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Recado do Coração

W.Borges

Colaboração de José Maurício Kimus Dias

Cara amiga consciência,

Após tantos desencontros, resolvi lhe escrever para pedir um favor. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a amo profundamente. Porém, nossas relações estão estremecidas, pois ultimamente você tem me causado vários problemas. Incrustado em seu peito, sofro os abalos de seu desequilíbrio emocional. O efeito disso são as potentes descargas que me fazem bater descompassadamente. Você se desequilibra e sou eu quem acaba pagando o pato. E o pior é que você nem nota que está me ferindo! Cada vez que você se apaixona é uma tragédia. É o mesmo lengalenga de sempre: muitos sorrisos e beijos no início, mas depois de algum tempo, muito choro e patadas de ambos os lados. E o coitado aqui sempre se decepcionando! Você já parou para pensar como eu sou importante? Provavelmente não. Em contrapartida, eu, que não paro um segundo, senão seu corpo morre, penso freqüentemente em você. Aliás, nem tenho como não pensar, você me arranja problemas a todo instante! Mesmo que eu não queira, sou obrigado a prestar atenção em você. Conheço seu corpo melhor do que ninguém. Desde que nasci, sou obrigado a bombear sangue sem parar para todas as partes do seu templo de carne. As células, os pulmões, os rins, o estômago, o fígado, o cérebro e toda a sua estrutura física precisam de mim. Por que você não me trata melhor? Sou o mais sacrificado dos seus órgãos. Nem fazer greve por melhores condições de trabalho eu posso! Se eu parar, você desencarna. Veja se dá um jeitinho de se equilibrar mais! Considere-me como uma jóia bonita na joalheria do seu corpo. Ao invés dessa emoção bruta que você me dá constantemente, dê-me um pouquinho de energia gostosa. Dê-me um banho de sentimento luminoso e acaricie-me com ondas de amor. Se mesmo me maltratando como você faz, eu continuo lhe amando, imagine se você me tratar direitinho: sem dúvida, vou lhe amar muito mais!

Em matéria de sentimento, sou muito mais especializado do que você. Por isso, para que tenhamos uma melhor convivência, vou lhe dar algumas dicas de como amar melhor:

1) Substitua a emoção grossa pelo sentimento sutil.

2) Não se aposse da criatura amada: ela não lhe pertence. É uma fagulha do Criador na Terra. Foi colocada no contexto da sua vida para enriquecer seu sentimento, e não para ser aprisionada em seu desequilíbrio emocional. Ame-a, ensine-a, conduza-a para o bem e, ao mesmo tempo, seja amado, aprenda e seja conduzido por ela.

3) Seja prudente: não se dê totalmente, enquanto não conhecer profundamente a outra pessoa. Saiba primeiro quanto ela vale para você e para sua vida.

4) Não se feche: em relação ao conselho anterior, eu disse para você ser prudente, e não para que se feche para os outros. Ser prudente não é jogar na retranca. Contudo, a prudência lhe recomenda que você avalie melhor quem está transitando em seu interior.

5) Ame inteligentemente e não deixe as emoções iludirem seus sentimentos.

6) Não pise em suas emoções; trabalhe-as com carinho e transmute-as em sentimento.

