gazeta2.jpg (8041 bytes)

Além

Colaboração de Mori Mitre

Num velho e pobre hospital de periferia, dois homens dividiam um pequeno quarto. Um deles, ocupava uma cama bem ao lado da janela. O outro, em piores condições de saúde, sem poder se mover na cama, estava próximo à porta. Nas difíceis horas, dos dias que nunca passavam, o homem próximo à janela olhava para fora e descrevia ao seu companheiro as maravilhas que via.

¾ Que belo lago tem aqui fora meu amigo, que flores, que árvores! O céu está limpo, azul. O sol a tudo ilumina. Que belo dia!

O outro homem, inerte em seu leito, imaginava e sonhava também poder vislumbrar tais belezas, já que seu campo de visão lhe permitia ver apenas um quadro de avisos, paredes descascadas e a porta que raramente se abria para uma visita.

Confinados, os dois companheiros passavam os dias neutros, vegetando. Mas o homem da janela continuava descrevendo as maravilhas:

¾ Que lindas e alegres crianças brincam no jardim;...puxa que cheiro de cachorro-quente vem daquele carrinho lá embaixo!

A vida transcorria longe daqueles dois e o homem da porta, a cada momento, dizia ao companheiro:

¾ Feliz é você que ainda pode se mover e perceber tantas maravilhas... Eu, preso aqui, fico feliz já que pelo menos você pode tudo ver e me contar. Conta mais!

E o homem da janela descrevia as maravilhas dos dias.

Pouco tempo depois, numa manhã sombria, ao entrar no quarto, o enfermeiro percebe que o homem da janela está morto. Vem o médico, atesta o ocorrido e retiram o homem, deixando o outro só.

Após muito chorar a perda do único companheiro, ele pede ao enfermeiro que o coloque na cama próximo à janela e que o ajude a olhar fora para também vislumbrar as maravilhas que o ex-companheiro de quarto lhe descrevia e que muito o animava. O enfermeiro, pouco entendendo, coloca o homem na outra cama, levantando e apoiando sua cabeça com um travesseiro para que assim pudesse ter a visão da rua.

O pobre homem, estupefato, parece não acreditar no que vê. Naquele local tão decantado pelo amigo, o que existia era apenas um frio e cinzento muro descascado, que não permitia nenhuma visão exterior.

E é assim a vida na Terra. Nossos horizontes precisam ser ampliados. Os momentos tristes têm de ser alimentados com pensamentos e sentimentos melhores. Por mais difícil que seja o momento, precisamos enxergar além dele, no mínimo para imaginar que além de nossos muros a vida é plena e que a qualquer momento poderemos transpor estes obstáculos e chegar lá.

Enviado por Mori Mitre, 22 de dezembro de 2001

 

Página Principal da Gazeta  | Página anterior

Gazeta do Racionalismo Cristão - Uma filosofia para o nosso tempo