Preconceitos

Elen do Souto

Quando buscamos fatos na história antiga da humanidade, verificamos quão intolerantes e preconceituosos eram os homens.

Ao folhearmos a história dos nossos dias, verificamos, também, que os preconceitos de raça, crença e nacionalidade ainda existem, aliás em estado bem arraigado, mesmo entre povos que se dizem civilizados.

Um observador espiritualista, ao descortinar a marcha evolutiva da coletividade humana, vê que algo progredimos e que muito teremos ainda de progredir no caminho da evolução.

Muitos dos nossos costumes antigos e modernos, que julgamos bons e virtuosos, poderão ser considerados obscuros e irracionais pelas gerações futuras. A ignorância é a privação da verdade e da razão das coisas. Enquanto formos ignorantes do nosso papel no teatro da vida universal, não poderemos discernir o falso do verdadeiro.

Muitos se julgam sabedores dos assuntos transcendentais da vida, mas poucos são os que realmente chegaram a entendê-los.
   "Saber viver", de Pompeu Lustosa de Aquino Cantatrelli. (São Paulo, fevereiro/1940)

O que é preconceito?

Esta palavra é muito usada, muito conhecida em nosso vocabulário comum do dia-a-dia. Falamos e "usamos" este tal de preconceito todo o tempo. É sim, até quando não o percebemos está lá, agarrado em nós como "visgo de jaca".

Nós costumamos dizer que os outros têm, que um ou outro "tem problema de relacionamento por preconceito". Seja de cor, religião, nível econômico, etc. E sei lá mais do quê! E nós? Não temos? Estamos imunes a este visgo que parece ter vindo agarrado em nós, ou no nosso corpo fluídico talvez? Tão latente que nem damos conta da sua existência?

Pois é, mas todos nós temos este tal de preconceito. Em algum momento de nossas vidas nos damos conta que existia alguma coisa errada e que não identificamos ainda, e de repente está lá. Parece uma praga a se espalhar pelo mundo, no fundo de todas as questões políticas ou sociais ele está presente.

Existe até o preconceito do mais instruído em relação ao mais humilde, com menos estudos, como se isto tirasse a capacidade e a inteligência de alguém. A própria palavra já fala por si, preconceito = pré-conceito = idéia pré-concebida = quando já temos uma opinião a respeito de algo antes do conhecimento dos fatos.

Então neste momento já dá para se fazer uma auto-análise e saber no fundo da alma se nós temos ou tivemos algum preconceito contra alguém. É bem possível que sim, somos seres imperfeitos em busca da evolução! Sinal que em algum momento cometemos a falha de achar que por um motivo ou outro nosso semelhante poderia não ser tão semelhante assim, ou seja, que fosse muito "diferente" de nós e por isso "menos ou pior". Triste constatação não é? Como pode, até nós mesmos termos este problema!

Pois bem, na verdade se trata de um sentimento ou falha no raciocínio lógico que viemos trazendo no nosso inconsciente e que por algum motivo é deflagrado e nos pega de surpresa. Neste momento se constata: isto é um preconceito!

Muitos de nós inúmeras vezes nos deixamos levar por esta falha de raciocínio. Porque na verdade é simples, vamos analisar os fatos: qual o motivo de termos problema em nos relacionar com esta ou aquela pessoa, se na realidade ela não nos deu nenhum motivo para isto? Analisando melhor se percebe que não há motivo, se não for uma questão moral, então só pode ser preconceito.

É tão incrível e tão surreal, mas, as pessoas o sustentam por tudo e por tão pouco que não dá para acreditar. Como somos todos feitos de força e matéria e estamos todos no mesmo planeta buscando basicamente a mesma coisa, evoluir, então por que nos vemos e nos tratamos como se fôssemos tão estranhos ou tão diferentes?

Sabemos nós espiritualistas já iniciados no esclarecimento espiritual, que nos dá bagagem para ver e perceber certas coisas deste mundo, que existe uma afinidade natural entre as criaturas e por vezes um estranhamento também. Mas, salvo estes casos, por que ter um ranço com alguém que não conhecemos e não tenha nos dado aparentemente nenhum motivo? Só mesmo por um preconceito desconhecido e latente dentro de nós.

Quando percebemos que alguém por questões morais não vibra na mesma harmonia que nós, sabemos por que nos afastamos ou evitamos esta pessoa. Mas, se isso não ocorre e já estamos de pronto armados contra a mesma é porque algo dentro de nós ainda não despertou para a questão levantada. Então cabe uma auto-análise.

Tive vontade de escrever algo sobre o assunto quando percebi que mesmo sem saber havia algo guardado nos porões de minha alma. Este momento foi de grande emoção e de muita importância para mim e venho compartilhar com os amigos que se dedicarem a ler minhas linhas.

Dedico este texto a uma pessoa amiga cheia de luz e que me encanta toda vez que a encontro, pois, somos todos iguais, diferentes apenas na proporção dos passos que já demos neste mundo. Foi esta amiga que me fez olhar para dentro e me perguntar para quê servem certos conceitos, muitos que nem sabemos existirem dentro de nós.

A Doutrina nos aconselha ao autoconhecimento, a olharmos para dentro de nós antes de ver o outro. Quem está à minha frente pode ser o próprio reflexo de mim mesma, com algumas diferenças, mas, nunca deixando de ser parte da mesma Força que tudo emana e tudo rege.

Que nossas irradiações amigas possam chegar cada vez mais ao fundo das almas obscuras levando luz e trazendo a paz.

(Revisado por Claudio Valpasso)

Rio das Ostras, setembro 2009

 

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