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A mediunidade e a ciência médica

Julio César do Nascimento

Muitos dos amigos têm manifestado o interesse em pesquisa sobre mediunidade e paranormalidade no âmbito da ciência oficial e faço aqui cópia do texto colhido no site da revista digital Cérebro e mente (http://www.epub.org.br/cm/).

O texto foi produzido pelos profissionais mencionados abaixo. Suprimi as imagens porque na nossa lista elas seriam glosadas pela Yahoo (que é o provedor que hospeda o grupo), porém, os interessados podem examiná-las no mencionado site.

Como comentário pessoal, gostaria de acrescentar que a ciência médica, com o recurso atual de mapeamento das ondas cerebrais, já se aproxima da identificação da natureza da vibração que propicia o transe mediúnico.

Parece ainda um tanto distante da identificação da origem, uma vez que credita aos efeitos as causas, julgando que as ondas cerebrais dão ensejo ao fenômeno, quando estas, na verdade, propiciam à mente objetiva a percepção do que vai noutra esfera de manifestação imaterial. Este vício de origem, na verdade contraria uma das premissas do pensamento científico, quando ao perscrutar um fenômeno e se depara o pesquisador com fatos não mensuráveis pelo seu instrumental, vai ele de encontro à natureza do que pretende analisar e evoca teoria que compreenda o fenômeno. Com o desenvolvimento da teoria e dos especialistas em instrumentação dentro do âmbito que se pretende confirmar ou refutar na teoria amiúde surgem os meios ou observações que a confirmam.

A teoria espírita já surgiu. Os instrumentos, médiuns, por aí estão. Falta da parte da ciência oficial o amadurecimento e análise desapaixonada no sentido da outra hipótese básica na pesquisa, pois as hipóteses científicas se comprovam por negação ou por afirmação, mas sempre com instrumental adequado.

Gostei do texto pela sua veracidade. Os autores são francos ao concluir com a mesma perplexidade que acometera outros pesquisadores do passado, quando buscam identificar por meios físicos a gênese de fenômeno espiritual.

Eis o texto:

Paranormalidade ou manifestações psicóticas ? Relato de caso.

Jorge Martins de Oliveira e Júlio Rocha do Amaral

Este é um relato bizarro a respeito de uma personalidade singular. GUV – é assim que a chamaremos a partir de agora, para preservar sua identidade real – é um homem jovem, com 20 anos de idade, que alguns meses atrás, em janeiro de 1998 para ser preciso, veio pela primeira vez ao nosso consultório, acompanhado por seus pais, relatando a ocorrência de fatos muito incomuns.

Aos 12 anos de idade, GUV descobriu ser capaz de ver as "auras" das pessoas ao seu redor e, aproximadamente na mesma época, ele começou a ouvir vozes estranhas e a ver coisas estranhas, como por exemplo, objetos móveis, em forma de espirais, que ameaçavam capturá-lo. Logo as espirais desapareceram e GUV começou a sentir-se perseguido por alguma "presença" vaga que, inicialmente, não podia ser identificada.

Posteriormente, no entanto, ele sentiu que o "perseguidor" era algum tipo de entidade espiritual, um intruso, como ele o chama, que até o presente tenta, com freqüência, penetrar em sua mente, para controlar sua vida. Isto originou uma luta quase diária entre o eu de GUV e a entidade. Às vezes, o intruso ataca com força total, dominando a vontade do jovem. Outras vezes, a entidade parece mais fraca e GUV consegue livrar-se dela, após alguns momentos de guerra mental. Mas é sempre uma batalha cansativa, que deixa nosso paciente física e mentalmente exausto. Quando o intruso ataca, GUV experimenta um tipo especial de convulsão, parecendo-se as contorções de seu corpo com os movimentos oscilantes de uma cobra, enquanto sua expressão facial é a de uma pessoa que está fazendo um tremendo esforço mental para livrar-se de uma ameaça invisível. Em diversas ocasiões tivemos a oportunidade de presenciar estes fenômenos.

De acordo com GUV, a entidade geralmente diz-lhe para segui-la, mas sem nunca especificar para onde. Durante algum tempo, há mais ou menos 7 anos, o intruso insistentemente sugeria que GUV cometesse suicídio para que pudessem estar unidos, permanentemente, após sua morte. Por diversas vezes GUV esteve próximo de suicidar-se, mas o instinto de sobrevivência prevaleceu e a entidade finalmente desistiu.

