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Os caminhos da evolução

Caruso Samel

Visão fundamental da teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin e do enfrentamento atual entre os Evolucionistas e Criacionistas.

Nada no mundo vivo faz sentido se não for à luz da evolução Theodosius Dobzhansky (1973)

Está fazendo 147 anos desde a publicação, em 1859, da obra Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou mais abreviadamente, A origem das espécies, de autoria do naturalista inglês Charles Spencer Darwin (1809-1882). Darwin fez a sua famosa viagem de quase cinco anos (1832-1836) a bordo do H.M.S. Beagle. Nessa viagem, a rota do Beagle incluiu Tenerife, Ilhas Cabo Verde, Brasil (Salvador e Rio de Janeiro, na ida e na volta), Uruguai, Argentina (Buenos Aires e Terra do Fogo), Chile, Peru, Ilhas Galápagos, Taiti, Nova Zelândia e Tasmânia. Mas, foi nas Ilhas Galápagos que ele mais informações colheu (1). Ao longo da viagem, Darwin fez observações e recolheu exemplares de uma rica e variada flora e fauna e passou a estudá-las durante 24 anos, para só então publicar o seu livro. Foi um trabalho sério e consciencioso.

Devemos lembrar que, somente na década de 1830, Karl Ernest von Baer organizou os trabalhos de citologia e juntamente com Theodor Schwann e Mathias Jakob Schleiden estabeleceram as bases da citologia, mostrando que animais e plantas são compostos dos mesmos elementos – as células (2). Quase ao mesmo tempo, na França, Claude Bernard (1813-1878) desenvolvia a fisiologia; por sua vez, as leis da hereditariedade descobertas por Gregor Mendel (1822-1884) foram propostas após Darwin ter publicado os seus trabalhos. Somente no início do século XX, os mecanismos da herança genética tornaram-se conhecidos através dos estudos sobre os cromossomos e os genes. A partir daí, com o desenvolvimento da biologia molecular (James Watson e Francis Crick, descobridores da estrutura do DNA e ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina, em 1951) e, finalmente, da genômica (seqüenciamento do DNA, no final do século XX) surgiu a Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo, que se fundamenta na mutação e na recombinação gênica, conhecimentos esses que só foram incorporados à teoria de Darwin recentemente para explicar as diferenças entre indivíduos da mesma espécie e contrapor-se às críticas dos céticos e dos defensores do Criacionismo. (1)

Decorridos tantos anos, sem que aparecesse outra teoria melhor que a destronasse, a chamada teoria evolucionista de Darwin é a que mais se adapta aos fatos observados, ao explicar a evolução pela seleção natural entre as espécies. Lembramos que uma teoria bem parecida foi, simultânea e independentemente, apresentada pelo britânico Alfred Russel Wallace (1823-1913) (1, 2).

Mais que a obra Origem das espécies, Darwin provocou a ira da Igreja Católica ao publicar, doze anos mais tarde, a sua obra A Descendência do homem (1871), em que reforçou sua teoria de que o ser humano teria descendido dos primatas. Com essa obra, Darwin entrou em confronto com a história bíblica da criação como está descrita no Gênesis. Os conservadores de toda a Europa também protestaram contra a teoria, por se recusarem a admitir que os ancestrais da espécie humana tivessem sido animais. Na época, Darwin foi muito ridicularizado por isso pela imprensa européia que publicou "libelos contundentes ou sarcásticos contra o naturalista e suas teorias, consideradas extravagantes, anti-sociais e atéias. Uma charge daquele período, que se tornou conhecida do grande público, representava-o com corpo de macaco, encimado por seu crânio longilíneo, fisionomia séria e longa barba" (3). Darwin sabia muito bem que a divulgação de suas idéias causaria repúdio e talvez seja por isso que protelara, por mais de vinte anos, a sua publicação. Só divulgou o seu trabalho "quando tomou conhecimento das pesquisas e das conclusões de Alfred Russel Wallace, as quais estavam na iminência de serem divulgadas" (3).

