gazeta2.jpg (8041 bytes)

Durabilidade do corpo humano

Glaci Ribeiro da Silva

[...] O corpo físico é uma propriedade terrena que serve ao espírito como se fora de empréstimo, com o prazo de duração de uma existência. [...] (Luiz de Souza, no livro A morte não interrompe a vida, 10a ed., p.33).

1. Introdução

Longa e bem conhecida é a lista de mazelas que nos afligem conforme envelhecemos: ossos frágeis, quadris fraturados, ligamentos rompidos, varizes, catarata, perda da audição, hérnias e hemorróidas, entre tantas outras.

Para cientistas da área de Engenharia, nós caímos em pedaços justamente quando estamos chegando no apogeu da vida, porque as máquinas vivas que chamamos de corpo não foram projetadas para funcionar durante muito tempo: elas deterioram quando nós as obrigamos a continuar em atividade depois de expirada a sua data de validade.

Analisado sob o ponto de vista dessa ciência, que valoriza acima de tudo a técnica, o corpo humano com sua rede complexa de ossos, tendões, válvulas e articulações tem uma analogia direta com uma polia.

Segundo esses profissionais o corpo humano não é perfeito porque sua principal função é transmitir genes à geração seguinte. Logo, basta um projeto de corpo permitir que os indivíduos sobrevivam o tempo suficiente para se reproduzir para que seja o escolhido pela seleção natural. Por outro lado, serão eliminados como ervas daninhas projetos cuja sobrevivência na juventude esteja seriamente ameaçado visto que os indivíduos mais afetados morrerão antes de produzir descendentes.

Por isso à medida que avançamos em nossos anos pós-reprodutivos, as articulações e outras características anatômicas que funcionavam bem ou não causavam problemas revelam suas imperfeições; desgastando-se ou contribuindo de alguma forma para os problemas de saúde que irão surgir mais tarde.

Os defeitos desse projeto imperfeito de corpo que nos tornam relativamente incapazes nos últimos anos de vida, não são corrigidos pela evolução porquanto ela somente cria novas características e as incorpora às já existentes.

A postura ereta dos seres humanos é um desses casos. Ela foi adaptada a partir de um projeto corporal que fazia primatas andarem de quatro. Não há dúvida que essa postura bípede ajudou nossos ancestrais hominídeos, uma vez que ficar de pé sobre as patas traseiras deixando as dianteiras livres foi um estímulo para que eles evoluíssem começando a usar ferramentas.

Como conseqüência dessa mudança de postura, nossas vértebras inferiores ficaram maiores para poder suportar a maior pressão vertical e nossa coluna vertebral precisou curvar-se ligeiramente para nos impedir de cair para frente. Porém, essas adaptações feitas pela evolução não evitaram uma série de problemas decorrentes do fato de sermos bípedes.

O envelhecimento costuma ser definido como uma doença que pode ser revertida ou eliminada. É claro que qualquer um pode diminuir a duração da sua vida, em conseqüência principalmente de hábitos impróprios. Mas é absolutamente injusto culpar as pessoas pelas conseqüências de herdar um corpo que não foi concebido para uso prolongado em perfeitas condições e que não possui sistemas de conserto e manutenção.

Logo, mesmo que um modo de vida perfeito e ideal pudesse ser adotado, com o passar do tempo continuaríamos nos desgastando. Essa realidade significa que o envelhecimento e muitos de seus transtornos não são antinaturais, nem tampouco evitáveis. Nenhuma intervenção simples compensaria as inúmeras imperfeições espalhadas por toda a nossa anatomia e que são reveladas pela passagem do tempo.

A causa da maioria das enfermidades debilitantes e até mesmo fatais que ocorrem na velhice é a locomoção bípede com postura ereta. A cada passo que damos, colocamos uma pressão enorme nos pés, tornozelos, joelhos e costas – as estruturas que sustentam nosso corpo. No decorrer de um único dia, os discos vertebrais da parte inferior das costas são submetidos a pressões equivalentes a várias toneladas por centímetro quadrado. Ao longo da vida, toda essa pressão, assim como o uso repetitivo das articulações, cobra o seu tributo.