7) Não tenha autoculpa. Muitas vezes você realiza uma determinada ação, mas depois fica cheia de autoculpa pelo que fez, e no final das contas, quem sofre sou eu. Por isso, pelo bem de nós dois, não tenha autoculpa. Como solução posso apresentar duas opções: Faça as coisas com um alto nível, como adulto e não como um adolescente consciencial. Se achar que a ação é errada, NÃO FAÇA! Mesmo que você esteja ardendo de vontade de fazer. Pondere bem sobre as conseqüências do ato. Avalie a situação e só tome a decisão de fazer ou não, se você estiver tranqüila. Nunca tome uma decisão pressionada por um fator emocional, seja ele de origem interna ou externa. Quanto maior for a sua ânsia, maior será a probabilidade de tomar a decisão errada. Resumindo, o que estou querendo lhe dizer é que se você achar que vai ter autoculpa por fazer alguma coisa, é melhor não fazer. Porém, há mais um detalhe: se você fizer algo, por favor, não tenha autoculpa! Ou faça com bom nível, com a mente livre e curtindo o que está fazendo, ou é melhor não fazer. Não sei se você já sabe, mas várias das autoculpas que você tem, ou já teve em outras ocasiões, são provenientes de condicionamentos religiosos e antiquados e de uma educação familiar, por vezes muito arraigada a valores antigos. Além disso, existe também toda a pressão de conduta que a sociedade lhe impõe. Ampliando ainda mais esta questão, podemos considerar também que muitas autoculpas são oriundas de causas espirituais. Como exemplo disso, posso lhe dizer que, atualmente, várias pessoas estão reprimidas por causa de atos cometidos em vidas anteriores. Elas não lembram conscientemente do que fizeram, mas no porão de seus subconscientes está a cobrança, a lembrança estagnada, o ato mal resolvido, injetando na consciência a culpa de algo que nem elas mesmo sabem; solapando-as em suas relações, prendendo-as nos grilhões de um passado que as impede de serem felizes no presente. A autoculpa também pode ser gerada por obsessão espiritual. Alguns espíritos obsessores, procuram inseminar, através de ondas mentais e formas-pensamento, o vírus da autoculpa no subconsciente da vítima. Essa tática é baseada no princípio de que uma criatura possuída pela autoculpa não tem moral para enfrentar quem a acusa do fato pelo qual ela se julga culpada. Quanto mais autoculpa ela tiver, mais dominada pelo obsessor ela estará. E olhe que eles são muito hábeis para explorar isso! Também tenho observado que os obsessores costumam assediar os trabalhadores espiritualistas (médiuns e pessoas em geral, que prestam algum tipo de assistência espiritual) projetando ondas mentais que fazem com que a pessoa comece a se lembrar dos erros que ela comete no seu dia-a-dia. Às vezes, esse assédio é tão forte que faz vir à tona a lembrança de erros cometidos há vários anos. A pessoa começa a lembrar, sem motivo, daquela maçã que ela roubou da mercearia do português, quando tinha oito anos de idade, ou daquele namorado(a) ou esposo(a) que ela traiu há cinco anos. A pessoa começa a se sentir culpada e a achar que não presta, que não está à altura do trabalho espiritual do qual participa e acaba fraquejando, terminando por abandonar aquela atividade benéfica ou fazendo-a pessimamente. Se um dia lhe assediarem dessa maneira, faça exatamente o oposto, isto é, comece a lembrar das coisas boas que você também já fez e faz. Isso lhe tirará desta atmosfera psíquica negativa dos erros. Dê uma caminhada em um local bem arborizado e procure sentir o aroma saudável da natureza. Observe, com a mente limpa, a expressão da vida pulsando nas árvores, na grama, nos animais e na terra. Absorva essa pulsação e fortaleça-se com ela. A natureza é a doadora e a mantenedora de sua vida no plano físico, e não cobra nada por isso. Se ela não lhe cobra, por que é que você vai se cobrar por causa dos seus erros? Por isso, minha cara amiga, tenha a noção correta de seus objetivos na vida. Você é um espírito em evolução; ainda está aprendendo, e é normal escorregar. É óbvio que você deve se cobrar uma postura mais sensata, mas não seja um carrasco de si mesma (e, por extensão, desse pobre amigo que lhe fala). Tenha um pouco de paciência com seus defeitos. Procure dominá-los, mas sem se atormentar. Não tenha autoculpa dos erros cometidos e nem deixe ninguém utilizá-los contra você. Toque a bola para frente e deixe o tempo e a vida lhe educarem, através da experiência. Se lá na frente você errar novamente, procure aprender com o erro. Se errar mais uma vez, aprenda com o novo erro, e assim sucessivamente. Você está em uma experiência evolutiva e o erro faz parte dela. Se você não errar, como é que vai aprender o que é certo? Com isso, não estou dizendo que você está liberada para cometer todas as estripulias que quiser, e não se sentir mal por causa disso. Estou apenas lhe alertando quanto as autoculpas que lhe são impostas (e isso para o meu próprio bem, pois se você fizer besteira, quem acaba sofrendo sou eu!). Você sabe muito bem o limite das suas atitudes, dentro do contexto evolutivo no qual está inserida e sabe bem o que lhe faz mal e o que lhe faz bem, evolutivamente falando.

8) Dê sempre prioridade para seus objetivos espirituais (sem perder os "pés no chão"), mesmo que isso lhe faça sofrer e que as pessoas não lhe compreendam. No final das contas, quem vai levar patadas sou eu mesmo, mas faço o sacrifício por você.

9) Seja feliz realmente. Eu lhe agradecerei por isso e ficarei feliz, por nós dois. Sendo assim, estamos conversados. Bola para frente. Equilíbrio em todos os momentos. Estou batendo firme em seu peito e torcendo por nós dois. Um dia largaremos o corpo humano e passarei a bater em seu peito espiritual como "coração astral" (ou você pensou que eu ficaria por aqui?). Nesse dia, em vez de bombear sangue, bombearei sentimento puro e energia para lhe fazer feliz. Por aqui me despeço, desejando-lhe tudo de bom e deixando a certeza de que em seu peito bate um "menino amoroso", chamado coração.

Enviado por José Maurício Kimus Dias, Teresópolis, RJ - 29/9/2003

 

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