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Quatro estações do ano - Quatro fases da Vida

Aida Luz

Se nos detivermos a pensar nestes dois títulos, eles nos mostram a sua complexidade, mas também nos sugerem a sua semelhança, mostrando-nos como ambos estão interligados:

Primavera - Verão - Outono - Inverno
Infância - Mocidade - Madureza - Velhice

É "Primavera", o perfume paira no ar, sua fragrância nos deleita, submetendo nossos rostos a uma imagem mais suave, onde se percebe a esperança num novo advir, com a chegada da cálida estação que ora começa. As árvores cobrem-se de folhagem, que suavemente nos embalam, transmitindo-nos paz e bem estar. No vento fresco da manhã, as gotas de orvalho caindo, embelezam os botões que se abrirão em lindas e coloridas flores, legando-nos mais tarde os frutos que saciarão nossa sede, nossa necessidade de nos alimentarmos, para continuarmos em frente.

É como a "Infância", a primeira fase da vida, em que o ser vai tomando consciência de si mesmo, aprendendo a ser auto-suficiente, a abraçar, em suave enlace, a sua própria vida, preparando-se para se dar, e entregar aos outros os frutos que conseguir fazer vingar. Cabe aos pais e educadores, tal como aos plantadores e agricultores, a vigília permanente, para que o fruto não seja picado, molestado por qualquer doença, e possa vingar com todo o viço e cor.

Chega o "Verão", e, com ele vem a fartura, os frutos que precisaram de mais tempo para se formarem e amadurecerem. Aparecem as epidemias, que precisam ser combatidas para que não estraguem, mais tarde, as colheitas que se desejam boas e fartas. Chegam muitas vezes os fogos florestais, uns pela própria natureza, que nos traz um imenso calor e propicia o propagar dos mesmos, trazendo a destruição e calamidades de toda a ordem. Outras vezes o Homem, ainda em estado irracional, acende ele mesmo esses fogos, destruidores de cultivos, de gente, de bens de toda a ordem, empurrando para frente um imaginável longo comboio de destruição maciva.

Lembra-nos a "Mocidade", essa fase em que tudo pode acontecer. Se a infância foi profícua, bem velada, bem instruída, o ser, com sua mente bem esclarecida e aberta, consegue vencer tempestades de toda a ordem, evitando ainda que outros as sustentem. Os ensinamentos colhidos, serão por eles transmitidos, em maior abundância ainda, pela força do exemplo. Que bom que esses, conscientes dos valores morais que devem ter, possam ser amanhã os Dirigentes de Nações, com novas formas de conduta, novos caminhos traçados, rumo a novas eras, numa seqüência de gerações, cada vez mais aprimoradas, rumo a novos horizontes, que tornem este Mundo melhor, mais compreensivo, mais tolerante, mais justo, mais adulto.

É agora a vez do "Outono", e olhando em nosso redor, vemos que a natureza chegou a um novo estado, as frondosas árvores despem-se de folhas, o céu enche-se de nuvens, umas mais claras, outras mais escuras, anunciando a proximidade das primeiras chuvas. Há quadros de diversa ordem. Uns que nos transmitem paz, recordações agradáveis, quando olhamos o céu azul ou mesmo com nuvens claras, no crepúsculo de um final de tarde, junto ao mar ou a um lago, vendo o sol a pôr-se no horizonte, e, seus raios refletindo-se e avermelhando o céu por entre as nuvens. Há sempre uma notável beleza, quando vimos a natureza, no seu imenso e natural esplendor, deixando-nos navegar na imensidade do nosso olhar fixo na linha do horizonte. Vêem-se entretanto outros quadros, que, embora nos mostrem as folhas caídas e amarelecidas pelo passar do tempo, nos transmitem, à mesma, recordações boas, um sentimento de bem-estar. Ora sentados num banco de jardim, ora passeando à beira-rio ou à beira-mar, sobre uma ponte ou apenas numa estrada despovoada, olhamos para o chão, pisando as folhas, em diversas cores, mas que nos fazem lembrar a estação fértil que passou. É que também é necessária a que está a decorrer, para que o Inverno chegue mais tarde, trazendo-nos novamente a chuva benfazeja, e, tão necessária à renovação das plantas, das árvores, das searas. Há, contudo, quadros de difícil descrição, pela violência das imagens, das cores nelas contidas, que nos transmitem desolação, tristeza por aquilo que outros fizeram, sem considerarem o trabalho que os mesmos tiveram para conseguirem obter o que eles, por crassa ignorância, destruíram numa vertiginosa corrida contra o seu próprio progresso e o bem estar dos que trabalharam pelo bem geral da humanidade, lutando por todos, e, por um patrimônio que desejavam legar aos seres vindouros. Alguns desses quadros poder-se-ão simbolizar pelo amontoado de folhas caídas, já meio apodrecidas, não varridas, não recolhidas, misturadas com excrementos diversos, lixo de toda a espécie, incluindo garrafas e outras embalagens abandonadas no solo, por pessoas completamente irresponsáveis, que em nada se preocupam com o ambiente, e que, acrescentando a lama misturada com água e outros líquidos, exalam um cheiro nauseabundo intolerável de se inspirar.

