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O culto ao corpo como um possível indutor de obsessão

Glaci Ribeiro da Silva

(...) A obsessão pode apresentar-se de forma sutil, amena, periódica, permanente, branda ou violenta. (...) Seu perigo maior está precisamente em não ser percebida nos seus aspectos menos chocantes pelos que desconhecem as verdades espiritualistas que o Racionalismo Cristão difunde, principalmente na parte referente à vida fora da matéria. (...) Essas criaturas, mesmo quando não aparentam estar obsedadas, criam um clima profundamente danoso a si mesmas e aos membros das famílias ou pessoas com quem convivem, forçados uns e outros a participar do mesmo ambiente, sem possuírem os esclarecimentos capazes de minimizar os efeitos perniciosos da má assistência (do livro Racionalismo Cristão).

Praticar exercícios físicos é uma atividade muito saudável e até recomendada em livros da Doutrina. No entanto, o que temos observado atualmente é um exagero e uma fixação patológica em cultuar o próprio corpo, tornando-se isso o principal objetivo da vida de muitas pessoas. No início, elas apresentam somente uma obsessão amena, porém, com o decorrer do tempo, elas poderão entrar num processo obsessivo mais sério, pois, como nos ensina o Racionalismo Cristão, (...) os obsessores, sempre que a afinidade for intensa, não se apartam da vítima, pelo prazer que têm de permanecer onde se sentem bem (do livro Racionalismo Cristão, capítulo Obsessão).

Pretendemos analisar neste artigo dois aspectos do chamado "culto ao corpo": os transtornos alimentares e o uso abusivo de remédios pelos cultuadores do corpo. E, para ser mais didático, achamos melhor dividi-lo em duas partes, tratando na parte 1 dos transtornos alimentares e, na parte 2, do uso abusivo de remédios pelos cultuadores do corpo.

 

1. Transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são doenças ligadas à área de Saúde Mental. Dois desses transtornos – a anorexia nervosa e a bulimia – têm, atualmente, atraído muito a atenção, tanto dos profissionais das diversas áreas de Saúde Pública como do público leigo e dos cientistas.

Existem dois tipos de distúrbios psiquiátricos que freqüentemente estão presentes em pacientes anoréticos e bulímicos - a Depressão e o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Em um artigo recente publicado na Gazeta Racionalista, fizemos uma análise desses dois distúrbios mostrando a correlação que eles podem ter com a obsessão, fato esse que justifica o título que demos ao presente artigo.

Embora já no século 19 tenham sido descritos pela ciência médica oficial os primeiros casos de anorexia nervosa, somente em 1979 a bulimia foi realmente considerada como um verdadeiro transtorno alimentar.

Na realidade, esses transtornos alimentares sempre existiram, e com os mesmos sintomas. Conforme a época, variava, porém, a motivação ou a razão para que eles surgissem.

As religiões sempre influíram nos hábitos alimentares da humanidade. No início da era cristã, por jejuarem, várias santas chegaram mesmo a morrer de inanição. Na realidade, elas se comportavam como as anoréticas modernas, embora a motivação fosse a purificação do corpo em busca de Deus. Essa influência religiosa sobre nossa alimentação ainda não se extinguiu totalmente, pois, nos dias atuais, ainda existem grupos, como os católicos e os muçulmanos, que praticam jejum ou evitam determinados tipos de alimentos por motivos religiosos.

Por acreditar que induzir vômito poderia fazer bem ao corpo, ou apenas para continuar a comer mais, esse ato era normalmente praticado por alguns egípcios, gregos e romanos. As construções romanas chamadas vomitorium eram os locais usados para vomitar durante os banquetes.

Hoje em dia, quem tem a maior influência sobre nossos hábitos alimentares é a moda. É ela que impõe (e quase exige...) como novo padrão de beleza que as mulheres não engordem e se mantenham cada vez mais magras. O fato de não caber em um vestido, ou um comentário de alguém sobre a forma do seu corpo, são fortes estímulos para que elas iniciem uma dieta. Essas mudanças de padrões estéticos e comportamentais que aconteceram nesses últimos anos são responsáveis pelo verdadeiro surto de transtornos alimentares que observamos nos dias atuais.

A pressão exercida pelo trio magreza-beleza-felicidade, amplamente divulgado e apoiado pela mídia, atingiu em cheio o público feminino, em especial as adolescentes, fazendo com que o culto ao corpo se tornasse, em pouco tempo, a idéia fixa da maioria das mulheres.

Seguindo o rastro dessa filosofia, toda uma maquinaria para ganhar dinheiro foi montada. Assim, a partir da década de 70, houve um aumento crescente no número das academias de ginástica, de revistas especializadas sobre o assunto, da venda de produtos dietéticos, de aparelhos e roupas apropriadas para ginástica, etc.

Portanto, é o poder econômico quem tem agora um grande interesse em perpetuar e estimular a obrigação de toda mulher de ser cada vez mais magra. E isso é feito fazendo-se crer que esse novo padrão estético carrega consigo uma verdadeira receita de felicidade.

