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Uso da força do pensamento em clínica médica

Glaci Ribeiro da Silva

A força do pensamento tem como medida o grau de evolução do ser humano, e como limite a capacidade que este possuir de utilizar-se dos seus atributos espirituais. [...] Os pensamentos estabelecem verdadeiros climas ambientais proporcionadores de saúde ou de enfermidades . (do livro Racionalismo Cristão).

 

A todo momento, cada um de nós tem a sua própria participação na saúde ou na doença. A palavra participação é usada aqui para indicar a função vital que a pessoa desempenha na manutenção do seu nível de saúde. A grande maioria das pessoas acha que a cura é algo que nos é dado e que, ao terem um problema de saúde, a única coisa que precisam fazer é ir ao médico para que ele se encarregue de curá-la. Em parte, isso é verdade, porém somente em parte.

Todos nós participamos de nossa saúde através de nossas convicções, nossos sentimentos e nossas atitudes em relação à vida. Assim, nossa resposta a qualquer tratamento depende de acreditarmos na eficiência do mesmo e, também, da confiança que temos na equipe médica responsável por ele.

Um programa eficiente de tratamento deve lidar com o ser humano como um todo, e não apenas focalizar a doença. Se o sistema total de mente (espírito), corpo físico e emoções (reações mentais), que constitui o ser humano como um todo, não está trabalhando para recuperar a saúde, então intervenções simplesmente físicas não darão o resultado desejado.

Quando a cura de uma doença ocorre sem que haja uma intervenção física, os médicos dizem que a cura foi espontânea. A palavra espontânea, nesse caso, encobre a ignorância da classe médica atual, da mesma forma que a expressão geração espontânea encobria a ignorância desses mesmos profissionais na Idade Média.

Esta exclusão de convicções e sentimentos da prática médica, além de não ter fundamento científico, deixa de levar em consideração o que muitos médicos consideram ser um dos mais poderosos medicamentos existentes: o placebo.

Louis Lasagna (1923-2003) foi o cientista que criou a metodologia para avaliar os efeitos dos medicamentos. Ele foi um pioneiro da área de Farmacologia Clínica, a ciência que estuda esse assunto. Lasagna fez história publicando em 1954 o primeiro artigo científico que documentava nos pacientes o que ele denominou de efeito placebo.

Devido a suas idéias, esse cientista era conhecido como o Sigmund Freud da Farmacologia Clínica. A descrição do efeito placebo feita por Lasagna foi um fato científico tão memorável que a respeitada revista médica inglesa The Lancet o incluiu entre os 27 mais importantes conhecimentos médicos que tinham acontecido desde a época de Hippocrates, no ano 400 a.C.

Em 1962, o Food and Drug Administration (FDA), a conceituada agência federal americana responsável pelo controle de medicamentos e alimentos, adotou os critérios recomendados por Lasagna. A partir de então, todos os ensaios feitos pela FDA tinham que ter, obrigatoriamente, um grupo Controle contendo um placebo. Toda a ciência foi também afetada por essa descoberta de Lasagna, pois a presença de um grupo Controle passou a ser exigida, também, em todos os dados científicos obtidos experimentalmente.

O termo placebo (do latim, eu agradarei) entrou na língua inglesa no início do século 19. Placebo era o nome dado a todos os remédios que eram receitados aos pacientes mais para agradá-los do que para beneficiá-los.

Embora os médicos clínicos procurem sempre esconder o fato, a grande maioria deles costuma usar placebos. Citaremos abaixo alguns exemplos disso:

Portanto, o único ingrediente ativo do tratamento com placebo parece ser o poder da convicção que os pacientes têm de que receberam um tratamento útil. Resumindo, é o modo de sentir e agir do próprio doente em relação ao seu médico, da confiança que deposita nele e no medicamento que ele lhe receitou (em outras palavras, a sua força de pensamento) o agente responsável pela sua cura. Logo, é a força do pensamento positivo do paciente que faz do placebo um medicamento poderoso.

Mas, afinal de conta, por que esses médicos agem assim? Isso é feito para que os pacientes não se sintam abandonados mas, sim, apoiados e cuidados por eles. Portanto, essa atitude tem a finalidade de criar uma empatia médico-paciente que é muito importante.