Nosso corpo vive em constante luta com a força da gravidade. Mas, embora ela seja onipotente, dispomos para combatê-la de uma rede intrincada de tendões que ligam nossos órgãos à coluna vertebral impedindo-os assim de cair e de imprensar uns aos outros. Mas, com a idade esse recurso anatômico também vai aos poucos se desgastando.

Várias partes da cabeça e do pescoço se tornam problemáticas à medida que as pessoas envelhecem. A versão humana dos olhos é uma maravilha evolutiva; mas quando se tem vida longa, sua complexidade cria muitas oportunidades para o surgimento de problemas inevitáveis, como é o caso da catarata. Nessa patologia, pelo envelhecimento natural das células, ocorre uma perda de transparência no cristalino – uma lente que todos nós possuímos nos olhos. Em geral esse processo começa a aparecer depois dos sessenta anos, mas em alguns casos ele pode se iniciar mais cedo.

Esse estudo demográfico do envelhecimento humano que resumidamente descrevi acima vem sendo feito pelos cientistas Jay Oishlansky, Bruce Carnes e Robert Buttler pertencentes ao Centro de Envelhecimento da Universidade de Chicago e ao Centro Internacional de Longevidade de Nova York.

São também desses mesmos pesquisadores às propostas esquematizadas abaixo de soluções que poderiam compensar alguns dos defeitos de concepção contidos em todos os seres humanos.

• Trato urinário masculino

Defeitos:

Examinando a anatomia da próstata de um homem, um encanador (sic) suspeitaria de um trabalho de aprendiz, porque a uretra, o tubo que leva à saída da bexiga, passa bem no meio da glândula. Essa configuração talvez tenha benefícios que até agora se desconhece, mas acaba provocando problemas urinários em muitos homens, inclusive a diminuição do fluxo de urina e a necessidade de urinar com freqüência.

Solução:

Uretra posicionada do lado de fora da próstata; assim, se a próstata aumentasse não apertaria a uretra.

• Trato urinário feminino

Defeito:

A incontinência urinária é o principal problema de encanamento (sic) que as mulheres enfrentam à medida que envelhecem.

Solução:

Músculos mais fortes no esfíncter da bexiga e ligamentos mais duráveis.

• Audição

Defeitos:

As orelhas são internamente pequenas sendo por isso o tímpano facilmente lesado por ruídos muito altos.

Há uma relativa escassez de células capilares no ouvido interno o que gera retransmissões sonoras deficientes ao cérebro.

Soluções:

Para compensar as falhas internas, a parte externa da orelha deveria ser maior e ter mobilidade para que os sons fossem coletados com mais eficiência.

Para preservar a audição por mais tempo, as células capilares deveriam ser mais abundantes.

• Visão

Defeito:

O nervo óptico que é responsável pela transmissão dos sinais visuais ao cérebro liga-se somente a porção anterior da retina – a camada interna do globo ocular. Essa ligação é frágil e pode produzir o descolamento da retina – uma patologia muito grave.

Solução:

O nervo óptico deveria também se ligar à parte posterior da retina tornando-a mais fixa para prevenir seu descolamento.

2. Discussão

Luiz de Souza - o autor do texto que escolhi como epígrafe desse artigo, foi um engenheiro que, hoje como espírito, faz parte da Plêiade do Astral Superior. Ele desdobrou a filosofia espiritualista do Racionalismo Cristão de uma maneira simples e acessível a qualquer estudioso, através de uma trilogia de livros que publicou na década de sessenta (ver bibliografia). Nesses livros, o autor adotou o pseudônimo Valério Sintra – procedimento que era usual na época. Porém após sua desencarnação ocorrida em 1977, seus livros têm sido reeditados pelo Racionalismo Cristão usando o nome verdadeiro do autor.

Da mesma forma que seus colegas de profissão que são materialistas, Luiz de Souza também considera o corpo humano uma máquina; porém diverge frontalmente deles ao afirmar que quem vivifica e movimenta essa máquina é o espírito.

