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O atavismo e as teorias que procuram explicá-lo

Glaci Ribeiro da Silva

Como a capa de um livro velho a que se tivessem arrancado as folhas, e cujo título e cujos dourados houvesse o tempo apagado, aqui jaz servindo de pasto aos vermes o corpo do impressor Benjamin Franklin. Nem por isso essa obra se perderá, porque, como pensa o autor, ela será novamente impressa em edição mais elegante, e por ele revista e corrigida. Epitáfio escrito pelo próprio Benjamin Franklin (Alberto Seabra, no livro O problema do além e do destino).

Atavismo (do latim, atavus, quarto avô, + ismo) ou regressão evolucionária são termos usados em genética que significam o ressurgimento numa determinada geração de certos sintomas ou caracteres tidos como já extintos.

As semelhanças físicas ou psicológicas com parentes remotos e não com os mais recentes tem sido largamente explorada em literatura desde a tragédia grega até os romances de época. No século 19 vários romancistas souberam tirar proveito das analogias hereditárias remotas para criar seus personagens. Isso pode ser observado, por exemplo, tanto no livro Os Maias, de Eça de Queiroz, como naqueles de Jack London cujo tema se relaciona com problemas de adaptação ao meio ambiente como é o caso de O apelo da selva (Call of the Wild, 1903) e Caninos brancos (White Fang, 1906).

O tema atavismo esteve abandonado na maior parte do século 20, pois os geneticistas relutavam em aceitar uma regressão evolucionária por estarem conscientes de que a evolução é irreversível, ou seja, não pode voltar atrás.

A teoria da irreversibilidade da evolução foi sugerida em 1890 pelo paleontólogo belga Louis Dollo. Para ele, um organismo é incapaz de retornar, mesmo que parcialmente, a um estágio anterior já vivido por seus antepassados. No início do século 20 essa lei de Dollo foi confirmada por análise estatística mostrando que a probabilidade da ocorrência do atavismo é muito rara. Ainda assim, as exceções que apareciam intrigavam cada vez mais os cientistas levando a moderna genética a reassumir em 1990 o tema atavismo transformando-o novamente numa linha de pesquisa.

Quase todas as células animais e vegetais possuem um mecanismo fisiológico capaz de silenciar determinados genes. Segundo a teoria de Rudolf Raff surgida em 1994, à ativação desses genes silenciosos poderia explicar o atavismo pois características perdidas há muito tempo poderiam reaparecer. Os resultados experimentais mostraram que essas regressões são realmente factíveis mas apenas para um passado evolucionário de no máximo 10 milhões de anos.

Portanto, segundo Raff a evolução seria irreversível porque nela ocorre perda de genes mas em alguns casos um atavismo poderia ocorrer como conseqüência da ativação de genes silenciosos.

Esse período de até 10 milhões de anos limitando o surgimento do atavismo vem sendo atualmente contestado por vários biólogos evolucionistas que, diante de resultados experimentais, passaram a procurar para justificar esse fenômeno outras explicações não relacionadas com os genes silenciosos.

Em biologia, a história evolucionária das espécies é chamada de Filogenia; e o desenvolvimento de um ser desde a fecundação até a maturidade, de Ontogenia.

Tendo esses conceitos como base, um biólogo da Universidade de Yale – Wagner Günther, propôs em 2006 uma nova teoria para explicar o atavismo; que, segundo ele, estaria relacionado com o desenvolvimento do feto no útero uma vez que durante esse período a ontogênese repete a filogênese.

Todo embrião desenvolve traços ancestrais; os de cobra, golfinhos e baleias, por exemplo, apresentam membros posteriores; os humanos têm um início de cauda. Através de instruções genéticas essas características vão desaparecendo durante o desenvolvimento embrionário.

No entanto, se essas instruções não são seguidas, muitas vezes devido a uma mutação, a característica ancestral permanece caracterizando o que Gunther chama de "atavismo legítimo".

