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O polêmico retorno das Psicocirurgias

Glaci Ribeiro da Silva

[...]Tendo fundado, com meu companheiro Luiz Alves Thomaz, dois hospitais para normalização de loucos, que existiram até 1916, um em Santos [...] e outro no Rio de Janeiro [...], ficaram até os mais céticos convencidos de que a obsessão só poderia ser curada com o emprego de método e da disciplina aconselhados pelo Centro Redentor. (Luiz de Mattos, no livro Cartas oportunas sobre o espiritismo)

O envolvimento do lobo frontal nas emoções já era conhecido desde os últimos anos do século 19. Esse conhecimento resultou tanto de observações clínicas, quando essa parte do cérebro era destruída por acidentes ou tumores, como também, através de experiências feitas em animais de laboratório em que esse lobo era lesado ou retirado. O advento da anestesia e da assepsia e o progresso das técnicas cirúrgicas estimulavam nessa época a realização de procedimentos no cérebro que nunca haviam sido tentados antes. Por isso, vários pioneiros foram atraídos para a Neurocirurgia como Sir Victor Horsley, do Reino Unido, Harvey Cushing, dos Estados Unidos e Antônio Egas Muniz, de Portugal.

Foi dentro deste contexto que, em 1935, Egas Muniz, um Neuropsiquiatra e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, propôs pela primeira vez o tratamento cirúrgico para as Doenças Mentais. Esse tratamento ficou conhecido por Neuropsicocirurgia ou, simplesmente, Psicocirurgia.

A base teórica para esta proposta de Egas Muniz era um achado experimental obtido poucos anos antes em chimpanzés onde certos sintomas neuróticos, induzidos artificialmente nesses animais, tendiam a diminuir quando eram seccionados os feixes nervosos que ligavam o lobo frontal ao resto do cérebro. A essa técnica psicocirúrgica ele denominou Lobotomia ou Leucotomia, pois o instrumento cirúrgico usado para realizá-la chamava-se "leucótomo". A primeira cirurgia desse tipo foi realizada em 1936 por Almeida Lima sob a supervisão de Egas Muniz.

Os resultados obtidos com a lobotomia foram naquela época considerados tão bons para controlar Psicoses, Temperamentos Violentos e Depressões Severas que, em pouco tempo, esse procedimento foi adotado em vários países e usado principalmente nos pacientes internados em Clínicas e Hospitais Psiquiátricos. Por esse feito, em 1949 Egas Muniz recebeu o Prêmio Nobel de Medicina.

Desde que foi adotada, a lobotomia tem passado por períodos de euforia e outros de intensa rejeição tanto pela classe médica como pela sociedade. Essa foi uma das poucas práticas médicas que passaram do auge — com direito até a um prêmio Nobel — ao descrédito total em pouco mais de 20 anos.

Quem acompanhou esse processo ou viu filmes como Um Estranho no Ninho e Laranja Mecânica entende bem o porquê dessa queda. No primeiro, o personagem de Jack Nicholson se tornava um verdadeiro zumbi depois de ser submetido a uma lobotomia para controlar o seu temperamento considerado problemático. E, no segundo, um filme de ficção científica, há uma cena inspirada na Psicocirurgia em que o ator Malcon McDowell aparece em uma sessão de controle cerebral.

Nos anos 50 a lobotomia e outras formas de leucotomia foram sendo abandonadas pois, não somente foram surgindo novos medicamentos para controlar Ansiedade, Depressão e Psicoses, como também por causa das seqüelas incapacitantes e do uso abusivo que era feito dessa técnica.

Mas, quando isso aconteceu, a lobotomia já havia feito muitas vítimas pois, durante um período de 10 anos, mais de 50.000 pessoas no mundo haviam sido submetidas a ela. Algumas dessas vítimas eram personalidades bem conhecidas, como é o caso de uma das irmãs do ex-Presidente americano John Kennedy e o da atriz Frances Farmer. Muitas vezes a lobotomia foi feita de forma totalmente arbitrária em crianças problemáticas, adolescentes rebeldes e, até mesmo, em oponentes políticos.

