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Os vírus e a evolução

Glaci Ribeiro da Silva

[...] O princípio fundamental da Vida no Universo é a Evolução. Nela reside a base do entendimento de tudo quanto se passa dentro e fora do alcance intelectual humano. [...] (Fernando Faria, no livro A chave da sabedoria; 3a ed., p. 123).

A convivência entre vírus e humanos vem de longa data. Acredita-se que a primeira documentação que se tem sobre uma infecção virótica seja um papiro ilustrado datado de 1400 a.C. que foi encontrado em Memphis – a antiga capital do Egito; nele se vê um sacerdote chamado Siptah mostrando sinais típicos de paralisia por poliomielite. Além disso, a análise da múmia de Ramsés V morto em 1196 a.C. mostra na face lesões típicas de varíola.

Não é de se estranhar, portanto, que a palavra vírus (veneno, em latim) somente faça lembrar as sérias infecções causadas por eles; algumas delas mortais, pois a medicina não dispõe ainda de medicação específica para lidar com a grande maioria desses microorganismos. É essa sem dúvida nenhuma a face negativa dos vírus.

Mas o que queremos focalizar aqui são alguns aspectos da face positiva dos vírus; aquela que não é tão visível como a anterior, nem tão pouco conhecida do leigo e, até mesmo, da grande maioria dos profissionais da saúde.

Os vírus são organismos acelulares (sem células) que por serem muito pequenos somente podem ser visualizados ao microscópio eletrônico; são formados por uma cápsula de proteína envolvendo um ácido nuclêico, que tanto pode ser o ácido ribonuclêico (RNA) como o desoxirribonuclêico (DNA); eles são considerados parasitas intracelulares obrigatórios pois só conseguem se replicar (do latim replicatione, termo usado em genética para a duplicação da molécula de DNA ou RNA) no interior de uma célula viva, usando para isso a maquinaria química da célula hospedeira; os vírus podem afetar profundamente o comportamento das células em que se hospedam.

Nos vírus de RNA existe a enzima transcriptase reversa que permite a produção de DNA a partir do RNA. Logo, potencialmente todos os vírus são capazes de produzir DNA.

A Virologia, uma subdivisão da Microbiologia especializada no estudo dos vírus, reconhece há muito tempo a importância desses microorganismos pois eles têm sido muito úteis para a ciência.

Os cientistas os vêm usando em suas pesquisas visando a vários objetivos; entre as suas várias utilidades podemos citar, entre outras, seu emprego como ferramentas de trabalho, como vetor de clonagem e, até mesmo, na terapia de infecções bacterianas.

Ferramentas de trabalho

Há muito os biólogos moleculares vêm usando os vírus com essa finalidade; assim, eles têm sido usados por esses profissionais para estudar a maioria dos componentes essenciais das células – ribossomas, mitocôndrias, membranas, DNA e proteínas.

Vetor de clonagem

Para se clonar um gene ele deve ser inicialmente isolado do seu genoma; em seguida, esse gene será inserido em um vírus para que esse seja o seu vetor de clonagem; por sua vez, esse vetor (vírus mais o gene que foi isolado) será inserido no genoma de uma bactéria que, ao se multiplicar, irá replicar esse gene. A clonagem estará assim realizada.

Terapia de infecções bacterianas

Um dos grandes problemas que a medicina enfrenta atualmente são os chamados superpatógenos; esse tipo de microorganismo surgiu como conseqüência do reinado absoluto e prolongado dos antibióticos no Ocidente pois o uso não adequado dessas poderosas drogas fez muitas espécies bacterianas evoluírem e ganharem resistência contra eles.

Como uma alternativa na luta contra esses superpatógenos, atualmente várias universidades americanas e européias ressuscitaram grupos de pesquisa com vírus que parasitam bactérias – os chamados bacteriófagos.

Os bacteriófagos (ou simplesmente fagos) foram descobertos pelo canadense Felix D'Herelle, em 1915, no Instituto Pasteur; ao trabalhar com um bacilo muito virulento responsável por uma disenteria que estava atacando o exército francês durante a Primeira Guerra Mundial, D'Herelle percebeu que na cultura desses bacilos existiam também micróbios invisíveis capazes de antagonizá-los; esses micróbios foram batizados por ele de bacteriófagos, ou seja, "comedores de bactérias".

No entanto, os microscópios no início do século 20 não davam conta de enxergar com detalhes esse microorganismo e somente mais tarde a natureza viral dos bacteriófagos foi descoberta.

