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Mediunidade e fobias

Colaboração de Julio César do Nascimento

Caros amigos da Racionalista, (23-10-2003)

Encontrar o equilíbrio em meio à situação de conturbação por que passa a sociedade é um desafio adicional que todos os espíritos encarnados na atualidade têm que enfrentar. Conhecer os princípios que a medicina identifica como as causas de certos distúrbios de comportamento e orgânicos é um passo a mais para que a pessoa possa, valendo-se do seu raciocínio e do conhecimento real que a prática do Racionalismo Cristão vai lhe proporcionando, auxiliar a si próprio e aos nossos iguais em situação de sofrimento e auto-superação.

Segue, em especial para os nossos companheiros e companheiras mais dotadas de mediunidade, esta informação colhida no site da revista Cérebro e mente que, se meditada em conjunto com o conteúdo da palestra que proferi, e que se encontra na Gazeta, e mais o capítulo O Pensamento, do livro Racionalismo Cristão, pode auxiliar na mudança de estado de perturbação para o de equilíbrio.

Texto do Dr Cyro Masci (psiquiatra)

Fobias são um "pânico com objeto", ou seja, são crises de pânico que somente acontecem em situações ou lugares específicos. É importante entender como uma crise de pânico é formada. Para isso, é interessante comparar sua cabeça com um carro que possui um alarme contra ladrões, desses que basta você encostar-se à carroceria para ele disparar. Esse sistema de alarme é o cérebro antigo, em especial o sistema límbico, com suas reações de luta ou fuga. Esse alarme tem que tocar em situações de perigo real. No entanto, para certas pessoas, esse sinal de perigo é desencadeado sem nenhuma razão aparente, como você talvez já tenha visto em estacionamentos quando um alarme de carro dispara sem que nada tenha acontecido. Essa situação é conhecida como ataque de pânico. Para outras pessoas, esse alarme é disparado em situações indevidas, como por exemplo, em elevadores, lugares fechados, ou no trânsito. Essa situação é conhecida como fobia. A síndrome do pânico é uma mistura dessas duas situações. Numa primeira fase, quem tem o transtorno (= síndrome) do pânico tem ataques sem motivo algum. E numa segunda fase, passa a ter os mesmos sintomas nas situações ou lugares em que já teve os ataques. Assim, se a pessoa tem um ataque dentro de um carro, passa a evitar dirigir sozinha, ou não dirige mais. Se foi num lugar fechado, passa a não entrar em bancos, shopping centers, cinemas, teatros. Ou se entra, procura ficar bem próximo da saída... E, para muitos, o simples fato de pensar, lembrar ou ver uma imagem da situação já é o bastante para desencadear a crise.

Quem sofre de fobia, ao se deparar (ou, às vezes, simplesmente imaginar) com as situações que desencadeiam suas crises, sente um enorme medo, em geral acompanhado de pelo menos quatro dos seguintes sintomas:

a. falta de ar;
b. palpitações;
c. dor ou desconforto no peito;
d. sensação de sufocamento ou afogamento;
e. tontura ou vertigem;
f.  sensação de falta de realidade;
g. formigamento;
h. ondas de calor ou de frio;
i. sudorese;
j. sensação de desmaio, tremores ou sacudidelas;
k. medo de morrer ou de enlouquecer ou de perder o controle.

O que diferencia, em grande parte, alguém que tenha fobia de uma pessoa que tenha simples medo é que pessoas com fobia passam a evitar, a qualquer custo, as situações que desencadeiam as crises, alterando sua rotina de vida. Pacientes fóbicos com freqüência têm suas vidas complicadas por dois fatores. O primeiro é que em geral não confiam na sua capacidade de enfrentar os sintomas, temendo qualquer lugar onde não possa contar com ajuda. E o segundo é que costumam super valorizar os sintomas, achando literalmente que vão morrer, que vão ter um ataque do coração, um derrame, ou que possuem alguma doença grave e misteriosa. A maior conseqüência da primeira complicação (a falta de confiança nos próprios recursos) é um isolamento progressivo, um empobrecimento de vida que impede a maioria das ações do dia-a-dia. E a maior conseqüência da segunda complicação (a catastrofização dos sintomas) é uma eterna busca por cuidados médicos ao mesmo tempo que pequenos sinais do corpo já são interpretados como indícios de que a crise está vindo, de que a morte pode chegar a qualquer momento.

Quem sofre de fobia tem suas crises de pânico desencadeadas por alguma situação específica (as fobias) no cérebro antigo. Quando começa a sentir as sensações de luta ou fuga (o alarme de emergência), imediatamente é inundado por imagens de catástrofe. Essa interpretação dos sintomas como sendo uma catástrofe é recebida pelo cérebro antigo novamente, aumentando os sintomas a níveis estratosféricos. Ao mesmo tempo, sua respiração fica bastante alterada, o que muda a química do sangue de maneira significativa.

Essa mudança na química do sangue, por si só, aumenta ou desencadeia novas crises. Aí, então, os sintomas são muito assustadores. Como os sintomas são muito desagradáveis, isso acaba por confirmar na cabeça da pessoa que realmente os sintomas iniciais indicavam um grande problema. Em outras palavras, os sintomas asseguram na imaginação da pessoa que ela realmente corria perigo. Essa situação é percebida pelo cérebro antigo, que tenta ajudar da única maneira que consegue: desencadeando novas reações de luta ou fuga, novas crises de pânico. E assim o ciclo vicioso se fechou.