Esse fato de estruturas ancestrais começarem a se desenvolver e depois serem descartadas acontece porque algumas delas continuam tendo um papel importante na evolução. Um exemplo disso é a corda dorsal ou notocórdio, uma estrutura celular em forma de bastão que funciona como um eixo primitivo para o embrião e que servirá como modelo para a coluna vertebral.

No entanto, outras características embrionárias transitórias, caso dos membros posteriores na baleia, por exemplo, são de fato difíceis de serem explicados. Uma possível razão seria o aproveitamento dos genes envolvidos nesses tipos de estruturas na produção de outras partes do corpo: não existe um gene para a perna e outro para a cauda e, sim, genes que formam padrões de suporte de várias estruturas; nos insetos e nos pássaros, a composição genética das asas é uma variante daquela das pernas; pêlos, dentes, penas e escamas são também variantes; por isso certas disfunções fazem pêlos brotar na gengiva de algumas pessoas. Em resumo, certos genes nem sempre permanecem silenciosos; eles podem sobreviver além dos 10 milhões de anos sendo, portanto, plausível que instruções genéticas antigas e já adormecidas retornem à vida.

Existem muito casos na literatura médica nos quais parte do corpo humano parecem ter revertido ao estado ancestral – de caninos grandes a dedos dos pés semelhantes aos dos chimpanzés.

A condição que mais freqüentemente é citada é a hipertricose; nela o rosto e outras partes do corpo estão recobertas por pêlos espessos; ela é conhecida como Síndrome do Lobisomem; se isso for verdadeiro não se trata de uma regressão aos símios – nossos antepassados recentes, pois chimpanzés e gorilas possuem poucos pêlos faciais.

Desde 2002, o grupo da Universidade de Leiden (Holanda) vem estudando certas síndromes comportamentais que poderiam ser atávicas. Esse é o caso da cataplexia ou paralisia do medo; onde uma frouxidão, uma fraqueza muscular surge diante de uma emoção forte da mesma forma que animais ficam imobilizados diante de faróis de automóveis, por exemplo. Também pode ser atavismo nosso hábito de mexer os lábios quando executamos uma tarefa complicada; comportamento esse, similar ao dos nossos antepassados símios que geralmente usam mãos e boca ao mesmo tempo.

Todas essas suposições, no entanto, só poderão ser comprovadas quando sua base genética for devidamente esclarecida. Todavia, é quase certo ser um atavismo o fato de certos bebês nascerem com caudas; sobre o assunto já existem na literatura médica mais de 100 relatórios; algumas caudas são somente uma extensão da coluna vertebral; outras, porém, são mais completas com uma vértebra, ligamentos e músculo podendo mesmo se mover.

Bernhard Herrmann, um especialista no desenvolvimento embriológico da coluna vertebral que trabalha no Instituto Max Plank para Genética Molecular defende essa idéia com muita ênfase.

Diz ele: "A habilidade de criar uma cauda aparece em todos os vertebrados: no desenvolvimento e no alongamento do embrião vários segmentos se formam; os primeiros, tornam-se o dorso, enquanto outros formam a cauda; mas o processo inicial e o conjunto de genes envolvidos são os mesmos; nos humanos, o processo é interrompido cedo mas o processo de alongamento pode continuar."

De acordo com Andrew Copp, do Instituto da Saúde da Criança em Londres, que identificou alguns dos genes envolvidos na formação da cauda, no embrião há um mecanismo de medição de tempo; ele é inerente a cada espécie sendo o responsável pela interrupção do crescimento da cauda no momento certo para cada espécie.

A cauda embrionária humana uma vez formada sofre autodestruição através de um processo programado de morte celular; e aquela rudimentar que é visível em embriões de cinco semanas de vida intra-uterina se funde para formar o cóccix. Portanto, caudas humanas podem resultar tanto de uma falha no sistema de autodestruição, como, também, de num alongamento excessivo do embrião.