Entretanto, os convites para segui-la persistem até hoje. GUV não somente ouve como também vê o intruso, como algo muito real, capaz de aparecer em qualquer lugar, a qualquer hora.

Uma vez ele nos deu um exemplo de como as coisas acontecem: ele está em um quarto e, de repente, sente que o intruso está do lado de fora, bem perto; ele pode mesmo detectar a presença da entidade por sua "aura" que se esgueira por baixo da porta. Segundos mais tarde, o intruso atravessa a parede ou a porta fechada e aparece próximo dele.

De acordo com o nosso paciente, a entidade tem a forma de uma mulher, com um rosto que não pode ser descrito com precisão. Parece mais uma imagem enevoada, sem contornos definidos. Entretanto, com o tempo, GUV descobriu – assim afirma – que a forma humana era um disfarce para a real imagem da entidade: a de um lobo.

GUV é bem desenvolvido fisicamente, embora de compleição franzina, com o rosto quase imberbe. Seus olhos exibem uma mistura de atenção e ansiedade. Ele é muito inteligente e seus argumentos são lógicos, mesmo quando está defendendo ou justificando seus delírios. Ele é, também, muito afetuoso em relação aos seus parentes e não parece abrigar suspeitas paranóicas contra as pessoas em geral, embora ressinta o fato de que ninguém entende os seus poderes mentais excepcionais e muitas pessoas o tratem como se fosse louco. GUV está definitivamente convencido de que é um paranormal e, por sê-lo, está capacitado a comunicar-se com espíritos e entidades. Conseqüentemente, ele "sabe", por exemplo, com absoluta certeza, que o "lobo" é o diabo.

Entre os diversos episódios de alucinações e delírios experimentados por GUV ao longo dos anos, um é particularmente notável: Há poucos meses, enquanto ele estava deitado em sua cama, embora definitivamente acordado (ele está absolutamente seguro disso), um anjo materializou-se subitamente, pegou-o pela mão, destacou-o do seu corpo material (que ele podia ver claramente, enquanto ascendia) e levou-o a um lugar muito acima da Terra. O local assemelhava-se a um templo gigantesco. Lá, entre duas fileiras de anjos, GUV viu-se face a face com Jesus Cristo que, de acordo com a descrição de GUV, é um homem de bela aparência, com olhos extremamente gentis e penetrantes.

Disse-lhe, então, Jesus que o tinha escolhido para realizar uma importante missão, um pouco antes do tempo em que Ele (Jesus) deveria retornar ao nosso Planeta. A natureza de tal missão não foi mencionada. De acordo com GUV, à direita de Jesus havia uma espécie de janela aberta, através da qual podia-se ver, não muito distante, uma enorme galáxia com uma luz extremamente brilhante no centro. GUV teve, e ainda tem, a sensação que a galáxia era Deus.

Explorando sua história passada, descobrimos dois fatos que, na nossa opinião, desempenharam papéis significativos na gênese de seu distúrbio mental: O primeiro fato foi, com certeza, uma experiência extremamente nociva para a estrutura psicológica do paciente: Desde a infância de GUV, uma de suas tias costumava levá-lo para assistir sessões espíritas, nas quais o menino presenciava a manifestação de entidades benignas e malignas através de médiuns em transe. Assim, sua mente altamente sugestionável absorveu a idéia da existência de forças sobrenaturais boas e más, que detinham o poder de interferir com sua vida. Uma das conseqüências foi que GUV adotou, como uma espécie de guia protetor, o espírito de um preto velho (figura considerada como entidade benigna em diversos cultos afro-brasileiros), que nosso paciente "incorpora" durante algumas de suas manifestações delirantes.

Este guia, assim o crê GUV, é capaz, às vezes mas não sempre, de protegê-lo contra o "lobo" e outras entidades malignas que tentam atormentar sua mente. Posteriormente, durante o período em que ele estava em tratamento e sob nossa freqüente supervisão, tivemos diversas oportunidades de observar GUV incorporar seu guia. Durante esses eventos ele adotava a típica postura de um velho, reproduzindo, exatamente, o que se observa quando episódios similares, envolvendo entidades idênticas, ocorrem em locais nos quais são realizadas sessões espíritas.

