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Carta a um amigo

Wilar Franco

Querido Amigo, não desista.

O Racionalismo Cristão existe há muitos séculos, se aprimorando a cada dia, passo a passo.

Sei que não é preciso te dizer isto em face de teu opulento saber e estudo, mas, reiterar-lhe que os maiores desafios de nossas vidas, meu Amigo, são regados de dor, sacrifícios e aborrecimentos imensos, e muitas vezes somos acometidos pelo desejo de desistir de ideais inderrogáveis, razão de nossa presença neste planeta. Eu mesmo, durante muitas vezes, me vi prestes a abandonar meus ideais, meus sonhos utópicos, minhas aspirações profissionais e artísticas, em face das condições aparentemente adversas e irreversíveis.

Amigo, eu tenho 47 anos, sobrevivo vendendo planos de saúde e cantando profissionalmente à noite. Estou na metade do curso de Direito, aos trancos e barrancos, e sou conciliador Judicial do Fórum da Capital do Rio, sendo este trabalho sem remuneração.

Por muitos anos vivi uma vida suburbana de extrema pobreza, mas feliz e cheio de esperanças. Eu gostava de cantar com os seresteiros do local, sendo o único menino entre os coroas (risos). Eu comecei a aprender violão. Vendia picolé nas ruas, levava bolsas nas feiras com um carrinho de mão e abandonei a escola por três anos, voltando a estudar depois do serviço militar.

Voltei aos estudos, ao tempo em que trabalhava numa fábrica de sapatos como cortador de couros desde os 14 anos. Me tornei o melhor cantor seresteiro do bairro, onde todos me adoravam, muito mais pela pessoa simples que sempre fui. Embora o estilo seresteiro estivesse fora de moda, todos paravam para me ouvir cantar e tocar meu violão, fato que se repete até hoje, meu Amigo.

Conheci a Doutrina racionalista cristã aos 13 anos de idade, levado por meu pai. Dela só coisas boas aprendi.

Um dia me vi sozinho e sem emprego, sem lugar para morar e comer, visto meus pais terem se mudado para o interior do Rio, e eu ficado na cidade pagando aluguel e sendo despejado por falta de pagamento.

Parei de cantar, meu violão se perdeu num desabamento durante uma chuva em 1986. Abandonei o curso de engenharia que cursava pela manhã, em vista do plano cruzado e o desemprego que me levaram à lona.

Às vezes eu pensava que somente a desencarnação me livraria dos sofrimentos e chorava sozinho a sorte que eu tinha.

Em 1988 voltei a cantar em público, comprei outro violão e resolvi abrir uma fábrica de bolsas aqui no Rio, indo morar em Santa Tereza, onde moro até hoje.

Esta fábrica só serviu para me afundar em dívidas, pois eu não me saíra um bom negociante. Eu era bom demais para as pessoas, sendo assim um péssimo comerciante e patrão.

Foram dez anos de minha vida jogados no lixo, a fábrica acabou em 1998 com dívidas, brigas com minha irmã que era minha gerente e, por fim, minha algoz.

Na verdade, nunca procurei meus pais para incomodá-los ou pedir ajuda.

Foi no emprego, que eu conseguira em 1983 numa firma de segurança até 1986, onde conheci uma jovem de boa família que me recebeu com amor e apoio, principalmente da mãe dela que tanto me ajudou, pois sabia que nos amávamos e que eu era um bom jovem. Tornei-me, assim, um membro da família. Temos dois filhos lindos, um casal, estando a menina hoje com 15 anos, e o menino com 13.

Hoje ainda vivo com sacrifícios, voltei ao Curso Superior, agora no campo do Direito, e em 2002 gravei um CD denominado Rua das Flores. O autor da música Rua das Flores desencarnou no final desse mesmo ano, sem que tivesse assinado a autorização para liberação de obra. Este fato me impede de comercializar o CD, pois a capa e o título giram em torno desta música; e, para piorar, a viúva está de mal comigo por causa de uma reportagem de O Globo, onde eu participo de um grande evento cultural em Paquetá. Tudo por ciúme, pelo fato de eu ser um seresteiro de conservatória atuando em Paquetá. É meio complicado isso (risos).

A gravação deste CD só prejuízos me trouxe até agora. Parece que tudo dá errado sempre. O dinheiro que eu gastei com o CD, sem retorno, me impediu continuar o estudo de Direito, onde hoje estou com a matrícula trancada! Dá vontade de rir, muitos risos, mas em julho agora eu volto!

A Doutrina racionalista cristã me fez um FORTE, estou sempre pronto para reagir e continuar... Jamais abrirei mão da reação enquanto vivo for. Vou continuar assim, mesmo que pereça na lona. Busco forças na fraqueza e teimo em me reerguer após as quedas diversas, inspirado em pessoas como ti meu Amigo, que tanto tem a contribuir com a esperança, não só dos teus pares racionalistas cristãos, mas também de todos que venham a conhecer a tua grandeza de caráter e conhecimentos sábios, oriundos da riqueza espiritual que acumulaste durante tantas reencarnações!

Precisamos de ti aqui e agora!

Perdão por falar de mim mesmo, mas eu precisava te dizer isto meu Amigo.

Maio de 2006

 

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