Quando a ajuda atrapalha

Elen do Souto

O livre-arbítrio é faculdade espiritual controlada pela vontade e, quando bem usada, orientada pelo raciocínio. Quanto maior for o poder de raciocinar, tanto mais fácil se torna o governo do livre-arbítrio. Livre-arbítrio quer dizer liberdade plena de ação, tanto para o bem quanto para o mal. Racionalismo Cristão, 44ª edição, p.58.

Por vezes buscamos ajudar nossos semelhantes tendo em mente que estamos fazendo o bem. Procuramos, por todos os meios possíveis, auxiliá-los a resolver os problemas que os afligem e, mesmo assim, cercados de boas intenções, nos deparamos com a enorme frustração de não alcançar nosso objetivo. Pensando nisso, nesse sentimento, comecei a perceber que existe um limite para tudo, inclusive para ajudar o próximo.

Não podemos perder esse parâmetro de vista, o limiar entre o que significa ajudar ou atrapalhar.

Como alguém imbuído das melhores intenções, repleto de bons sentimentos pelo seu irmão em essência poderia atrapalhar em lugar de ajudar? Eu descobri isso compreendendo a necessidade de se respeitar o livre-arbítrio do outro, pois até para fazer escolhas erradas as pessoas devem ter seu direito respeitado, mediante o esclarecimento de que será sempre responsável pelos resultados de suas escolhas.

Vejo, à minha volta, pessoas amigas cometendo o mesmo engano que eu já cometi, passando do seu limite para ajudar o outro e em consequência disto, não respeitando o direito que o outro tem de fazer suas escolhas, mesmo que não as consideremos como sendo as melhores, mais adequadas.

Existe um limite para tudo, até para ajudar o outro. Quando passamos do nosso limite, por conseqüência, invadimos o espaço alheio transferindo para outros nossas expectativas ou frustrações em relação àquilo que deveria ser bom para todos.

Saber a hora de parar, ver até onde se pode ir, dar o direito ao outro de escolher ou aceitar nossa ajuda, de dizer até onde precisa que ajudemos é respeitar seu livre-arbítrio.

Conhecendo o nosso próprio limite, saberemos respeitar o limite alheio, respeitando suas escolhas e por conseqüência a nós próprios.

É uma experiência de vida, até certo ponto muito, simples, mas que às vezes nos custa muito sofrimento até a obtermos.

Na medida em que vamos caminhando na vida, vamos colhendo lições que nos dão suporte para seguirmos em frente. Nossa caminhada pode ser mais longa e difícil se não pararmos para verificar nossos procedimentos ou, então, mais amena, se nos detivermos em análises profundas de nossas próprias condutas. Pois, quando nos conhecemos, sabemos nossos limites, nossas expectativas e, por consequência, até onde podemos ir para oferecer ajuda a um amigo, sem atrapalhá-lo em sua caminhada, permitindo a ele confrontar-se com seus próprios erros e acertos, encontrando-se consigo mesmo e com sua felicidade.

Rio das Ostras, Dezembro 2010

 

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