Sem dúvida nenhuma, a moda e o estímulo à magreza estão aumentando o risco de se desenvolver um transtorno alimentar. Porém, somos nós mesmos, ou seja a sociedade, quem cria os padrões de beleza. Portanto, se a gente cria, também pode mudá-los. Claro, é preciso coragem para isso, principalmente para agüentar as pressões contrárias dos que ganham dinheiro (e muito!) às custas do culto ao corpo.

Para haver menos chances no aparecimento de complicações graves e, algumas vezes até fatais, causadas por essas duas doenças é importante que seja feita uma identificação precoce da sua existência.

Raramente isso é feito pela própria paciente, pois ela tenta sempre esconder e negar as práticas que, compulsivamente, usa para se manter magra. Cabe, portanto, à família, conhecer os sintomas desses transtornos para estar sempre alerta.

A anorexia nervosa ocorre comumente numa mulher adolescente ou jovem, mas pode igualmente ocorrer no adolescente ou no jovem do sexo masculino, numa criança próxima à puberdade ou até numa mulher de mais idade que já esteja na menopausa.

Essa desordem se caracteriza por uma perda de peso intencional. O termo anorexia significa não ter fome ou não ter apetite. Mas, o paciente com anorexia nervosa tem um apetite normal ou seja, ele não é realmente anoréxico, mas, ele luta contra a fome para perder peso sem que tenha uma necessidade real disso.

Esses pacientes têm um medo mórbido de engordar ou de ser gordo; e, por isso, eles impõem a si mesmos um baixo peso. O forte desejo de emagrecer leva esses pacientes a fazerem dieta, exercícios físicos exagerados, provocarem vômitos após as refeições, e fazerem uso de laxantes, inibidores de apetite e diuréticos.

Além de esses pacientes apresentarem um grau variável de desnutrição, neles podemos observar ainda:

- amenorréia: ausência da menstruação por três meses seguidos, ou mais;
- pele seca ;
- intolerância ao frio;
- queda de cabelo;
- olhos fundos;
- bradicardia: coração bate mais lentamente;
- hipotensão;
- edema: inchaço;
- lanugo: pelos finos recobrindo a pele do rosto e outras partes do corpo;
- irritabilidade.

A depressão e o transtorno obsessivo compulsivo que esses pacientes têm são os responsáveis pelos seguintes sintomas:

1- na depressão: tristeza profunda, perda do gosto pelas coisas, desânimo, diminuição da energia, insônia ou sono muito leve, interrompido e não repousante. Quando a doença está mais avançada podem ocorrer até tentativas de suicídio;

2- no transtorno obsessivo compulsivo: os pacientes têm um comportamento compulsivo e obsessivo ou seja, eles apresentam manias. Essas pessoas são perturbadas por pensamentos e comportamentos que se repetem. Eles se sentem como que aprisionados a eles. Apesar de eles mesmos considerarem esses pensamentos absurdos e desagradáveis, eles não conseguem controlá-los e fazê-los desaparecer. Existem vários exemplos desse tipo de comportamento: algumas dessas pessoas lavam as mãos, compulsivamente e por horas a fio, com medo que elas estejam contaminadas; outras, são assaltadas por dúvidas contínuas e repetidas: se fecharam a porta da casa ou do carro ou o registro de gás do fogão, etc.

A palavra bulimia é derivada do grego bous (boi) e limos (fome) ou seja um apetite tão grande que seria possível uma pessoa comer um boi.

Em mais de 90% dos casos, a bulimia atinge mulheres, principalmente aquelas no início da adolescência e jovens entre 20 e 30 anos.

A paciente bulímica não tem a magreza exagerada da anoréxica. Ela consegue, de um modo geral, manter o peso esperado para sua idade e altura. Mas, por trás disso ela, como a anoréxica, tem também uma insatisfação enorme com o seu corpo (distorção na percepção da imagem corporal).

Na bulimia, existem duas fases que se alternam. Na primeira, chamada de episódio bulímico, a paciente tem freqüentes acessos de compulsão alimentar, ingerindo de uma só vez uma enorme quantidade de alimentos muito calóricos. Geralmente, esses alimentos são doces, possuem uma textura que permite ingeri-los rápido e, freqüentemente, são engolidos sem mastigar. A paciente não consegue controlar nem evitar essa comilança indiscriminada. Algumas bulímicas são capazes até de comer papel, "bitucas" de cigarro e comida para cachorros durante um episódio bulímico. No entanto, é importante lembrar que um episódio bulímico isolado não significa que uma jovem tenha bulimia. Ele precisa ser freqüente: por exemplo, 2 vezes por semana durante três meses seguidos e, também, deve ser acompanhado dos outros sintomas.

A fase que se segue ao episódio bulímico é chamada de purgação. Nela, a paciente, para prevenir o ganho de peso que ela teme que resulte da comilança indiscriminada, faz jejuns prolongados, provoca vômitos, faz exercícios físicos exagerados, usa inibidores de apetite, laxantes e diuréticos.