No seu dizer, essa máquina é composta pelos elementos básicos da matéria; com suas propriedades, o espírito é capaz de interligar intimamente as moléculas que a constituem dando-lhe Vida. A prova disso é que basta o espírito se retirar definitivamente do corpo físico para que este se decomponha. Logo, quem determina a durabilidade do corpo físico é o espírito. Porém é indispensável que nós o tratemos com o mesmo desvelo que se dá a um objeto de estimação, visto que além de representar nossa individualidade ele é também o bem material de maior utilidade que nosso espírito dispõe na Terra.

O corpo humano tem grande beleza artística e está realmente à altura da admiração que desperta. Porém, não é novidade para pesquisadores da área da saúde e, até para médicos clínicos mais atentos, o fato de ele possuir defeitos inatos.

Como as correções propostas por esse grupo de engenheiros ligados à ciência oficial parecem viáveis, elas possivelmente poderão ocorrer no futuro, porquanto na sua escalada evolutiva nosso corpo físico já passou por várias mudanças tanto externas como internas.

Externamente, as feições grosseiras e simiescas do homem pré-histórico vêm-se tornando pouco a pouco mais delicadas. Internamente também têm ocorrido modificações importantes em alguns órgãos e funções. Esse é o caso do apêndice cecal, outrora um órgão muito longo e com função digestiva que encurtou, deixou de exercer essa função para fazer parte do sistema imunológico. Fato semelhante vem acontecendo com nossos dentes do siso que, por falta de função, aos poucos estão se tornando congenitamente ausentes. Por outro lado, ao contrário desses órgãos fadados a desaparecer, outros, como a glândula pineal, estão programados para evoluir. Maiores detalhes sobre esse assunto podem ser encontrados no capítulo "O corpo físico e suas metamorfoses" do nosso livro Racionalismo Cristão e Ciência Experimental.

O processo usado por mamíferos de dar à luz filhotes vivos – a viviparidade –, é entre os animais uma exceção visto que a maioria deles é ovípara.

De um modo geral, os animais vivíparos completam a formação de seu corpo físico após o nascimento e conservam caracteres infantis até atingir a vida adulta. Esse processo é chamado "neotenia" e está presente também nos anfíbios e répteis.

Na visão de Desmond Morris – o famoso zoólogo e etólogo (aquele que estuda os hábitos animais) inglês –, o ser humano é um animal primata que um dia passou a caminhar de pé.

Na posição bípede, ele primeiro desceu das árvores e depois passou a caçar em grupos. Para sobreviver nesse ambiente altamente competitivo, ele teve que enfrentar uma batalha desigual com os carnívoros que dominavam o solo.

Esses nossos ancestrais tinham um equipamento impróprio para viver no chão: o nariz era frágil; os ouvidos não eram suficientemente apurados; o corpo era tremendamente inadequado para corridas e avanços velozes; e, eram pouco habituados à planificação e a concentração, visto que tinham uma personalidade mais competitiva do que cooperativa.

Felizmente, porém, já possuíam uma certa inteligência e tinham o cérebro bem mais desenvolvido do que os carnívoros seus rivais. Portanto, eles tentaram ganhar essa batalha usando a cabeça e não os músculos.

Comparando-se o desenvolvimento do cérebro de um macaco típico, com o de um feto humano, poderemos ter uma idéia de como a neotenia foi importante para ajudar o cérebro dos nossos ancestrais.

Antes do nascimento, o cérebro dos macacos aumenta rapidamente de tamanho e complexidade. Quando o animal nasce, seu cérebro já atingiu 70% do tamanho do cérebro do adulto. Os restantes 30% crescem durante os seis primeiros meses de vida e completa-se antes de um ano de idade.

Na nossa espécie, porém, o cérebro tem à nascença apenas 23% do tamanho do cérebro do adulto; seu crescimento prolonga-se durante os seis anos que se seguem ao nascimento e somente se completa em torno dos 23 anos de idade; ou seja, cerca de dez anos depois de termos atingido a maturidade sexual.

Contrariamente do pensar materialista de muitos cientistas vinculados à ciência oficial, que ainda hoje defendem teimosamente ser o cérebro a fonte da inteligência, na visão espiritualista da ciência racionalista cristã ele nada mais é do que um instrumento do espírito; que o usa como se fosse um computador para governar nossa vida vegetativa e executar a vida que vive fora do corpo físico – a chamada vida fora da matéria onde se encontra a parte nobre do nosso ser, como é o caso do pensamento, sentimentos e da vontade.