Em resumo, se a ciência materialista tem conseguido explicar o atavismo nos animais irracionais através somente da genética, nos humanos ela provavelmente encontrará dificuldades para fazer o mesmo. Todavia, se a teoria da reencarnação fosse aceita por seus cientistas, o fenômeno vital do atavismo seria facilmente explicado também nos humanos. Esse esclarecimento seria racional e completo pois abrangeria tanto o atavismo psíquico – moral e intelectual –, como também o do próprio corpo físico.

A teoria que explica o atavismo através da reencarnação data do século 19; ela foi proposta em 1870 pelo médico-espiritualista Dr. Antônio Pinheiro Guedes (1842-1908) e está detalhada no seu livro Ciência espírita. O assunto foi também abordado por Luiz de Mattos no livro Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria, pois é essa a teoria defendida pelo Racionalismo Cristão – a Doutrina da Verdade, onde o raciocínio lógico impera soberano. (ver Bibliografia).

Os animais irracionais são somente os laboratórios, as oficinas usadas por frações, partículas individualizadas, da Força Inteligente (ou Deus, como é conhecida vulgarmente) para processar sua evolução nos diferentes reinos da natureza.

Ao iniciar sua evolução no reino mineral cada uma dessas partículas conta com os mesmos recursos, encontra-se em idênticas condições e possui valores latentes idênticos. Por isso se desenvolve igualmente, na mesma proporção, no reino vegetal e animal até alcançar o reino hominal onde se denomina Espírito.

Já a evolução de cada Espírito é individual e ocorre de modo independente, pois ele já é dotado de livre-arbítrio para conduzir-se por sua conta e risco. Nesse caso a evolução é feita através de uma sucessão de encarnações; e, em cada uma delas, o espírito possui corpos físicos diferentes.

Esses corpos físicos são criados pelo próprio espírito que vivifica e molda matéria fluídica primordial imprimindo-lhe uma feição específica, exclusivamente sua. Esse processo está descrito no livro Ciência espírita de Pinheiros Guedes, e foi também desdobrado, detalhado, no nosso artigo "Uso terapêutico do fluido cósmico" (ver Bibliografia).

Essa feição específica está estreitamente correlacionada com os planos que o próprio espírito traçou no seu mundo astral para a nova encarnação; por essa razão, esses materiais fluídicos são moldados por ele segundo as suas necessidades no cumprimento desse roteiro evolutivo; gênero de vida e condição social, por exemplo. Todos esses fatores terão influência no aspecto, na aparência do seu corpo físico e serão mais visíveis no auge do seu desenvolvimento, ou seja, na idade adulta.

O espírito traz, ainda, consigo as reações instintivas do animal irracional; assim, certas características que alguns deles imprimem ao moldar o corpo físico, fazem lembrar certos traços fisionômicos de animais que naturalmente a Força ocupou em vidas passadas; e, igualmente, embora mais brandos, também seus instintos.

De modo similar, essa teoria explicaria também a ocorrência de homens com formas e gostos femininos ou, de mulheres, com aspecto e aptidões masculinas. Fatos como esses são facilmente explicados se levarmos em consideração que o espírito não tem sexo; a decisão de ter um corpo feminino ou masculino na nova encarnação cabe ao próprio espírito e depende do plano evolutivo traçado por ele.

Assim, espíritos que foram mulheres por encarnações seguidas tendem a organizar corpos com características femininas mesmo que o sexo escolhido tenha sido o masculino; no caso inverso, pode ocorrer o mesmo. Logo, até o homossexualismo – um tema polêmico para o qual até hoje a ciência materialista busca inutilmente um esclarecimento adequado –, poderia encontrar na teoria sobre o atavismo defendida pela ciência racionalista cristã sua interpretação lógica e racional.

Mas como explicar então através dessa teoria o papel da genética? O espírito poderia manipular os genes?