A Fagoterapia proposta por D'Herelle obteve grande sucesso e se tornou uma área de pesquisa de destaque em medicina; no entanto, sua época de ouro foi breve e acabou em 1940 com a popularização da penicilina.

Enquanto a revolução da penicilina se espalhava por todo o Ocidente, o tratamento com bacteriófagos teve chance de evoluir na Geórgia e parte da União Soviética; a técnica foi introduzida nos anos quarenta pelo próprio D'Herelle que viveu naquela região durante alguns anos. Ainda hoje, os coquetéis de vírus convivem nas prateleiras das farmácias georgianas ao lado de aspirinas e vidros de sais-de-frutas.

Essa possibilidade de usar os vírus na luta contra os superpatógenos e os relatos cada vez mais freqüentes do envolvimento de vírus em patologias mortais como a Aids e a Febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola, têm feito ressurgir com muita intensidade o interesse no estudo desse microorganismo, sempre tão cercado de enigmas e polêmicas; entre as polêmicas, a mais antiga e primária diz respeito à classificação dos vírus como "seres vivos" pois muitos o consideram ainda "seres inanimados".

No início do século 19 os vírus foram associados com a raiva e a febre aftosa o que despertou a atenção dos pesquisadores, pois eram partículas que se comportavam como bactérias sendo, porém, muito menores do que elas. Por serem seus efeitos e o modo que se espalham obviamente biológicos, os cientistas daquela época – caso de Pasteur e Kock, por exemplo – passaram a pensar nos vírus como a mais simples forma de vida existente.

Todavia, em 1935 quando Wendell Stanley e seus colegas cristalizaram o vírus do "mosaico do tabaco" – um dos vírus que parasita esse vegetal, esses organismos foram rebaixados a simples agentes químicos inertes, pois não foram encontrados neles sistemas metabólicos essenciais. Por esse feito, Stanley foi o ganhador do Nobel em 1946 – de química, não o de fisiologia ou medicina!

Porém, essa inércia ou inatividade relatada por Stanley desaparece tão logo o vírus penetra numa célula; assim, após romper a membrana celular ele libera seus genes e induz o maquinário químico da célula hospedeira a reproduzir seu DNA ou RNA e a fabricar mais proteínas virais, dando origem assim a novos vírus.

Os biólogos não negam que os vírus tenham desempenhado alguma função evolutiva. Mas, ao considerá-los como não-vivos, esses pesquisadores os colocam na mesma categoria de alterações climáticas. Uma alteração externa, como é o caso da climática, tem influência sobre a evolução das espécies porque é capaz de selecionar indivíduos em uma população, pois os que têm maior capacidade de sobrevivência diante desses desafios continuam se reproduzindo com mais sucesso e, portanto, passam seus genes às gerações futuras. Porém esse não é o caso dos vírus que são capazes de trocar informações genéticas diretamente com os organismos vivos.

Na realidade, os vírus têm a sua própria história evolutiva. Assim, algumas enzimas reparadoras virais, que quebram e ressintetizam DNA danificado ou são capazes de consertar danos produzidos por radicais livres, por exemplo, são exclusivas de certos vírus e existem nessa mesma forma há provavelmente bilhões de anos.

Mas foi a inclusão dos vírus durante a maior parte da história da biologia moderna como "seres sem vida" que levou os pesquisadores da ciência oficial a ignorá-los no contexto da evolução da vida.

Tais cientistas os vêem como resultado de genes de hospedeiros que, de alguma forma, escaparam e adquiriram um revestimento protêico. Com essa eliminação dos vírus da teia dos seres vivos, as importantes contribuições que eles podem ter feito à origem das espécies e à manutenção da vida têm sido geralmente desconsideradas; como resultado disso, nem sempre a comunidade científica oficial dá a devida atenção à hipóteses e teorias que alguns pesquisadores atuais vêm fazendo sobre esse assunto.

Porém, nesses últimos anos os enigmas que sempre cercaram esses organismos estão começando a ser desvendados; e isso se deve tanto a novas descobertas feitas nessa área como, também, a uma análise mais critica de conhecimentos anteriores. E, procurando entendê-los melhor, a ciência vem percebendo que os vírus desempenham um papel fundamental na evolução da vida na Terra.

Em 2005, Didier Raoult e seus colegas da Universidade do Mediterrâneo em Marselha desvendaram o seqüenciamento do genoma do maior vírus conhecido – o Mimivírus. Ele foi descoberto em 1992, tem o tamanho de uma bactéria pequena e infecta amebas.