Isso poderia explicar, portanto, a aparente coincidência do cérebro só estar totalmente desenvolvido na mesma época do despertar pleno do espírito – ou seja, em torno dos 23 anos de idade. Mesmo porque, é o próprio espírito que usando a matéria existente no planeta Terra constrói seu corpo físico.

Para a ciência racionalista cristã, antes de encarnar, os filhos escolhem os pais que terão durante sua vida no mundo Terra. Cabe a eles, portanto, uma grande responsabilidade com sua prole.

Quando ao nascer o espírito toma posse do seu corpo físico, ele ainda está muito confuso e perturbado; e essa perturbação persiste até que se complete a formação do seu corpo. E, isso somente acontece na chamada idade da razão, ou seja, em torno dos 25 anos.

Por outro lado, a juventude é uma época muito arriscada para o espírito; pois são comuns nesse período, onde os jovens vivem intensamente a vida material, as falências espirituais. Logo, até que ficassem adultos, o ideal seria que os filhos pudessem contar com os pais para orientá-los a ter uma vida útil e saudável nesse período crítico e delicado.

Por conseguinte, é nossa obrigação fazer o possível não somente para prolongar a durabilidade do nosso corpo, mas, também, para fazê-lo chegar à madureza ainda forte e hígido de tal forma que possamos transmitir os atributos do nosso patrimônio espiritual a nossa prole.

Ele não deve ser desgastado por excessos, maus tratos e intoxicações. Todas as vezes que se tenha de usá-lo nos limites da sua capacidade devemos ser muito prudentes, pois bem aproveitado ele dará ao espírito grandes oportunidades para cumprir seu roteiro no mundo Terra e evoluir.

Aqueles que desconhecem o espiritualismo somente entendem o grande valor do seu corpo físico quando não podem mais utilizá-lo, isto é, depois que desencarnam.

Por falta desse conhecimento eles encurtam a sua vida terrena se suicidando lentamente usando como arma letal abusos que debilitam a saúde.

No plano astral, também vigora a lei da oferta e da procura no que diz respeito à reencarnação. E, atualmente, devido à restrição da natalidade a procura excede de muito a oferta; e uma verdadeira fila de numerosos candidatos está à espera para reencarnar. Esses espíritos estão bem cientes de que somente através de um cobiçado corpo físico eles poderão se livrar das lembranças torturantes do seu passado e limpar-se das mazelas morais que os acabrunham.

Bibliografia

Espiritismo racional e scientífico christão. Estado do espírito depois de encarnado e seus deveres. Ed. Centro Redentor. 11ª ed., p. 91-92, 1938.

Desmond Morris. Origens. In: O macaco nu - um estudo do animal humano. Rio de Janeiro. Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A; 4a ed., p. 11-38; 1967.

Luiz de Souza. A felicidade existe. Rio de Janeiro. Ed. Centro Redentor, 7ª ed., 1982.

Luiz de Souza. Ao encontro de uma nova era. Rio de Janeiro. Ed.Centro Redentor, 8ª ed., 1995.

Geoffrey Blainey. Uma breve história do mundo. S.Paulo. Fundamento Educacional Ltda; 2a ed., 2008.

Silva, Glaci Ribeiro da. O corpo físico e suas metamorfoses. In: Racionalismo Cristão e ciência experimental, volume 2. Rio de Janeiro. Ed. Centro Redentor, p. 79-86; 2007.

S. Jay Olshansky, Bruce A. Carnes and Robert N. Butler. The quest of immortality: Science at the frontiers of aging. New York; W. W. Norton, 2001.

Souza, Luiz de. Alma e Corpo. In: A morte não interrompe a vida. Rio de Janeiro. Ed. Centro Redentor 10a ed., p. 33-37; 1995.

Julho de 2008

 

Página Principal da Gazeta  | Página anterior

Gazeta do Racionalismo Cristão - Uma filosofia para o nosso tempo