Além dos sintomas da depressão e do transtorno obsessivo compulsivo já descritos anteriormente, essas pacientes podem apresentar também:

- dor de garganta ou dor de estômago: causadas pelos vômitos freqüentes, pois isso expõe as mucosas do esôfago e da faringe (dor de garganta) ao suco gástrico que é muito ácido. Por outro lado, no próprio estômago se desenvolve uma inflamação (gastrite);

- fraqueza com canseira fácil e desmaios: causados pelas dietas muito severas e pela conseqüente desidratação induzida pelo vômito;

- rosto inchado e dolorido simulando um doente com caxumba: isso ocorre pela estimulação constante que o vômito induz nas glândulas parótidas para que elas secretem saliva;

- dor abdominal, náuseas, diarréia, prisão de ventre e sensação de barriga "inchada": sintomas geralmente causados pelo abuso de laxantes;

- vômitos sangüinolentos: esse sangue provém de feridas no estômago e esôfago causadas pelos vômitos constantes e pelo esforço de vomitar;

- alterações menstruais e infertilidade;

- cãibras e dores musculares: causadas pela falta de nutrientes importantes e pela perda de cálcio e potássio.

Uma descrição mais completa de outros sintomas e mais detalhes sobre bulimia e anorexia nervosa pode ser encontrada em dois artigos que publicamos sobre o assunto no jornal A Razão assim como em vários sites da Internet.

A adolescência é um período onde ocorrem muitas mudanças. A inundação hormonal característica desse período muda totalmente o corpo dos jovens, que agora têm que se readaptar à uma nova imagem corporal. Assim, não é de se estranhar que a época mais crítica para uma criança que tenha predisposição para ter essas doenças seja durante ou logo após a puberdade. As mudanças que ocorrem com elas nesses períodos perturbam e desorientam esses jovens.

Segundo alguns psiquiatras, a decisão de emagrecer, a qualquer custo, pode ser uma tentativa desesperada que eles fazem de controlar nesse novo ambiente tão desgastante, pelo menos, seu próprio corpo.

A causa dessas doenças é até hoje desconhecida pela ciência oficial. Os cientistas que estudam o assunto chegaram à conclusão de que não existe uma causa única para esses transtornos alimentares. Pelo contrário, elas são várias e podem ter três tipos de natureza diferentes: biológicas, psicológicas e socioculturais. Todo esse conjunto de causas se inter-relacionam e, dependendo da pessoa, elas agem com intensidades diferentes. Isso explica o porquê é tão complexo, para o clínico que não tem visão espiritualista, lidar com essas duas patologias.

Isoladamente, cada uma dessas causas não é, provavelmente, suficiente para fazer a desordem alimentar se manifestar. No entanto, ela cria um ambiente favorável para os transtornos se manifestarem em uma pessoa que já é predisposta a tê-los. Fatos isolados como, por exemplo, fazer dietas, viver numa família com tendências perfeccionistas, e mesmo ter um parente próximo com essas doenças, não levam necessariamente ao aparecimento desses transtornos alimentares, pois, eles só são detonados por um conjunto de causas.

Então, é fácil de entender que, para que o médico possa fazer o diagnóstico e tratar adequadamente essas duas doenças, ele precisa investigar muito bem quais as influências biológicas, psicológicas e sociais que contribuíram para o aparecimento delas. Tudo isso pode ser avaliado por um psiquiatra, mas o tratamento desses distúrbios requer a presença de uma equipe multidisciplinar composta por, pelo menos, mais três profissionais: um psicólogo, um clínico geral e um nutricionista.

O tratamento deve ser, sempre que possível, ambulatorial, mas, em casos mais graves, uma internação deve ser indicada. Esses dois transtornos alimentares são doenças crônicas e, portanto, podem apresentar recaídas. A resposta ao tratamento em geral é lenta, demorando cerca de alguns meses. O paciente deve continuar seu tratamento, mesmo que os sintomas tenham melhorado, até que a equipe julgue que ele pode ter alta. É importante salientar que esta decisão de alta nunca deve ser feita apenas pelo próprio paciente pois ele tende a esconder seus sintomas.

Essas desordens alimentares ocorrem mais freqüentemente nas classes sociais mais elevadas. Mas, por envolver toda uma equipe de profissionais qualificados, o seu tratamento torna-se muito caro e, muitas vezes, economicamente insustentável mesmo para uma família mais abastada.

Por essa razão, foi muito louvável a iniciativa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo de criar, em 1992, o Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares – o AMBULIM.

O AMBULIM foi o primeiro centro brasileiro a oferecer tratamento gratuito para esses distúrbios. Ele, além de atender gratuitamente centenas de pacientes de todo o Brasil, está também envolvido em atividades de pesquisa e ensino. Existe ali uma preocupação constante de informar médicos e profissionais de saúde a reconhecer esses transtornos e de alertar pais e adolescentes para que eles busquem precocemente ajuda especializada e competente.

Esperamos que num futuro próximo um profissional da área da Saúde que tenha formação racionalista cristã possa vir a se juntar a um grupo sério como o AMBULIM ou, a outro similar, levando para eles a visão espiritualista dessas duas doenças mentais.


