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Atitude perante a derrota

Paulo César Gonçalves da Costa

Há poucos dias, me veio à lembrança uma pessoa que freqüentava com assiduidade o Centro Redentor e lia as obras do Racionalismo Cristão. Dizia achar muito bonita a nossa doutrina, mas não se sentia merecedor de escrever uma carta à presidência propondo trabalhar como militante, pois havia cometido alguns erros na sua vida e muitas vezes via-se derrotado em algumas lutas pessoais travadas contra falhas naturais do gênero humano, o que muito o incomodava.
Disse-lhe que as falhas e os erros são naturais, mas que continuar com os mesmos sem travar luta renhida, ou cometer os mesmos erros várias vezes, isso sim era um erro grave.
Muitos dos erros cometidos são involuntários, outros são como a "lei da inércia" devido ao meio familiar, ao grupo, ou país onde nasceu, mas independentemente de qualquer coisa, quando o espírito já está calejado por muitas idas e vindas nesse mundo Terra ele consegue fazer como a lagarta que tece o seu casulo, fecha-se em si mesma e depois sai abrindo suas asas e voa por sobre todo o chão por onde vivia se arrastando.
A lagarta e a borboleta têm o mesmo valor, assim como o diamante todo coberto de terra ou rochas à sua volta e que somente precisa ser lapidado.
Todas as pessoas, por esse motivo, que sintam a beleza da nossa doutrina, e que lutem consigo mesmas para não cometerem mais erros graves, erros de caráter, erros que possam comprometer a imagem da nossa querida doutrina e que sintam a necessidade de ver outras pessoas felizes em conhecer o que elas já conhecem, devem ir em frente porque este que aqui vos escreve também já cometeu os seus erros, e ainda hoje os comete, mas a cada dia luta ferrenhamente contra eles, vencendo muitos, sendo derrotado por outros, mas falando sempre para si mesmo: "Fui vencido, mas não derrotado, pois a luta ainda não acabou!"
Cada um sabe onde o seu "calo aperta", e todos nós o temos; cabe a nós sermos sinceros conosco e decidir "arregaçar as mangas" mudando tudo na nossa vida a partir daquele momento "mágico", naqueles poucos segundos onde as Forças Superiores consigam chegar até nós para intuir: "Se tudo o que fizeste até hoje não te levou a nada, não te trouxe nenhuma paz, nenhuma felicidade, só tens uma alternativa: mudar a tua maneira de viver".
Muitos dos nossos erros são como aquelas montanhas difíceis de serem transpostas; mas o que devemos sempre ter em mente é que a montanha já atingiu o seu tamanho final, e nós ainda estamos crescendo.
Para vencermos a maior das lutas, que soem ser as lutas contra nós mesmos, temos sempre que ter uma atitude de vencedor diante das nossas derrotas, fazendo-nos maiores que os nossos problemas, dizendo para nós mesmos: "Fui vencido; por enquanto!"
A respeito disso, um conto desses do tempo dos nossos avós dizia que havia numa determinada floresta três leões. Um dia o macaco, representante eleito dos animais súditos, fez uma reunião com toda a bicharada da floresta e disse:
- Nós súditos, sabemos que o leão é o rei, mas há uma dúvida no ar: existem três leões fortes. Ora, a qual deles devemos prestar nossa homenagem? Quem, dentre eles, deverá ser o nosso rei?
Os três leões souberam da reunião e comentaram entre si:
- É verdade, a preocupação da bicharada faz sentido, uma floresta não pode ter três reis, precisamos saber qual de nós será o escolhido. Mas como descobrir?
Essa era a grande questão: lutar entre si eles não queriam, pois eram muito amigos.
O impasse estava formado. De novo, todos os animais se reuniram para discutir uma solução para o caso. Depois de muito discutirem, tiveram uma idéia excelente. O macaco encontrou-se com os três felinos e contou o que haviam decidido:
- Bem, senhores leões, encontramos uma solução desafiadora para o problema. A solução está no Grande Precipício.
- Grande Precipício? Como assim?
- É simples, ponderou o macaco. Decidimos que vocês três deverão pular o Grande Precipício. O que atingir o outro lado com as quatro patas será o rei dos reis.
O Grande Precipício era o mais perigoso da região. O desafio foi aceito.
No dia combinado, milhares de animais aproximaram-se do Grande Precipício para assistir ao grande salto.
O primeiro tentou. Não caiu, mas chegou ao outro lado agarrando-se pelas duas patas dianteiras. Foi derrotado.
O segundo tentou. Não caiu, mas chegou ao outro lado agarrando-se também pelas patas da frente. Foi derrotado.
O terceiro tentou. Não caiu, mas chegou ao outro lado da mesma forma que os outros. Foi derrotado.
Os animais estavam curiosos e impacientes, afinal qual deles seria o rei uma vez que os três foram derrotados na prova?
Foi nesse momento que uma águia, idosa e sábia, pediu a palavra:
- Eu sei quem deve ser o rei.
Todos os animais fizeram um silêncio de grande expectativa.
- Mas como a senhora sabe? Todos gritaram para a águia.
- É simples, eu estava voando entre eles bem de perto e, quando eles voltaram fracassados para o vale, escutei o que cada um deles disse para o precipício. O primeiro leão disse: "Precipício, você me venceu!" O segundo leão disse: "Precipício, você me venceu!" O terceiro leão também disse que foi vencido, mas, com uma diferença. Ele olhou para sua dificuldade e disse: "Precipício, você me venceu, por enquanto! Mas você, precipício, já atingiu seu tamanho final e eu ainda estou crescendo."
- A diferença, completou a águia, é que o terceiro leão teve uma atitude de vencedor diante da derrota e, quem pensa assim é maior que suas dificuldades: é rei de si mesmo, está preparado para ser rei dos outros.
Os animais da floresta aplaudiram entusiasticamente o terceiro leão, que foi coroado rei entre os reis.
Moral: Nas derrotas diga: "Fui vencido, por enquanto!" Nas vitórias diga: "Venci somente uma batalha."

Três Corações, MG - 25 de setembro de 2004

 

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