É lógico que ele teve defensores de expressão no meio científico em que transitava, como Thomas Huxley, Paul Broca e Ernst Haeckel, além do próprio Alfred Russel Wallace, que lhe reconheceu a primazia da Teoria da Evolução. Diante de uma teoria tão revolucionária, colocaram-se, de um lado, os darwinistas que percebiam, nas idéias "do polêmico naturalista, um modelo simples, completo e elegante, capaz de explicar a diversidade das espécies e as origens dos seres vivos e do homem em particular."(3). Do outro lado, colocaram-se os criacionistas, defensores da fé, da religião e das escrituras ditas sagradas. Estas posições antagônicas são como água e azeite, não se coadunam e não se misturam, a tal ponto que se o cerne dessa discussão tivesse ocorrido fora da Inglaterra e recuado cerca de um século, Darwin teria sido acusado de blasfêmia e heresia e teria sido queimado vivo na fogueira pela Inquisição. Doloroso é saber que a polêmica criacionismo versus evolucionismo ainda subsiste nos dias de hoje, em pleno século XXI. Mais adiante vamos tratar dessa disputa que, para os religiosos é matéria de fé e para os evolucionistas, matéria de razão e lógica.

Como até o momento a evolução das espécies só cuidou do reino vegetal e animal, inclusive o homem, nós vamos tratar aqui também da "evolução" que ocorreu no reino mineral, pois este também constitui um elo fundamental da Natureza. Coube a Charles Lyell (1797-1875), o pai da geologia moderna e contemporâneo de Darwin, de quem se tornou amigo, na sua obra em três volumes Os princípios da geologia, só publicada entre 1830-1833, introduzir o conceito de "gradualismo" (observem a semelhança com o termo evolucionismo, de Darwin) na formação geológica da crosta da Terra. Sua obra frutificou e hoje nós temos a evolução da Terra descrita em eras e períodos geológicos, resultantes dos grandes eventos e cataclismas pelos quais passou e vem passando o nosso planeta. Mas, nenhum cientista, que seja do nosso conhecimento, tratou da evolução da matéria em si, da sua organização e estruturação como cadeia inicial da evolução das espécies, embora a tenha estudado brilhantemente no que diz respeito ao conhecimento intrínseco do átomo e das partículas e sua interação tanto no núcleo atômico (prótons e nêutrons) como na eletrosfera (elétrons). É inegável que os resultados desses estudos e descobertas da Física e da Química, principalmente no século XX, levaram a humanidade a desfrutar de uma tecnologia avançada, descuidando-se, porém, dos valores morais do ser, isto é, a Ciência vem se afastando da Filosofia da qual é filha legítima.

1. Evolução da Força através da Matéria

Os conhecimentos cosmológicos atuais, quando fazemos um retrospecto desde os primórdios do Universo, qualquer que seja a teoria que venha ser adotada para explicar a sua origem e porque ele existe, não deixam dúvidas de que a evolução da matéria partiu do mais simples para o mais complexo. A direção em que ocorrem tais processos, sempre dos mais simples aos mais complexos, caracteriza o que chamamos de Evolução, não apenas material ou somática, mas também da Força e com ela, da energia em suas mais diversas formas conhecidas e desconhecidas da Ciência oficial. Inicialmente, formaram-se as partículas de energia (elétrons e quarks) e. quase que simultaneamente, as partículas de matéria (prótons e nêutrons) mediante a atuação da Força Universal. É fácil deduzir que ambas, Força e Matéria, se formaram nessa seqüência, porque a Força precisa da Matéria para evoluir e constituir os mundos por elas formados. Só milhões de anos mais tarde após a origem do Universo, formaram-se os primeiros átomos de hidrogênio (matéria) – o mais simples, com um próton no núcleo e um elétron na eletrosfera. Este elemento aglomerou-se pela força de atração das massas e formaram-se as estrelas que são verdadeiras usinas de força (fusão nuclear do hidrogênio, transformando-se este em hélio). Da fusão do hélio, através da nucleosíntese, surgiram os elementos mais pesados. É de se notar que a formação dos elementos químicos não é indefinida – ela produz um certo número de estruturas atômicas naturais (exatamente 92) e pára por aí. A combinação de átomos do mesmo elemento e de elementos diferentes, segundo as leis da química, produz as moléculas, macro moléculas e moléculas gigantes.