Obviamente, GUV está reproduzindo eventos que ele observou no passado e permaneceram gravados em sua mente. Estabeleceu-se, assim, o primeiro dano psicológico. O segundo fato importante ocorreu quando ele tinha 7 anos e seus pais o enviaram para uma escola dirigida por seguidores de uma ordem rigorosamente evangélica. Apesar de sua susceptibilidade à sugestão, GUV pode ser, por vezes, paradoxalmente, muito teimoso na defesa de alguns pontos de vista particulares. Assim, ele sistematicamente recusava aceitar o que considerava ser uma doutrinação fanática que tentavam lhe impor. Por causa disso, uma das professoras religiosas costumava punir o garoto, confinando-o, por longos períodos de tempo, dentro de um quarto escuro, dizendo que ele ali ficaria, na companhia de Satã, como punição por recusar-se a se transformar em um "cristão verdadeiro".

Isto durou um ano, mas GUV nada informou a seus pais, por medo, uma vez que a professora ameaçou-o com perseguições demoníacas adicionais, caso ele contasse a qualquer pessoa a respeito dos castigos que estava recebendo. Quando, finalmente, os pais de GUV descobriram o que acontecia, tiraram-no da escola. No entanto, o segundo dano psicológico já havia sido estabelecido.

GUV foi tratado por psicólogos e psiquiatras mas, de acordo com ele mesmo e com seus pais, os resultados nunca foram satisfatórios. Apenas uma vez, por um período muito curto de tempo, alguma melhora foi obtida, enquanto tomava pimozide (droga anti-psicótica que exerce sua ação bloqueando receptores dopaminérgicos centrais pré e pós-sinápticos). Entretanto, a medicação foi abandonada após algumas semanas porque, conforme afirmou sua mãe, o medicamento fez GUV tornar-se ainda mais irritável e agitado.

Nota: Por melhora queremos dizer menos episódios de qualquer tipo de alucinações, visuais ou auditivas, e delírios.

Apesar de seu infortúnio, GUV conseguiu terminar o segundo grau, mas desistiu, na época, da idéia de começar uma universidade porque, como ele diz, sempre que um ataque ocorria durante as aulas, o fato originava reações perturbadoras de seus colegas de escola, que acusavam-no de ser "pirado" ou epiléptico. Pela mesma razão, GUV tem evitado qualquer tipo de vida social. Tornou-se, assim, mais e mais recluso. Na verdade, ele nunca namorou ou saiu com outros jovens. Nas raras ocasiões em que ele ousava ir a algum lugar, como cinema, por exemplo, ele era acompanhado por seus pais ou por seu irmão (um jovem sadio de 19 anos). A maior parte do tempo ele permanecia em casa lendo ou jogando vídeo games por horas a fio.

Em 28 de março de 1998, realizamos o primeiro mapeamento cerebral. A característica mais marcante deste mapeamento era a freqüência e alta amplitude de ondas delta e teta, com um padrão teta predominante, o que, em adultos despertos, é definitivamente um achado anormal.

Em nossa opinião, neste caso particular, tais achados caracterizam um cérebro imaturo. Não foram detectados sinais de epilepsia focal ou generalizada (figura 1).

Durante o mapeamento, utilizamos um procedimento pelo qual o paciente é submetido a estimulação visual (estimulação fótica intermitente), por intermédio de um sincronizador de ondas cerebrais, o POLYSINC PRO+, projetado e fabricado por Microfirm Inc., Cerritos, CA. Utilizamos, como procedimento de rotina, quatro tipos de estímulo: beta (freqüência de 15 hertz), alfa (9 hertz), teta (6 hertz) e delta (2 hertz). Durante as estimulações beta e alfa, o paciente estava muito inquieto, murmurando que o "lobo" estava ganhando controle sobre sua mente. Durante a estimulação teta, começou a acalmar-se, mas sentia ainda a presença do intruso. Após dois minutos de exposição à estimulação delta, no entanto, GUV tornou-se progressivamente relaxado, declarando que a figura do "lobo" estava se afastando e que ele assumia agora o controle de sua própria mente.