2. Uso abusivo de remédios pelos cultuadores do corpo

(...) Pelo pensamento [os espíritos desencarnados] identificam os sentimentos das criaturas, as suas intenções e tendências, e, disso se prevalecem os obsessores para estimular, pela intuição, os vícios e as fraquezas humanas (do livro Racionalismo Cristão).

 

A ciência médica atual, preocupada em não estigmatizar e criar preconceitos contra certos grupos, tem substituído o termo vício por abuso, sem alterar, porém, o antigo conceito de vício. Assim, a expressão viciado em drogas (drug addiction, em inglês) foi substituída por uso abusivo de drogas (em inglês, drug abuse).

Por ser uma substância química, a maioria dos remédios sintetizados pela indústria farmacêutica são drogas.

O abuso pode ocorrer tanto, com as drogas ilegais (cocaína, maconha, heroína, crack, etc.) como, com os remédios controlados.

Os remédios controlados são identificados pela tarja vermelha ou preta em sua embalagem. Essas tarjas são símbolos usados para mostrar que eles só podem ser vendidos com receita médica, pois são controlados pela Vigilância Sanitária, um órgão do Ministério da Saúde.

Os dois principais grupos de remédios que podem ser abusados pelos cultuadores do corpo são os inibidores de apetite e os anabolizantes.

A beleza física é um atributo desejado por todos. Mas, ao contrário do que a maioria pensa, ela está muito mais ligada à auto-estima do que com a relação peso-altura, ou com o tamanho e a quantidade de músculos que uma pessoa tem.

Por influência de fatores sócio-culturais e do modismo, o padrão de beleza física desejável está constantemente mudando. Antigamente, a gordura, em ambos os sexos, estava associada ao poder, à saúde e, em alguns lugares do mundo, à beleza.

No caso da mulher, a imagem rechonchuda, além de saúde corporal e riqueza, significava, também, fertilidade e maternidade, que era o papel principal exercido na sociedade pelas mulheres daquela época. No século XVII, por exemplo, a moda era ser gorda e os pintores de então retratavam sempre mulheres rechonchudas. Este é o caso de Rubens, um importante pintor dessa época que fez quase dois mil quadros retratando mulheres que, pelos padrões atuais, seriam consideradas muito obesas. Assim, por meio da pintura, os artistas mostravam como a sociedade desejava ver as mulheres e, portanto, como elas gostariam de ser.

Nos dias atuais, refletindo a mudança do comportamento feminino na sociedade, onde a mulher, além de ser mãe, exerce, também, outros papéis importantes, a imagem feminina padronizada mudou radicalmente, da mulher obesa para a mulher magra, esta última representando independência, autoconfiança e sucesso. É a mulher magra que predomina entre as artistas de televisão, nos concursos de beleza e nas modelos de alta costura.

Atualmente, a moda diz que ser bem magra é muito importante, e as pessoas, sem perceberem, acabam pensando que se fossem magras como uma modelo seriam amadas, felizes, ricas e famosas...

Fazer dieta e tomar remédios para emagrecer é, nos dias atuais, uma verdadeira obsessão. E ela atinge principalmente as mulheres. A maioria das mulheres que fazem regime, que tomam esses remédios e que sofrem com medo da balança não precisaria e nem deveria estar fazendo nada disso. Agindo assim, elas estão somente aumentando os riscos para sua saúde.

A população adolescente é sempre a mais atingida por esse modismo. Os adolescentes têm a tendência de se enturmar e, para não se sentirem excluídos da sua turma, eles seguem rigidamente as regras ditadas por ela. E isso inclui o aspecto físico imposto pela moda do momento. A pressão social pela magreza, a cruel associação de que ser magra é sinônimo de sucesso e de felicidade, atingem esses jovens principalmente através dos meios de comunicação, pois esse padrão é amplamente divulgado e apoiado pela mídia.

Por estar às voltas com um corpo em formação, estes adolescentes sofrem porque se acham gordos, ou muito magros, ou porque não têm músculos muito desenvolvidos, ou têm seios pequenos ou grandes demais – enfim, eles se acham uns desengonçados... E, por isso, são capazes de transformar estes pequenos incômodos em grandes tragédias. Tudo isso tende a piorar ainda mais devido a uma outra característica dos jovens: eles adoram se olhar no espelho... Outra situação é ainda mais desesperante para eles: a exposição exagerada do corpo, que ocorre principalmente num país tropical como o Brasil.

Para manter um corpo saudável e jovem nada substitui a associação de uma alimentação racional e equilibrada com exercícios físicos moderados. Mas, na pressa de resolver logo essa situação, é comprando remédios no balcão da farmácia mais próxima que as pessoas procuram resolver esses problemas. Esta solução simplista geralmente não é a melhor e, além disto, envolve riscos, alguns deles bastante sérios.

A publicidade costuma vender produtos criando pontos fracos em seus consumidores potenciais e prometendo resolver estes problemas.