A análise do DNA desse vírus revelou a presença de vários genes envolvidos na produção de proteínas que antes haviam sido detectados apenas em organismos celulares. Para os pesquisadores, esses resultados foram muito importantes, pois desafiavam a fronteira existente entre os vírus – que são acelulares – e os demais organismos celulares. Logo, a presença da célula parecia não ser mais o requisito indispensável para diferenciar um organismo vivo de um não-vivo.

Provavelmente uma surpresa para muitos leigos, mas também para vários médicos e biólogos, é o fato da maior parte dos vírus ser inócua e incapaz de produzir doenças (não-patogênico).

Esses tipos de vírus são muito persistentes permanecendo dormentes (adormecidos) por longos períodos ou, se aproveitando do aparelho de replicação da célula para se reproduzir de forma lenta e estável. Para conseguir isso, eles desenvolveram muitas formas inteligentes de evitar a sua detecção pelo sistema imunológico do hospedeiro. Essa característica de alterar cada etapa do processo imunológico é controlada por genes que podem ser encontrados em vários vírus.

Além disso, o genoma de um vírus (o conjunto do seu DNA ou RNA) pode colonizar permanentemente seu hospedeiro, adicionando genes virais ao organismo invadido, tornando-se até parte fundamental do seu material genético. Portanto, os vírus geram efeitos mais rápidos e diretos do que as forças externas, que simplesmente selecionam variações genéticas internas geradas lentamente. A enorme população dos vírus, combinada com suas taxas aceleradas de replicação e mutação, faz deles a maior fonte mundial de inovação genética. E genes de origem viral podem invadir outros organismos e contribuir para a mudança evolutiva.

Quando recentemente foi estudado o genoma humano verificou-se que cerca de duas centenas de genes presentes nos humanos e nas bactérias não aparecem em outros organismos, já muito bem estudados pela ciência e que ficam entre esses dois extremos evolutivos, ou seja, – os procariontes (bactérias) e os eucariontes (humanos).

Quando essa inesperada discrepância foi divulgada pelo "Consórcio Internacional de Seqüenciamento do Genoma Humano" surgiram logo várias hipóteses tentando explicá-la.

A mais interessante delas foi da autoria dos virologistas Villarreal e DeFillipis; o primeiro é diretor do Centro de Pesquisa Viral da Universidade da Califórnia, e o segundo é do Instituto de Terapia Gênica da Universidade Oregon de Ciências da Saúde.

Como os vírus podem criar genes, esses cientistas explicaram hipoteticamente essa discrepância como uma colonização feita por vírus nesses dois tipos diferentes de seres vivos, ou seja, as bactérias e os humanos. Logo, o que parece ser um gene transferido aos humanos pelas bactérias pode ter sido somente fornecido à ambos por um vírus.

Outros pesquisadores se juntaram a Villarreal e DeFillipis argumentando que possivelmente o próprio núcleo celular tenha tido também origem viral.

A presença do núcleo diferencia os eucariontes (organismos mais evoluídos cujas células possuem núcleos) como é o caso dos humanos, dos procariontes como as bactérias que são anucleadas.

Como o advento dessa importante componente celular não pode ser explicado satisfatoriamente apenas como uma adaptação gradual, é bem provável – argumentam eles –, que o núcleo possa ter evoluído de um vírus de DNA grande e persistente que decidiu se abrigar permanentemente nos procariontes.

Nesse ponto é oportuno lembrar que vários cientistas de ponta acreditam atualmente ser também a mitocôndria – uma organela muito importante, pois funciona como a usina celular –, um antigo resquício de uma bactéria invasora. Esse assunto foi analisado em um dos capítulos do volume 2 do nosso livro Racionalismo Cristão e Ciência Experimental (ver bibliografia).

Gostaríamos agora de analisar essas importantes descobertas feitas pela ciência materialista sob o ponto de vista da ciência espiritualista.

No planeta Terra coexistem os quatro reinos da Natureza, ou seja, Mineral, Vegetal, Animal e Hominal. Os humanos pertencem ao reino hominal e surgiram na Terra como resultado da evolução dos animais que o precederam.

De acordo com Pinheiros Guedes – médico espiritualista autor do livro Ciência Espírita – a finalidade do estágio que as partículas individualizadas da Inteligência Universal (ou Força Criadora) fazem nesses três primeiros reinos da Natureza é formar o Espírito (mais conhecido pelo vulgo como Alma) que, por sua vez, irá evoluir no reino hominal. Essa evolução será feita através de inúmeras encarnações; no ápice da sua evolução no reino hominal (17a classe espiritual) e não sendo mais necessário a esse Espírito retornar ao mundo Terra ele passará a pertencer ao último reino da Natureza – o Espiritual, onde continuará dando seqüência a sua trajetória evolutiva.