Assim sendo, decidimos realizar seis sessões de estimulação delta (usando uma freqüência de 2 hertz), com a duração de 45 minutos cada, duas vezes por semana. Durante este estágio experimental, sua evolução psicológica era monitorizada através de detalhado interrogatório, no início e no fim de cada sessão. Ele também continuou a fazer uso da medicação que lhe tinha sido prescrita: carbamazepina e clonazepam.

Queremos acrescentar que, até a presente data, não temos qualquer informação que indique ter a estimulação fótica sido usada como procedimento terapêutico em pacientes com manifestações delirantes/alucinatórias.

Os resultados foram notáveis. De acordo com suas próprias afirmações, GUV tornou-se mais e mais forte mentalmente, de maneira que, gradualmente, o "lobo" começou a se afastar. Ao término do tratamento, esta entidade não mais representava uma ameaça, pois GUV era agora capaz de conservá-la à distância sempre que esta tentava aproximar-se dele.

Ao término da segunda semana, quando o "lobo" já estava derrotado, retornaram as espirais, mas por apenas dois ou três dias. Seus pais informaram que GUV estava agora muito mais quieto e muito menos irritável e somente duas vezes, durante este período, ele exibiu sinais de crises iminentes, que, entretanto, foram mantidas sob controle, feito que GUV nunca tinha sido capaz de realizar no passado.

Quando o nosso paciente retornou para seu segundo mapeamento cerebral, em 25 de abril de 1998, retinha, como única manifestação delirante, o preto velho – seu guia pessoal – que GUV voluntariamente "incorporava" sempre que sentia a necessidade de uma proteção extra. Duas semanas mais tarde, também esta entidade tinha ido embora.

O medo de ser atacado por entidades malignas desaparecera completamente e GUV sentia-se confiante o bastante para tentar, no próximo mês de julho, iniciar um curso de biologia genética. Seu segundo mapeamento cerebral mostrou, durante o estado de repouso, com os olhos fechados, uma alteração apreciável. Embora as ondas teta ainda estivessem difusamente presentes, o padrão predominante tornara-se definitivamente delta (figura 2 e tabelas 3 e 4).

Segundo Chatrian e colaboradores, quando o cérebro é submetido à estimulação por uma certa onda, ele tende a adotar aquela onda como seu padrão dominante, durante o tempo da estimulação. Este tipo bem conhecido de resposta à estimulação fótica intermitente é chamado de pulsão fótica (photic driving). No caso de GUV, no entanto, a presença de um padrão delta de atividade estava presente dias depois da interrupção do estímulo fótico.

Bibliografia:

Chatrian, G. E. et al.. 1974. A glossary of terms most commonly used by clinical electroencephalographers. Electroencephalogr.Clin. Neurophysiol. 37: 538-548

Maurer, H. and Dierks, T. 1991. Atlas Of Brain Mapping. Springer Verlag. Berlin.

Tomb, D. A. 1995, Psychiatry. Williams and Wilkins. Baltimore.

Sobre os autores:

Jorge Martins de Oliveira

MD, PhD Professor Titular e Mestre da UFRJ. Livre-Docente da UFF. Coordenador Científico e Diretor do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (RJ). Fellow em Pesquisa pelo Saint Vincent Charity Hospital, Cleveland, USA. Membro Titular da Academia Brasileira de Medicina Militar. Membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores, Diplomado pela Escola Superior de Guerra (ESG). Membro do Corpo Editorial da revista Cérebro & Mente. Autor de "Princípios de Neurociências", entre diversos outros. (Jmartins@rio.nutecnet.com.br)

Júlio Rocha do Amaral

MD - Professor de farmacologia clínica, anatomia e fisiologia. Gerente Médico Científico da Merck S/A Indústrias Químicas. Redator de manuais didáticos sobre anatomia, fisiologia e farmacologia para uso da Merck. Supervisor de editoração das publicações científicas: Senecta, Galenus e Sinapse. Redator de protocolos e relatórios de pesquisas clínicas de produtos, a partir de 1978. Coordenador adjunto dos cursos de formação de especialistas em Oxidologia, promovidos pelo Instituto da Pessoa Humana (IPH) e Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO). Chefe do Serviço de Psiquiatria do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (IPH). Co-autor do livro 'Princípios de Neurociências, entre outros. Co-autor do livro "Princípios de Neurociências", entre outros. (julioamaral@pobox.com)

 

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