A indústria farmacêutica, uma das mais poderosas do mundo, usou esta técnica publicitária para lançar no mercado os chamados anorexígenos, inibidores ou moderadores de apetite. Nasceu, assim, uma indústria de emagrecimento estimada em quase uma centena de bilhões de dólares. A propaganda maciça e agressiva que essa industria fez destes produtos atingiu em cheio a classe médica que passou a receitá-los sem o necessário embasamento científico. E, na maioria das vezes, por insistência dos próprios clientes.

Em resumo, é o fator econômico que, juntamente com o sócio-cultural, incentiva e mantém a imagem da mulher moderna ideal como devendo ser cada vez mais magra.

Logicamente, ser realmente obeso não é uma coisa saudável. A obesidade real, aquela chamada mórbida deve sempre ter um tratamento médico adequado.

Não falaremos aqui do tratamento da obesidade em si, mas sim, do uso indevido dos inibidores de apetite por pessoas com peso ligeiramente acima do normal.

Mas, o que se nota na grande maioria dos casos é uma inversão de papéis: o diagnóstico de obesidade não é feito por um médico, mas sim, pelo próprio paciente que se acha gordo o que, no seu entender, é razão suficiente para se automedicar ou para pressionar o médico a lhe prescrever um inibidor de apetite.

Estas pessoas, em geral, têm pouco conhecimento sobre o remédio que estão usando. E a maioria delas tem as seguintes idéias sobre eles:

eles queimam gordura: este tipo de idéia faz com que a pessoa se sinta tentada a aumentar a dose do remédio que é recomendada, com o objetivo de queimar gordura mais rapidamente, expondo-a, portanto, ainda a maiores riscos;

a formula que eu uso é natural e foi feita em uma farmácia de manipulação especialmente para resolver o meu problema: estas pessoas se sentem a salvo por não estarem usando um produto farmacêutico comercial. O fato de o remédio conter em sua fórmula produtos de origem vegetal, faz com que elas tenham a falsa idéia de que são produtos naturais e, que por isto, eles não fazem mal à saúde. Isso é reforçado pelo fato de certas farmácias de manipulação usarem nomes como "natura", "natureza", "mãe terra" etc.

– estas pessoas tendem a dar ao remédio um poder total para torná-las magras, esquecendo-se por completo de hábitos saudáveis como reeducação alimentar, exercícios físicos , etc.

– geralmente as pessoas desconhecem completamente os efeitos colaterais destes remédios, tais como, causar dependência, alterações cardíacas, alterações do sistema nervoso, etc


Inibidores de apetite

Nosso apetite é controlado pelo Sistema Nervoso Central (SNC), ou seja, pelo cérebro. A grande maioria dos inibidores de apetite é derivada de uma substância chamada anfetamina. Como essa droga é um estimulante do SNC ela, além de inibir o apetite, provoca agitação, nervosismo, tremores na mão, insônia, taquicardia, etc. Logicamente, esses outros efeitos são colaterais ou adversos, pois não são desejáveis para quem quer somente inibir ou moderar o seu apetite. Para neutralizar esses efeitos adversos, são adicionados aos inibidores de apetite um calmante do tipo diazepínico. E aí reside um outro perigo destes medicamentos, pois, após um curto período de uso, a pessoa se torna viciada nessas duas substâncias: os derivados da anfetamina e os calmantes diazepínicos.

O Brasil é um dos campeões mundiais do consumo de inibidores de apetite anfetamínicos. Nos anos 80, este consumo chegava a ser de 23,6 toneladas anuais. Contrastando com isso, o consumo de psico-estimulantes na Europa, já na década de 80, era vinte vezes menor do que no Brasil. Atualmente, esse consumo, quando comparado ao nosso, é irrisório.

Num relatório das Nações Unidas feito na década de 90, o Brasil era citado como o maior importador de Fenproporex, um dos inibidores de apetite tipo anfetamínico muito utilizado entre nós. O Brasil importa cerca de 60% (!!!) da produção mundial desta droga. Por esse motivo, houve uma solicitação das Nações Unidas para que nosso país justificasse as razões desse alto consumo.

O aumento crescente do consumo dessas drogas e os risco que isso envolvia fez o Ministério da Saúde criar, em 1993, um Grupo de Estudo dos Anorexígenos. Esse grupo era formado por vários profissionais da área de Saúde e tinha como objetivo analisar o consumo que estava sendo feito dessas drogas encontrando estratégias para uma utilização racional das mesmas no tratamento da obesidade.