Esses três primeiros reinos funcionariam assim como verdadeiras oficinas ou laboratórios para a criação da alma humana.

Em cada reino desses existem regiões diferentes – as espécies; e, entre elas há uma ligação hierárquica no sentido das mais simples às mais complexas.

A transformação de uma espécie mais simples em uma outra mais complexa que lhe está imediatamente acima acontece através de modificações (casuais ou induzidas) na informação genética dos seres pertencentes a espécie mais simples.

Essa transformação recebe o nome de mutação (do latim, mutatione, mudança, alteração, transformação). Logo, para que haja mutação, é necessário uma alteração no DNA. No nosso entender, o fenômeno da mutação é uma conseqüência, uma decorrência, da evolução da Força; e, os vírus são os instrumentos que a Força utiliza para realizar esse fenômeno.

Assim, conforme a Força particulada evolui, seres cada vez mais complexos vão surgindo até que finalmente surge o mais sofisticado deles – o corpo humano. E, nessa altura a Força já atingiu o clímax da sua evolução nos reinos da natureza e deu origem ao Espírito; uma partícula dela que é racional, capaz de gerar pensamentos contínuos e ter inteira responsabilidade pelos seus atos (livre-arbítrio).

Entre as várias teorias propostas pela ciência materialista para explicar a origem dos vírus, uma admite serem eles entidades independentes que surgiram por auto-replicação de moléculas do RNA que supõe-se ter existido na Terra primitiva no chamado "Mundo do RNA". Essa é uma teoria defendida por cientistas que procuram explicar a origem dos seres vivos na Terra através da Abiogênese.

Nós acreditamos ser possível, também, que os vírus tenham chegado à Terra a bordo de um cometa, de um asteróide ou até como um detrito ou poeira cósmica. Essa possibilidade vem de encontro às idéias dos panspermistas, que defendem que as formas primordiais de vida na Terra vieram do espaço. (detalhes sobre o assunto em nosso artigo "Força e Matéria, Abiogênese e Panspermia"; ver bibliografia).

Nesse caso, os vírus seriam verdadeiros "ETs" que estão convivendo conosco há muitos milhões de anos. Essa opção poderia explicar porque esses seres não seguem a configuração celular de vida que é usada na Terra; sua configuração de vida seria própria do seu mundo de origem; razão pela qual ela é completamente diferente daquela existente no mundo Terra.

Ainda dentro desse raciocínio, poderíamos imaginar que os vírus tenham migrado para o planeta Terra com a finalidade de evoluir dando lógica assim a existência entre nós de duas populações viróticas diferentes – uma menos evoluída causadora de infecções e, outra, mais evoluída constituída de vírus inócuos que funcionariam como instrumento para a Força.

E para dar peso e validade a esse nosso raciocínio, estamos nos apoiando em ninguém mais do que Luiz de Mattos – o grande Mestre espiritualista que afirmava:

[...] Ao planeta Terra tudo vem de fora e vive fora dele, fornecido pelos outros planetas que o rodeiam, em obediência às leis naturais e imutáveis do progresso [...] (no livro Pela Verdade - a ação do espírito sobre a matéria).

Bibliografia

Cann AJ. Principles of Molecular Virology. New York, Academic Press, 2nd ed., chapter 3, 1997.

Eigen, Manfred. Viral Quasiespecies. Scientific American, vol. 269 (1) pp. 42-49; July 1993.

Guedes, Pinheiro Antônio. Ciência Espírita. Espiritologia, Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 8a ed., pp. 33-66, 1992.

Jesus, Felino Alves de. Força e Matéria. In: Trajetória Evolutiva. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 7a ed., pp. 164-173, 1983.

Mattos, Luiz de. Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria. Força e Matéria: ação no planeta Terra. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 9a ed., p. 230, 1983.

Silva, Glaci Ribeiro da. Racionalismo Cristão e Ciência Experimental. O Corpo Físico e suas Metamorfoses. vol. 2, pp. 31-34.

http://www.racionalismo-cristao.org.br/bu/rc-ciencia-experimental2.pdf

Silva, Glaci Ribeiro da. Força e Matéria, Abiogênese e Panspermia. Gazeta do Racionalismo Cristão, Maio de 2006.

http://www.racionalismo-cristao.org.br/gazeta/diversos/abiogenese-e-panspermia.html

Villareal, Luis. DNA vírus Contribution to Host Evolution. Organizado por E. Domingo, R.G. Webster e J.J. Holland. Academic Press, 1999.

 

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