Até a década de 50, imperava a teoria psicanalítica das neuroses. Em poucas palavras, um sintoma psíquico era considerado como a ponta de um iceberg. De nada adiantaria retirar essa ponta porque o gelo iria subir, e os sintomas iriam reaparecer. O tratamento, portanto, consistia em destruir (ou melhor, reestruturar) todo o iceberg, o que somente seria possível com anos de análise. O resultado prático sempre ficou bem abaixo das expectativas. Na década de 50, surgem os primeiros trabalhos do psiquiatra sul-africano Joseph Wolpe, falecido há poucos meses, que inicia seu processo de inibição recíproca, posteriormente denominado dessensibilização sistemática, baseado em trabalhos da década de 20 de Watson. Em síntese, esse grande médico começou a tratar pacientes com fobias associando uma sensação de prazer e relaxamento a situações imaginárias ou reais de medo e evitação. Como o relaxamento é incompatível com o medo, a fobia tende a desaparecer em pouco tempo.

De modo geral, o tratamento das fobias está baseado na quebra do link entre as sensações de desprazer e as situações ou objetos que desencadeiam as crises. Assim, se um elevador gera um reflexo de medo, é possível quebrar esse aprendizado desfazendo o ciclo vicioso.

Isso é obtido de diversas maneiras. A mais conhecida é a dessensibilização sistemática. O paciente é primeiramente treinado em técnicas de relaxamento profundo. Em seguida, o terapeuta instiga-o a aproximar-se, de maneira gradual e sistemática, do objeto ou situação que lhe provoca medo, culminando numa dessensibilização. Após o treinamento em relaxamento, o paciente é convidado a escrever todos os seus medos, já que, em geral, são vários, atribuindo uma hierarquia do maior para o menor medo. Inicia-se, então, o processo pelo menor medo. Vou usar como exemplo um elevador. Assim que o paciente é colocado em relaxamento profundo, o terapeuta convida o paciente a imaginar que está na rua, em frente a um prédio com elevador. A qualquer momento o paciente pode indicar com a mão se está muito ansioso, o que pode interromper o processo, ou levar o terapeuta a aprofundar o relaxamento. Se o paciente tolerar bem a idéia, o terapeuta segue em frente, convidando o paciente a imaginar que está entrando no prédio e agora parando em frente ao elevador. Tolerado esse passo, o terapeuta sugere que o paciente imagine estar entrando no elevador, mas a porta não se fecha. E assim por diante, até que o paciente tolere imaginar que está num elevador cheio de gente, num andar alto, e que o mesmo pare momentaneamente. Tão logo essa fobia seja tratada, a próxima da lista recomeça o processo, até que todas as fobias sejam abordadas.

Tem sido usado, também com sucesso, o monitoramento do paciente com equipamento de biofeedback, onde suas funções vitais como pulso, resistência de pele ou respiração, são monitoradas por equipamento computadorizado possibilitando um acompanhamento mais objetivo. Uma variante da atualidade é a dessensibilização virtual. Aqui, o paciente enfrenta seu medo não imaginando, mas sim vivenciando as situações em ambiente virtual. Em geral seu pulso é monitorado e, tão logo o terapeuta perceba aumento significativo da freqüência cardíaca, congela a imagem e induz relaxamento. Várias formas alternativas ou complementares também têm sido usadas. Por exemplo, em pacientes com síndrome do pânico, após o controle das crises com medicação específica (em geral inibidores seletivos de recaptação de serotonina) inicia-se um processo de exposição ao vivo, quando o paciente, com ou sem auxílio de terapeuta, vai ao encontro das situações que lhe causavam medo. Ele se expõe, sempre de maneira gradual e progressiva, não tem mais a crise (controladas pela medicação), e com algumas exposições desfaz-se a fobia. Para outras fobias não desenvolvidas em função do pânico, têm sido utilizados métodos como inundação de estresse, onde o paciente – com seu consentimento – é inundado por seus medos, até que seu cérebro "perceba" que não existe risco. Têm sido relatados resultados interessantes com esse método, e parece que não funciona apenas em fobias originárias de transtorno de pânico.

Outro método recente tem sido o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), originariamente utilizado em tratamento do estresse pós-traumático, mas que parece oferecer bons resultados. Nesta recente forma de terapia – começou há apenas 10 anos – os dois hemisférios cerebrais são alternadamente estimulados, originariamente com movimentos oculares e mais recentemente com estímulos tácteis ou auditivos, enquanto o terapeuta estimula o paciente a vivenciar seus pensamentos, sensações e imagens fóbicas, com o objetivo de alterar o processamento das memórias.

Tenho um testemunho para lhes dar: gostaria de mencionar que não tinha lido o e-mail da nossa Maria Manuela Silva quando, ao tentar abrir o site da revista Cérebro e mente sem sucesso, resolvi tentar por atalhos de artigos e dei de encontro com o artigo do Dr. Cyro. Comecei a copiar para ler com mais vagar noutra hora e logo resolvi compartilhar com os amigos da lista.

Agora que li o e-mail da Sra. Maria Silva, estou a entender melhor o meu impulso. Espero que este venha a lhe ser realmente útil.

Colaboração de Julio César do Nascimento, Monte Alto - SP.
Publicado na Lista RC em 23 de outubro de 2003

 

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