Em novembro de 1993, esse grupo elaborou um parecer para o Ministério da Saúde cujos tópicos principais estamos transcrevendo, resumidamente, abaixo:

  1. o alto consumo brasileiro de drogas inibidoras do apetite não ocorre, como se poderia supor, por automedicação, mas sim, por canais lícitos, isto é através de prescrição médica;
  2. quem basicamente vende essas drogas são as farmácias de manipulação (também chamadas de farmácias magistrais), e não a indústria farmacêutica através de medicamentos industrializados;
  3. a grande maioria das formulações elaboradas pelas farmácias de manipulação possui benzodiazepínicos associados a drogas tipo-anfetamina.
  4. em resumo, são as farmácias de manipulação que exercem um papel preponderante nessa realidade;
  5. esse achado pode explicar a verdadeira explosão no número de farmácias de manipulação que foram abertas nestes últimos anos;
  6. as anfetaminas e os benzodiazepínicos são os medicamentos mais consumidos com finalidade não médica por estudantes do primeiro e do segundo graus;
  7. apesar desse consumo ser ilícito, a maior parte dele se dá pelas vias lícitas, isto é: existe um paciente, um médico devidamente autorizado e uma prescrição totalmente de acordo com as regras brasileiras. No caso das formulações, existe ainda uma farmácia autorizada pelo Ministério da Saúde a manipular drogas psicotrópicas, e um farmacêutico devidamente habilitado a aviar esta formulação;
  8. foi constatado que formulações pré-fabricadas são vendidas em locais não apropriados, como consultórios médicos, butiques, casa de artigos femininos, etc.;
  9. a mais séria decorrência do abuso das formulações, sem haver o devido controle, é a gravíssima constatação de que, um número muito grande de produtos ditos naturais contém, fraudulentamente, as drogas anfetamínicas e benzodiazepínicas sem serem mencionadas no rótulo.

Depois desse estudo, um grande número de farmácias de manipulação foram fechadas em São Paulo por ordem do Ministério da Saúde, e uma maior vigilância está sendo exercida sobre a prescrição e a venda não autorizada de anorexígenos.


Esteróides anabolizantes

Os anabolizantes são substâncias que promovem a retenção do nitrogênio fornecido com a alimentação, aumentando assim a síntese de proteínas. Os anabolizantes promovem, também, a deposição dessas proteínas no tecido muscular estriado esquelético. Como conseqüência disto, estas substâncias têm a propriedade de aumentar a musculatura e o peso corporal.

No entanto, esses agentes, quer sejam naturais ou sintéticos, não são isentos de riscos para quem os toma, pois podem, inclusive, desenvolver processos cancerígenos.

Dois dos hormônios produzidos pelo nosso organismo possuem propriedade anabolizantes. Eles são a testosterona, que é o hormônio masculino, e o hormônio de crescimento, também conhecido como GH (sigla, em inglês, para "growth hormone").

A testosterona ou andrógeno é produzida nos testículos e possui uma estrutura esteroidal (vem daí a expressão esteróide anabolizante). O hormônio de crescimento é fabricado na hipófise anterior (adenohipófise) e tem uma estrutura protéica.

Essa diferença estrutural entre esses dois hormônios explica, também, por que se pode tomar um anabolizante esteróide pela via oral, enquanto que o GH tem que ser injetado por via intramuscular ou por via subcutânea. Isto acontece porque, ao contrário das proteínas, como é o caso do GH, os esteróides não são destruídos pelo suco gástrico.

O fato de a testosterona ser anabolizante é a razão fisiológica dos machos, na grande maioria das espécies, possuírem músculos mais desenvolvidos do que as fêmeas.

Os hormônios anabolizantes têm uso médico específico, mas, também são usados indiscriminadamente (uso abusivo) por cultuadores do corpo e por atletas. Seu uso, neste último caso, prende-se à busca de fazer crescer a massa muscular dos atletas para que eles possam ter um maior rendimento físico. Essa prática é considerada como dopping pelas entidades esportivas.

Vamos, agora, descrever mais detalhadamente as características desses dois tipos de anabolizantes.

Quando produzidos pelo organismo, os hormônios esteróides são de importância fundamental. Entre eles estão os hormônios sexuais, tanto os femininos como o masculino.

Os esteróides anabolizantes comercializados são substâncias que têm estrutura semelhante à testosterona, mas que são produzidas pela indústria farmacêutica. Trata-se, portanto, de produtos sintéticos. Nos laboratórios dessas indústrias, a estrutura química dos andrógenos naturais é modificada para aumentar sua propriedade anabólica e diminuir os seus outros efeitos.

Medicamentos à base dessas substâncias são usados pelos médicos para ajudar a tratar várias doenças como, por exemplo, a anemia aplástica, o câncer da mama feminina, etc. Eles podem ser usados, também, para melhorar as condições de pacientes muito debilitados, como os doentes com câncer avançado ou com AIDS. Essas drogas aumentam o apetite contribuindo, assim, para melhorar o estado geral desses pacientes.

No entanto, estes medicamentos, que são úteis quando receitados pelos médicos à certos pacientes, podem se tornar muito perigosos quando tomados por conta própria.

O uso abusivo de anabolizantes é feito por alguns atletas profissionais, tanto do sexo masculino como do feminino, e por homens jovens, geralmente adolescentes. Os primeiros, tomam estas substâncias na expectativa de melhorar sua força física e seu desempenho atlético, e, os segundos, para melhorar seu aspecto físico.

Os cientistas têm demonstrado que em pessoas sadias, embora os efeitos nocivos destes remédios sempre se manifestem, o mesmo não acontece com o tão sonhado aumento de musculatura...