A formação dos planetas do sistema solar ocorreu há cerca de quatro e meio bilhões de anos. No que diz respeito à Terra, levando-se em conta o seu resfriamento até às temperaturas ambientais conhecidas e a atuação de numerosos fatores como intemperismo, vulcanismo, etc., formaram-se os oceanos e a crosta terrestre. Estas contêm, substancialmente, moléculas do tipo inorgânicas ou minerais, que são numerosas, embora em muito menor número que as do tipo orgânicas (que sempre contêm o elemento carbono). Para melhor estudar a crosta terrestre os geólogos criaram as chamadas eras geológicas (pré-cambriana, paleozóica, mesozóica e cenozóica), todas abrangendo longos períodos geológicos bem definidos. Ainda, segundo os geólogos e paleontólogos, a rocha mais antiga conhecida data de 3,8 bilhões de anos (5). Desde o período arqueano da era pré-cambriana (2,5 bilhões de anos - 650 milhões de anos dos dias atuais) teriam surgidos os primeiros seres vivos, derivados de substratos coloidais conhecidos como do tipo coacervados. Colóides são substâncias químicas complexas de elevado peso molecular.

Na crosta terrestre disseminaram-se os minerais, os quais são objeto de estudo por parte de uma ciência – a Mineralogia. A ocorrência de numerosos elementos na forma pura (diamante, enxofre, ouro, para citar alguns) e combinada (óxidos, carbonatos, silicatos, sulfetos e sulfatos), seja como substâncias amorfas, seja nas mais variadas e lindas formas cristalinas é conhecida de todos. Nelas, os átomos se reuniram para formar as moléculas, constituídas seja pelos mesmos elementos simples, seja por diferentes elementos formando compostos binários, terciários e quaternários, em estruturas cristalinas, muitas delas ocorrendo na natureza sob a forma hidratada. Estas estruturas compreendem sete sistemas cristalográficos ou singonias (regular, tetragonal, hexagonal, romboédrico, rômbico, monoclínico e triclínico), todos com suas constantes cristalográficas e características de simetria (eixos) próprias. (6).

De acordo com a sua composição química (6), os cristais estão classificados em grupos que dão origem a nove classes e várias subclasses, que vão desde os elementos químicos puros ou nativos (metais como o ouro, prata, cobre e não-metais como o diamante, grafite, enxofre) aos compostos químicos (sulfetos, sais haloides, óxidos, oxisais (dois tipos), fosfatos-arseniatos-vanadatos, silicatos e minerais radioativos). Quem observa os cristais e suas formas, muitos deles com notável brilho, cor e iridescência, não deixam de ficar encantados com sua beleza. Algumas dessas maravilhosas substâncias possuem formas alotrópicas – mesma composição química e estruturas cristalinas diferentes, como o enxofre e o carbono (carvão, grafite e diamante) que parecem nos dizer que têm individualidade própria. São formas de vida rudimentar, intrínsecas aos átomos que os constituem, mostrando-nos que neles a Força Inteligente age e interage, organizando o seu arranjo em simetria, condição que lhes dá a forma e outras propriedades características de cada espécie mineral. Usei aqui o termo espécie, de propósito, para significar que, na verdade, os minerais são a ponta inicial das espécies em evolução, infelizmente não incluída na obra A origem das espécies, de Darwin, mesmo tendo sido ele amigo de Lyell, como se expôs anteriormente.

Talvez por ser a matéria o domínio da física e da química e sendo a geologia uma ciência distinta, ainda que conhecida por Charles Darwin, este notável naturalista não fez observações no reino mineral, perdendo-se assim uma excelente oportunidade de estender o conceito de evolução à matéria sob todas as formas. Darwin limitou-se, assim, à matéria organizada – que sempre contém o elemento carbono, encontrada no reino vegetal e no reino animal, inclusive o Homem. Mas, ainda que Darwin tivesse incluído a matéria organizada nas suas concepções evolucionistas, faltaria uma teoria global da evolução, que viesse incluir a ação da Força Inteligente, sob todas as formas, sobre a Matéria. Nem os físicos modernos (século XX) nem os filósofos, até o presente momento (2005), dirigiram seus esforços e inteligências para estudar e examinar a vida fora da matéria em todo o seu alcance e esplendor.

A vida fora da matéria, embora sentida e conhecida pelos sábios filósofos da mais remota antiguidade, só passou a ser estudada, demonstrada e comprovada a partir de meados do século XVIII com os trabalhos de William Crookes e numerosos outros investigadores independentes. Mas, ainda que nos limitemos ao planeta Terra, onde se conhece a vida tal como ela se faz representar nos reinos da Natureza, constatamos que nem os físicos nem os pesquisadores da Biologia (biólogos, geneticistas, etc.) e da Medicina (neurocientistas) ainda se dispuseram a embrenhar-se nesse campo, tão essencial ao verdadeiro conhecimento da vida na Terra.