A maioria desses profissionais nem se preocupa em saber qual a explicação para o efeito placebo. Alguns simplesmente o ignoram dizendo, muitas vezes desdenhosamente, que a doença era psicossomática... Logo, segundo eles, tudo era produto da imaginação do paciente e, portanto, não podia ser considerada uma doença real.

Existe aí uma distorção do significado da palavra psicossomático, que significa uma doença originada ou agravada por processos psicológicos do indivíduo. Isso não significa absolutamente que a doença é menos real. Assim, uma úlcera gástrica pode ter surgido como resultado de ansiedade e tensão mas isso não faz com que ela seja menos real.

Devido ao materialismo reinante na classe médica em geral, esses mesmos profissionais capazes de usar conscientemente o efeito placebo para favorecer seu paciente se negam a aceitar que a cura espontânea de uma doença pode ser feita pelo próprio paciente. Para que isso ocorra, basta que ele ponha em ação a força do seu pensamento, pois, como nós racionalistas sabemos, o pensamento representa uma força motriz de prodigiosa capacidade para derrotar obstáculos. É citado até no livro básico da nossa Doutrina o seguinte trecho: A história da medicina registra inumeráveis casos de doenças graves cujas curas, por muitos consideradas milagrosas, apenas se deveram à reação espiritual dos próprios enfermos e à atração que souberam exercer das Forças Superiores (do livro, Racionalismo Cristão).

Mas, o pensamento pode ser cultivado e fortalecido pelo poder consciente da vontade (do livro, Racionalismo Cristão). É essa propriedade do pensamento, há muito conhecida dos racionalistas, que tem sido explorada por psicólogos e por médicos clínicos adeptos da Medicina Psicossomática (infelizmente uma minoria entre os clínicos) numa nova técnica chamada biofeedback. Em português, essa palavra pode ser traduzida livremente como retroalimentação biológica. Mas, para evitar longas e desnecessárias explicações sobre o sentido científico dessa palavra, decidimos manter aqui a palavra em inglês.

O biofeedback é hoje considerado não somente uma técnica, mas, praticamente, ele é uma nova área da ciência. Ele foi desenvolvido nos anos 60 do século passado pelo casal de psicólogos Alyce e Elmer Green.

Em seus experimentos, estes dois cientistas mostraram que as pessoas podem ser treinadas para controlar fenômenos fisiológicos tais como a velocidade das batidas do coração, a tensão muscular, a atividade das glândulas sudoríparas, a temperatura da pele, etc. Enfim, foram eles que demonstraram, pela primeira vez, que toda uma variedade de fenômenos fisiológicos que ocorriam independentemente da nossa vontade (involuntários) e que, normalmente, são controlados pelo sistema nervoso autônomo podiam ser controlados voluntariamente pela própria pessoa.

A técnica usada para aprender esse controle é bastante simples: para que o aparelho de biofeedback possa monitorar as funções fisiológicas involuntárias, eletrodos são colocados na pele da pessoa que está sendo treinada. Esse aparelho emite sinais sonoros e/ou visuais que indicam o que está acontecendo com essas funções.

Exemplificando: no caso de a pessoa estar aprendendo a controlar o seu ritmo cardíaco, usa-se como sinalizador um som; ele soa mais alto com o aumento da freqüência cardíaca e mais baixo com a sua queda. Após um certo tempo, a pessoa se dá conta que alguns pensamentos, sensações ou posturas físicas são capazes de induzir modificações na sua freqüência cardíaca. No final desse treinamento, a pessoa aprende a exercer um controle consciente sobre uma determinada função fisiológica involuntária ou autônoma.

O Espírito é o comandante do corpo físico e suas ordens lhe são transmitidas através do pensamento. Portanto, tanto as sensações como as posturas físicas referidas acima são também diretamente dependentes do pensamento. Concluindo, poderíamos dizer que o biofeedback nada mais é do que uma aplicação clínica da força do pensamento.

A Dra. Barbara Brown, outra pioneira na pesquisa sobre o biofeedback, faz a seguinte declaração em um dos seus livros : "[...] As pesquisas realizadas pelo biofeedback são a primeira indicação medicamente testada de que a mente pode eliminar a doença, da mesma forma que a cria." (O grifo é nosso.)

Finalizando, podemos dizer que, no presente artigo, demonstramos, mais uma vez, a ligação estreita que existe entre os ensinamentos da Doutrina racionalista cristã e a Ciência.

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS

 

Bibliografia consultada e/ou mencionada no texto

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