Em tudo nos lembra o homem na sua fase "Madureza". Uns passam por este planeta, num veículo novo, escolhido a rigor, mediante o modelo que acharam ser o que melhor lhes serviria para a sua evolução, e, lamentavelmente, nada adquirem para aumentar o seu pecúlio, o seu acervo espiritual. Por descuido, por preguiça, por vaidade, por inveja, por cegueira propositada, por ansiedade desmedida em colherem o alheio, fazendo mal uso do seu livre-arbítrio, querendo ganhar facilmente, extorquindo aos que com o suor de seus rostos ganharam honestamente para, dessa maneira, terem as almejadas vidas fáceis, que tão caras lhes irão sair ao longo de futuras reencarnações no resgate de seus próprios débitos. Porém, há também muitos espíritos que aproveitam, razoavelmente, as reencarnações, e vão amealhando, grão a grão, semente a semente, todo um patrimônio espiritual que lhes irá servir de sólidos alicerces na construção da rampa de lançamento para uma nova etapa. Mais raros são os espíritos que conseguem ter uma encarnação sem falhas significativas nas suas caminhadas, conseguindo o tão almejado troféu, traduzido pelo alcançar de um novo degrau na escala evolutiva. Embora tenhamos a considerar que nenhum de nós, enquanto encarnados, estamos livres de errar, pois se assim fosse, não estaríamos neste alambique depurador. Como, porém, o que se consegue amealhar, jamais se perderá, desde que os erros cometidos não sejam graves, podem não interferir no seu progresso enquanto espírito encarnado. Daí a lição de nunca se perder a vontade de retificar seja o que for, pois sempre haverá algo de positivo a tirar das lições recolhidas e, mesmo errando, desde que comedidamente, poderemos evoluir. Se pensarmos, pois, no ser que após chegar ao fim da terceira fase de sua vida, com a consciência do dever cumprido, poderemos imaginar como se sentirá gratificado ao descansar, ao sabor de um fim de tarde, no balanço de um barco no meio de um lago, ou simplesmente em casa, ouvindo os suaves acordes de uma boa música, refazendo-se para a nova estação que se aproxima. Que agradável será poder sentar-se num banco de jardim, aconchegar seu camisolão e sentir o fresco da tarde que finda, enquanto vigia os netos que brincam à sua volta.

Chega enfim a última estação do ano, o "Inverno". Ele representa o término de um ano, mas traz com ele a esperança de um novo ano que, indiscutivelmente, todos esperam seja melhor que o anterior. Que seja bom em chuvas caídas, que não traga calamidades, que seja, enfim, promissor nas mais diversas vertentes. É tempo de lançar à terra as novas sementes, que irão desabrochar na próxima Primavera.

E, assim, queremos também fazer alusão ao "Inverno" de nossas vidas, o qual apelidamos de "Velhice", ou seja a nossa 4ª fase. É agora que o espírito que conseguiu manter oleada, corretamente, sua viatura durante sua longa jornada, espera pacientemente pelo fim da mesma. Muitas vezes com uma certa ansiedade, a fim de conhecer os progressos conseguidos. Porém, consciente de que quanto mais viver, mais possibilidades terá de evoluir e continuar amealhando valores que serão de grande importância quando seu último minuto chegar. Daí o dever de se continuar trabalhando enquanto se puder, seja naquilo que for. Tudo é válido, tudo traz experiência e sabedoria.

Resta-nos apenas alertar os jovens para que nunca desprezem os mais velhos, pois eles têm a seu favor todo um percurso cheio de lições que podem passar-lhes, ajudando-os a vencer com elas as etapas que têm pela frente.

Aida Luz, 6 de setembro de 2003 - Miratejo - Portugal

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