Por isto, na tentativa de ver seu corpo coberto de músculos, essas pessoas costumam tomar doses diárias enormes desses esteróides – até 26 vezes maiores do que aquelas receitadas pelos médicos!!! Isso faz com que os efeitos nocivos e tóxicos destes medicamentos sejam também potencializados tornando essa conduta muito perigosa, pois danifica seriamente a saúde do usuário.

Os efeitos dessas drogas no organismo humano são devastadores. Os mais sérios são o infarto do miocárdio – causa muito comum da morte súbita de jovens atletas tomadores de esteróides anabolizantes e, também, uma grande predisposição para desenvolver câncer de fígado.

No caso dos homens, os anabolizantes também estão relacionados com câncer de próstata. Como essa droga atrofia os testículos, ela gera queda do apetite sexual (libido), impotência e esterilidade masculina. Os homens usuários dessas drogas estão sujeitos também a um aumento exagerado das mamas (ginecomastia).

Tem crescido entre esses homens uma doença comumente associada ao sexo feminino – o câncer de mama. Isto ocorre pela inibição que esses esteróides sintéticos produzem na secreção do hormônio natural – a testosterona. E, é essa queda no nível de testosterona endógena que provoca a ginecomastia, aumentando, assim, as chances de aparecimento de tumores mamários malignos.

Nas mulheres, além da maioria dos efeitos adversos já descritos para os homens, aparece também hirsutismo (aumento dos pelos no corpo), voz grossa, alopecia (queda de cabelo) e acne (espinhas).

Os efeitos anabolizantes desses esteróides desaparecem rapidamente quando a pessoa deixa de tomá-los, mas os efeitos adversos por eles induzidos, e que citamos acima, são irreversíveis, ou seja, permanecem mesmo na ausência da droga.

Ultimamente, esses produtos têm sido divulgados e vendidos livremente pela Internet. Os adolescentes, com todas as inseguranças e instabilidade emocional que lhe são características, são, é claro, o principal alvo desse tipo de comércio. E, mais sério e preocupante ainda, é o fato desses anabolizantes serem vendidos disfarçadamente como suplementos alimentares. A ânsia desses jovens de imitarem heróis da televisão ou artistas de cinema acaba fazendo deles a principal vítima desse comércio desonesto.

As pessoas do sexo masculino foram sempre as maiores vítimas dos esteróides anabolizantes. No sexo feminino, esse abuso existia somente entre as atletas.

No entanto, recentemente, o modismo de ter o corpo delineado atingiu em cheio as mulheres fazendo com que a quantidade de músculos admissível num corpo feminino aumentasse gradativamente. Entramos, assim, na era do corpo malhado, onde a mulher perdeu o medo de ter sua feminilidade questionada ficando musculosa. Com isso, tanto a industria farmacêutica arrumou uma outra freguesia, como as mulheres se juntaram aos homens como vítimas dessas drogas. Fica claro que o maior componente feminino usuário desses anabolizantes é, novamente, a adolescente.


Hormônio do crescimento (GH)

O GH é um dos hormônios responsáveis pela distribuição de nutrientes em nosso organismo. Ele é também o responsável pelo crescimento tanto geral como localizado. Embora essa seja a sua ação mais evidente, ele também possui outras funções tais como: aumentar a massa muscular, fortalecer os ossos, aumentar a capacidade cardíaca e pulmonar e, mesmo, atuar positivamente na esfera mental, melhorando a memória, por exemplo.

A diminuição da sua secreção durante a infância produz o chamado nanismo hipofisário, ou seja, se a criança não for tratada com GH se tornará um adulto anão.

O efeito anabolizante do GH é muito mais discreto do que aquele produzido pelos esteróides anabolizantes. Mas, o GH tem também um efeito lipolítico, ou seja, ele destrói gordura. Isso acontece devido à ação que o GH tem sobre o metabolismo das gorduras promovendo a sua mobilização. Como conseqüência, ao invés da glicose – seu combustível natural – o organismo passará a usar esta gordura mobilizada como combustível, queimando-a (ação lipolítica).

É esse efeito lipolítico do GH que, juntamente com o seu efeito anabolizante, despertou o interesse dos atletas, fisiculturistas e levantadores de peso. Porém, não demorou muito para que tais conhecimentos chegassem, também, aos ouvidos da população leiga.

Dois fatos influenciaram a recente popularização do uso abusivo do GH entre os leigos. Um deles tem natureza econômica e, o outro, está intrinsecamente relacionado com o próprio hormônio.

Por ter estrutura protéica, o GH é um hormônio difícil de ser obtido. Inicialmente, ele era extraído de cadáveres humanos e vendido a preços astronômicos. Atualmente, usa-se o GH sintético que é fabricado por bactérias manipuladas geneticamente (engenharia genética) e, embora ele continue ainda bastante caro, o seu preço, a partir dos anos 80, começou a cair facilitando assim a sua aquisição.

O outro fato, o de natureza intrínseca relacionado ao GH propriamente, é que esse hormônio não produz o efeito colateral mais temido pelos usuários de anabolizantes esteróides: a inibição da libido e a impotência.