Atualmente, a orientação terapêutica convencional mais aceita para doença psiquiátrica envolve uma combinação de psicoterapia, medicamentos e, em algumas instâncias, terapia eletroconvulsiva (essa terapia também não é inócua pois costuma deixar seqüelas).

Muitos pacientes, porém, não respondem adequadamente a essa conduta e permanecem severamente incapacitados. E, é nesse tipo de pacientes, chamados pelos psiquiatras de Resistentes ou Refratários, que a Psicocirurgia está sendo proposta como uma alternativa ao tratamento convencional.

Assim, cerca de 50 anos após a lobotomia ter caído em desuso, as Psicocirurgias voltaram a ser consideradas como uma opção terapêutica válida em psiquiatria.

Tal opção não é ainda um consenso entre neurocirurgiões e psiquiatras, mas muitos deles atualmente têm sido favoráveis a essa idéia. Nesse assunto, os Psicólogos são seus fortes opositores mas, em vários países do mundo como os Estados Unidos e a Inglaterra, o procedimento já é regulamentado e realizado em Universidades como a Harvard e a Brown.

No Brasil a Psicocirurgia já é feita em Goiânia e no Rio de Janeiro e começa a ganhar espaço no importante Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, que é considerado um hospital de drenagem por receber doentes de todo o território brasileiro. No momento, já existem dois grupos independentes nesse Hospital tentando implementar essa rotina.

Hoje em dia, o que se propõe é um procedimento bem menos invasivo — a chamada Neurocirurgia Estereotáxica Funcional. Através dela e amparados pelas modernas técnicas de mapeamento cerebral, os cirurgiões fazem furos milimétricos no crânio por onde introduzem eletrodos emissores de radiofreqüência que, por aquecimento, destroem pequenas regiões do cérebro. Uma outra versão dessa técnica é a radiocirurgia por gamma knife (do inglês, faca à raio gama) que concentra 201 feixes de raio gama no ponto que se quer destruir. Nesta última técnica, não há sequer a necessidade da abertura do crânio do paciente.

Essas pequenas lesões cirúrgicas têm sido usadas agora para controlar, por exemplo, comportamentos violentos causados por tumores intracranianos, focos epiléticos localizados na região "emocional" do cérebro, agressividade crônica imotivada e ansiedade crônica. Segundo os neurocirurgiões, elas não afetam significantemente o intelecto e as emoções dos pacientes.

No entanto, apesar de todo esse refinamento técnico que se propõe usar agora, uma coisa não mudou: continua existindo a polêmica de que as cirurgias psiquiátricas possam servir para controlar o comportamento ou causar danos irreversíveis. E, esse controle parece ser justificado, pois o grande desenvolvimento científico ocorrido no estudo dos Comportamentos concorreu muito para o uso entusiasmado dessa cirurgia pelos médicos.

No Brasil, o Ministério da Saúde é contrário à Psicocirurgia alegando que não existem ainda suficientes evidências científicas para autorizar um procedimento como este que, segundo dados estatísticos recentes, envolve riscos para o paciente.

Apesar dos cuidados que os profissionais da área afirmam tomar, permanece o medo dentro e fora da comunidade científica de que essas cirurgias sejam feitas sem o devido critério e respeito pelo ser humano.

O Conselho Federal de Medicina, embora tenha emitido várias resoluções a esse respeito, deixou nelas várias brechas devido ao texto das mesmas serem ambíguos. Assim, essa polêmica só vai desaparecer quando houver uma lei federal regulamentando essa prática ou proibindo-a de vez.

Depois de várias doenças mentais que, segundo esses profissionais, poderiam ser tratadas cirurgicamente com êxito, a atenção deles está voltada agora para o tratamento cirúrgico do Transtorno Obsessivo Compulsivo (também conhecido pela sigla de TOC). Conduta essa, aliás, já existente em outros países.