Acreditamos que sim; por ser uma partícula da Força Criadora e dispor de livre-arbítrio ele poderia não só manipular genes para construir seu corpo físico, como também determinar seu próprio sexo selecionando o espermatozóide que irá fecundar o óvulo no momento da fecundação. Essa nossa teoria de determinação do sexo está detalhada no artigo "O cérebro: dimorfismo sexual e inteligência" (ver Bibliografia).

Recentemente, os cientistas vêm percebendo que os vírus desempenham um papel fundamental na evolução da vida na Terra, pois eles se assemelham muito aos genes: esses são constituídos por ácido desoxirribonucléico (DNA); e, os vírus, são potencialmente capazes de produzir DNA.

Como a evolução das espécies, segundo os geneticistas, ocorre através de alterações no DNA (ou seja, mutação), poderíamos dizer que a mutação é uma decorrência da evolução da Força particulada que utilizaria os vírus como ferramenta para realizar esse fenômeno; logo, sendo o espírito o clímax da evolução dessa Força na Natureza seria perfeitamente cabível admitir que ele tenha o poder de manipular genes.

Essa é a instigante teoria que defendemos no artigo "Os vírus e a evolução" que foi publicado em junho de 2006 na Gazeta do Racionalismo Cristão (ver Bibliografia).

Além de construir seu corpo físico, o espírito também faz o mesmo com seu corpo astral (ou espiritual) que já traz consigo do seu mundo de estágio; esse corpo é constituído pela matéria fluídica da atmosfera desse mundo e modelado, moldado, pela vibração dos pensamentos contínuos e ininterruptos emitidos pelo espírito. Quanto mais adiantados forem esses mundos, mais diáfana e leve é a matéria fluídica de que são compostos os corpos astrais. No entanto, se o espírito quando encarnado não souber viver racionalmente as duas vidas – material e espiritual – ele irá embrutecendo seu corpo astral tornando-o pesado e denso devido à introdução de fluidos da atmosfera da Terra.

No corpo astral está guardado, armazenado, tudo que aconteceu na trajetória evolutiva de cada espírito; ali está a memória dos atos praticados, dos pensamentos e dos sentimentos.

É essa conservação no corpo astral não só do caráter, gostos, inclinações e aptidões mas até de certas feições, atitudes e formas adquiridas em existências anteriores – próxima ou remota – que, realmente pode dar uma base sólida para uma explicação lógica, racional e verdadeira do atavismo moral e psíquico.

E através dele, facilmente se compreenderá por que uma criatura já nasce músico, poeta, escritor, artista plástico, comerciante, soldado, advogado ou médico.

Fácil será perceber, então, o quanto é danoso – e inútil – certos pais mal orientados e prepotentes barrarem as vocações inatas dos seus filhos.

As religiões ocidentais sempre negaram e combateram com muita intransigência a reencarnação; e isso persiste até hoje, apesar das gritantes e insuspeitas provas da sua existência.

A explicação dessa intransigência reside no fato de reencarnação e salvação serem idéias que se atritam, se chocam, por serem antagônicas e irreconciliáveis.

Como essas religiões têm como base o conceito de salvação, – intimamente ligado aos favores financeiros do perdão –, revelar a seus adeptos a verdade sobre reencarnação faria desaparecer uma das fontes de renda que sustentam essas organizações religiosas.

A grande maioria dos cientistas são livre-pensadores; e muitos deles apóiam a idéia da reencarnação. No entanto, fazer ciência custa caro e todo cientista para trabalhar e desenvolver seus projetos depende das verbas fornecidas por agências de fomento que apóiam pesquisa.

Portanto, da mesma forma que as religiões ocidentais negam a reencarnação, a ciência materialista prefere – comodamente – ignorá-la.

Bibliografia

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www.racionalismocristao.org\gazeta\saude\fluido-cosmico.html

Junho de 2007

 

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