A divulgação desses fatos foi amplamente comemorada pelos adeptos do GH e, também, pela indústria farmacêutica. Entre 1997 e 1998, foi registrado no Brasil um aumento de 80% nas vendas de GH. Paralelamente, neste mesmo período, o faturamento da indústria farmacêutica com a venda do produto no nosso país saltava de 70 milhões para 150 milhões de dólares.

O GH é um produto controlado pelo Ministério da Saúde que só autoriza sua venda com receita médica. Depois de se ter transformado numa das substâncias com trânsito corrente entre ricaços e artistas de Hollywood, ampolas da droga estão invadindo, na surdina, academias de ginástica e centros de estética brasileiros. E é justamente nesses locais que funciona o mercado paralelo e ilegal do hormônio que, geralmente, entra no país através do contrabando. Mas, apesar do preço, que ainda é alto e da picada dolorida (hormônio protéico só age quando administrado através de injeção intramuscular ou subcutânea), o abuso do GH tem crescido muito, não só entre os esportistas, mas, também, entre freqüentadores de academias – jovens, na sua grande maioria.

O uso deste hormônio por atletas também é considerado dopping. Mas, infelizmente, não existe até agora um método simples que permita detectá-lo na urina ou no sangue, como acontece com os esteróides anabolizantes. Coisa que convém muito aos atletas e que, é claro, faz aumentar ainda mais o abuso da droga entre eles.

O GH foi comercializado desde os anos 60. Ele era medicamento indicado somente para crianças com baixa estatura. Com a redução de preço devido ao lançamento no mercado do GH sintético, apareceram outras indicações médicas do GH em doenças de adultos. Com o objetivo de recuperar a massa muscular, aumentar o peso e melhorar o estado geral, idosos muito debilitados, aidéticos e pacientes com câncer em estágio avançado começaram a ser tratados com GH. Realmente, a melhora física e psicológica desses indivíduos durante o tratamento com GH é nítida, mas não se sabe, ainda, quais os efeitos de uma sobrecarga desse hormônio em pessoas saudáveis.

Não demorou muito, porém, para que essa conduta médica chegasse aos ouvidos das pessoas saudáveis e cultuadoras do corpo. Se aumentava os músculos de doentes com AIDS, por que não os dos "malhadores" de academia? Consumida em surdina, essa nova "bomba" faz muito sucesso, sobretudo entre os executivos e os jovens ricos, que podem pagar seu preço.

Mas, usar abusivamente GH é tão devastador quanto o uso indiscriminado de esteróides anabolizantes. Talvez, pior ainda, pois no caso do GH, esses efeitos colaterais ainda não foram devidamente estudados.

Embora o GH não altere a libido e a potência dos seus usuários, ele faz outros estragos que podem, também, ser irreversíveis. Assim, por exemplo:

1 - se o usuário tiver predisposição genética para diabetes, é quase certo que tomando a droga ele se tornará um diabético;

2 - como o hormônio estimula a multiplicação celular (é assim que ele aumenta a musculatura), existem suspeitas de que ele esteja envolvido no desenvolvimento de câncer;

3 - o GH pode produzir também um crescimento ósseo anormal. Devido a isso, os seus usuários podem apresentar queixos pontudos, mãos desproporcionais e dores nas articulações;

4 - o fato do GH ser lipolítico faz com que ocorra um aumento de ácidos graxos no sangue, pois a gordura é formada por "tijolinhos" desse ácido. Esse sangue rico em ácidos graxos, ao passar pelo fígado, pode levar ao que se chama de "fígado gorduroso" – uma patologia grave que além de atrapalhar as funções desse órgão tão importante no nosso organismo, pode até predispô-lo ao câncer;

5 - da mesma forma como ocorre com os esteróides anabolizantes, o uso abusivo do hormônio também pode causar aumento no volume das mamas;

6 - aumento da musculatura cardíaca. O coração fica sobrecarregado podendo haver falência cardíaca.

Mas, ao que parece, mesmo sem o aval da ciência, o sucesso do GH continua a aumentar entre a população leiga. Como existem substâncias que, fisiologicamente, são capazes de estimular a secreção do hormônio pela hipófise, são elas, agora, o novo alvo dos usuários abusivos do GH. Laboratórios americanos estão vendendo um coquetel dessas substâncias estimulantes. O coquetel bomba é perfeito para quem não gosta de injeção, pois ele é vendido em tabletes efervescentes...

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS

 

Bibliografia sobre transtornos alimentares que foi consultada ou mencionada no texto

Cordás, T. A., Cobelo, A., Fleitlich, B., Guimarães, D. S. B. e Schomer, E. (1998). Anorexia e Bulimia: Um guia de orientação para pais e familiares, ed. Táki Athanássios Cordás, Alicia Cobelo, Bacy Fleitlich e Ester Shomer; Editora Artmed (Porto Alegre).

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Glaci Ribeiro da Silva (2003) Um Limite Estreito Separa a Depressão da Obsessão. Gazeta Racionalista, dezembro de 2003.

 

Bibliografia sobre inibidores de apetite e anabolizantes que foi consultada ou mencionada no texto

 

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