fases diferentes: fases 1, 2, 3, 4 e REM. Essas fases se sucedem em Ciclos que se iniciam na fase 1 e progridem até a fase REM. Então, um outro ciclo se inicia na fase 1 e, assim, sucessivamente. As fases 1 e 2 são, respectivamente, períodos de sonolência e sono leve e, o sono profundo, ocorre nas fases 3, 4 e REM. Geralmente, durante uma noite ocorrem 4 a 5 ciclos de sono.

É a fase REM do sono a que mais vem intrigando os neurocientistas que, por isso, têm-se empenhado muito ultimamente em estudá-la. O sono REM foi descrito em 1953 por Nathaniel Kleitman e Eugene Aseriensky, os dois investigadores já mencionados acima.

Eugene Aseriensky, nessa época ainda um simples estudante de medicina, descobriu que o cérebro agia de um modo diferente em uma das fases do sono. Monitorando voluntários que estavam dormindo, ele percebeu que os olhos dessas pessoas se mexiam freneticamente por baixo das pálpebras, ou seja, elas tinham um Movimento Rápido dos Olhos ou, em inglês, Rapid Eye Movement, daí a sigla REM que é usada para designar essa fase do sono.

Com o surgimento de técnicas altamente sofisticadas, muito se tem aprendido nesses últimos 50 anos sobre a fisiologia do sono. Porém, essa breve descrição que fizemos acima, embora precisa, é tão insatisfatória quanto acordar antes de completar uma noite bem dormida. A torturante questão ainda permanece: Para que serve o sono? Esse é o assunto que os neurocientistas estão interessados em desvendar atualmente.

Os danos aos vários tecidos do corpo produzidos por radicais livres podem ser tratados pela substituição das células danificadas por outras novas. No entanto, após o nascimento o cérebro não produz um número significante de novas células. Mas, o hipocampo – uma região cerebral envolvida com o aprendizado e a memória – é, sob esse aspecto, uma exceção.

No sono Não-REM (fases 1, 2, 3 e 4) existe uma queda acentuada no metabolismo e na temperatura cerebral. Para vários investigadores, isso acontece para dar oportunidade ao corpo e ao cérebro de se reconstruir do ataque sofrido pelos radicais livres durante a longa fase de vigília.

O sono REM, porém, não é explicado assim tão facilmente. Segundo alguns cientistas, durante essa fase do sono vários fatos importantes podem ocorrer tais como desenvolvimento do cérebro, síntese de neuroproteínas e coordenação dos movimentos dos olhos.

Nesta fase do sono há uma paralisia quase total dos movimentos corporais, porém, contrastando com isso, existe um aumento do ritmo cardíaco e da pressão arterial.

O padrão de eletroencefalograma durante o sono REM, é muito semelhante àquele que se obtém durante a vigília e, por isso, ele é também conhecido como Sono Paradoxal. Muitos cientistas até acreditam que o cérebro trabalha mais durante o sono REM do que na vigília.

O sono REM geralmente dura cerca de 11 minutos, mas nos últimos ciclos da noite ele é mais longo durando cerca de 25 minutos. O sono REM é freqüentemente associado com os sonhos, pois a maioria deles costuma acontecer durante esse período.

O ensaísta inglês Aldous Huxley (1894-1963), no seu livro Admirável Mundo Novo, levantou a possibilidade de, durante o sono, se aprender ouvindo textos previamente gravados. Explorando experimentalmente essa hipótese, vários investigadores têm demonstrado que é durante o sono REM que se processa a fixação da memória.

Em 1966, foi lançada uma das primeiras teorias relacionando o sono REM à memória. Segundo vários autores, em fetos humanos o aumento repetitivo na atividade neuronal observado no sono REM está associado com crescimento e desenvolvimento dos neurônios. E esse fenômeno continua a acontecer durante o sono REM ao longo de toda a vida pós-natal.

Esse conceito foi o ponto de referência da chamada Estabilização Dinâmica que afirma que as informações tanto herdadas como aprendidas são relembradas pelo uso repetitivo dos circuitos neurais onde elas estão armazenadas.

A estabilização dinâmica é o disparo espontâneo desses neurônios durante o sono REM e isto teria o mesmo efeito que a memória. Essa teoria também diz que o sono REM aumenta a atividade dos circuitos neuronais que geralmente ficam em estado latente ou inativo durante a vigília. Em outras palavras, fatos que são aparentemente esquecidos no nosso dia-a-dia são liberados durante o sono REM sob a forma de sonhos, de tal modo que possamos relembrá-los em caso de necessidade.

De acordo com a filosofia racionalista cristã, cada espírito tem gravado no seu perispírito (ou corpo astral), toda a sua vida pretérita, desde a sua origem, e a continuam gravando eternamente. É através desse interminável registro que o espírito, ao desencarnar, revê toda a sua vida passada analisando-a minuciosamente para poder planejar, então, sua próxima encarnação, se for esse o caso.

José Amorim, em seu livro Energia Programada: A Mecânica do Perispírito, compara nosso corpo astral a um computador do qual nosso espírito é o operador e, em cujo disco rígido, ele vai gravando todos os seus atos e pensamentos diários desde os primeiros momentos de sua existência presente e pretérita.

Diz ainda nossa Doutrina: durante o sono, o espírito se afasta do seu corpo físico para ir a seu mundo de luz ficando, porém, ligado a ele por cordões fluídicos.

Levando em consideração todos esses fatos, poderíamos, então, admitir que durantes as várias fases REM do sono o espírito retornaria brevemente ao seu corpo físico para gravar todos os eventos diários que estavam provisoriamente armazenados no hipocampo em moléculas de RNA (ácido ribonucléico). Ou seja, ele salva em seu perispírito todo esse material consolidando, assim, essa memória. Seria, portanto, o retorno do espírito ao seu corpo físico que faria esse sono ser paradoxal.

Um fato, já observado pelos cientistas, poderia dar apoio a essa hipótese: na infância e na adolescência, o sono REM tem duração muito mais longa do que no adulto. Talvez esse alongamento do sono REM nas crianças e nos adolescentes aconteça porque os processos de desenvolvimento e crescimento ocorrem de um modo muito acelerado, gerando, assim, uma maior quantidade de material à ser gravado.

Finalmente, por que não admitir que os sonhos fazem parte também desse processo? Ao manipular diariamente o gigantesco disco rígido desse computador astral, o espírito, muito provavelmente, terá que organizar os vários arquivos que ali já se encontravam gravados. Isso seria feito através de uma, como que, desfragmentação do disco rígido, procedendo, assim, da mesma forma com que nós organizamos periodicamente o disco rígido do nosso microcomputador. Ao proceder essa desfragmentação, o conteúdo de alguns desses arquivos, muitas vezes pertencentes a encarnações pretéritas, poderia, então, ser vivenciado sob a forma de sonhos.

Embora todas essas idéias hipotéticas sejam altamente especulativas, talvez no futuro, elas possam ser devidamente investigadas. Uma coisa, porém, parece certa: enquanto os neurocientistas não admitirem ser o sono e os sonhos um processo puramente espiritual, eles não conseguirão encontrar a resposta adequada para a pergunta que os vem perseguindo ultimamente: Afinal, por que dormimos?

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS


Bibliografia consultada e/ou mencionada no texto

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