O Transtorno Obsessivo Convulsivo é uma das doenças mentais que mais tem desafiado a ciência e, ultimamente, muitas investigações têm sido dedicadas a ela. A ocorrência dessa patologia na população é muito alta e, conseqüentemente, o seu tratamento cirúrgico poderá render grandes lucros aos neurocirurgiões e psiquiatras.

Na descrição que se faz desse transtorno, pode-se observar muitas das características descritas no livro básico da Doutrina, capítulo sobre A Obsessão, cuja sintomatologia os discípulos do Racionalismo Cristão conhecem muito bem.

A Depressão é um dos sintomas presentes em pacientes com Transtorno Obsessivo Convulsivo e, quando ela é muito intensa, o índice de suicídios é alto. Para os psiquiatras, é esse o tipo de paciente que deve ser indicado para a Psicocirurgia, pois, segundo esses profissionais, em geral eles são refratários ao tratamento convencional.

O tratamento cirúrgico do Transtorno Obsessivo Compulsivo foi proposto apoiado em um achado feito por neurocientistas. Eles detectaram em pacientes com essa doença mental alterações na Cápsula Interna e no Cíngulo Anterior — duas regiões do cérebro emocional. No entanto, não foi possível ainda determinar se tais alterações são a Causa ou a Conseqüência desse distúrbio mental. Mas, mesmo assim, essa Psicocirurgia continua sendo realizada...

Dentre as especialidades médicas, é a Cirurgia a que concentra os profissionais mais materialistas. Os cirurgiões, de um modo geral, não costumam ter contato com o paciente enquanto lúcido pois os vêem somente já anestesiados na mesa cirúrgica. Para eles, o que interessa realmente é aquele corpo físico que será durante um certo período o palco onde eles — os grandes heróis — irão atuar demonstrando sua técnica.

O termo Mente é sinônimo de Espírito, de Alma. Logo, doenças mentais são Doenças Espirituais. Portanto, o que poderiam saber tais profissionais sobre Doenças Mentais se para eles existe unicamente a matéria?

E é por desconhecerem isso, que os psiquiatras querem agora ter uma nova fonte de renda submetendo à cirurgia pacientes com Transtorno Convulsivo Obsessivo — na realidade, uma multidão de infelizes avassalados pelo astral inferior.

Mas, para esses profissionais, a palavra espírito lembra Espiritismo, algo que, na sua soberba de donos da verdade, eles desprezam por não considerar científico.

Bem ciente do modo de pensar destes pseudocientistas estava o Fundador da nossa Doutrina — o grande Luiz de Mattos — que já nos anos 30 dizia em seu livro Pela verdade: Devido aos preconceitos, o Espiritismo, como Ciência, tem sido negado e denegrido, e assim continuou ao sabor dos charlatões e supersticiosos, quando ele interessa a todos e, sobretudo, ao homem da ciência.

E, para terminar esse artigo, queremos citar ainda as palavras dirigidas aos seus colegas médicos pelo Dr Antônio Pinheiro Guedes em seu livro Ciência espírita:

Aos médicos eu digo que o espiritismo não só não é um túmulo, antes um berço, onde primeiro se embalou a divina arte de curar; não é a morte, antes dá a vida; que, em vez de povoar os Hospícios, abre-lhes as portas, para fazer sair desses ergástulos, casas de torturas, antros de horror, alguns infelizes que para lá foram empurrados pela mão da medicina materialista.

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS

 

Bibliografia consultada e/ou mencionada no texto

A obsessão. Racionalismo Cristão. 36. ed. Rio de Janeiro: Centro Redentor, 1986. p. 194-202.

A desobsessão. Racionalismo Cristão. 36. ed. Rio de Janeiro: Centro Redentor, 1986. p. 205-207.

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