Foi Luiz de Mattos (7) que, já em 1910, num lance de grande intuição, afirmou que na Natureza só existem Força e Matéria e que a primeira atua sobre a segunda em todos os processos e afirmou, ainda, que essa verdade se estende desde o microcosmo até ao macrocosmo. São dele estes dizeres, constantes da página 49 do livro Racionalismo Cristão, 43ª edição (7):

"O globo terrestre é uma esfera de matéria organizada impregnada de forças que atuam diretamente sobre os átomos, constituindo-os, unindo-os e mantendo-os em equilíbrio, na sistemática de uma complexidade de movimentos."

"O átomo está em constante vibração produzida pela energia existente no seu interior e liga-se a outro átomo pela força de coesão para compor a molécula. É também essa mesma força de coesão que une as moléculas entre si."

Trata-se de um rasgo de intuição quando os conhecimentos sobre o modelo atômico e da física quântica ainda estavam na sua infância, conhecimentos esses que não eram do conhecimento de Luiz de Mattos, por não ser este um cientista, mas filósofo espiritualista autodidata.

Mais adiante, na mesma obra citada, à página 50, Luiz de Mattos apresenta um esquema, mostrando a interação da Força Universal sobre a Matéria nos três reinos da Natureza, destacando-se os seus atributos fundamentais, com a predominância da Força (reino mineral), Força e Vida (reino vegetal) e Força, Vida e Inteligência (reino animal), nesta ordem. E a seguir, acrescenta (7), à página 51 da obra citada:

"Não se deve inferir, daí, a inexistência de vida no reino mineral nem inteligência no reino vegetal. Apenas se menciona a predominância dos atributos fundamentais apontados, para facilitar a compreensão do leitor, dada a transcendentalidade do assunto".

"O ser humano que quiser demorar-se na investigação deste importante tema, encontrará campo aberto para desdobrar o raciocínio, fortalecer as suas convicções e concluir que essas duas fontes substanciais - Força e Matéria - são o princípio e o fim, são unidades que se tocam em seus extremos, que correm paralelas e que, na sua incomensurabilidade, abrangem o infinito e penetram e envolvem o Universo." "As expressões aqui empregadas são relativas, à falta de outras que melhor possam exprimir uma concepção de ordem absoluta."

Compreende-se, portanto, que Luiz de Mattos, desde o início de sua obra lançada com o nome de "Espiritismo Racional e Científico Cristão", hoje conhecida e divulgada como "Racionalismo Cristão", com quase 100 anos de existência, sempre enxergou, ensinou e divulgou um conceito mais amplo de vida – um conceito não materialista da vida ou, expresso em termos doutrinários, um conceito espiritualista da vida, quando nela sua expressão suprema – o Homem é incluído, conforme veremos mais adiante. Para ele não só a Matéria evolui, mas também e principalmente a Força que incita todas as formas de matéria, desde a inorgânica ou mineral (da química inorgânica), à orgânica (da química orgânica, que tem o elemento carbono como fundamento) e à biológica (química biológica, que é uma estruturação refinada da química orgânica, para dar origem às células e aos sistemas biológicos).

No limiar do século XX, a própria Ciência tinha uma idéia muito simples do que seria a matéria. Esta era tida como qualquer substância. Tomemos, por exemplo, ainda com os conhecimentos daquela época, uma pedra qualquer, que quando quebrada ou triturada se apresenta sob a forma de pó ou poeira. Essa poeira, por sua vez, era formada de moléculas, por trás das quais ligavam-se os átomos, que se apresentavam na forma de minúsculas bolinhas esféricas, algo indivisível. Para os químicos e físicos daquela época, em que as idéias eram absolutas, tudo parecia certeza, e Matéria era tudo que fosse palpável. Só a ela a ciência se dirigia para questioná-la em suas propriedades, dentro do realismo alcançado pelos sentidos físicos e permitido pelos instrumentos de laboratório. Haveria aqui um lugar para a Força Inteligente e para o Espírito (a Força na sua forma mais evoluída, inteligência atuante)? Dever-se-ia procurar a Força como um subproduto da Matéria ou como algo independente fora dela e sobre ela atuando? Este era o dilema encontrado por Luiz de Mattos e pelos cientistas em geral.

O caminho seguido pela Ciência foi o da investigação da Matéria, pois, como vimos, a essa altura ela já havia se livrada da Filosofia e colocado a experimentação como sua principal ferramenta de investigação, deixando em segundo plano o instrumento da razão, própria do ser humano, juntamente com boa parte da lógica. No início do século XX, estava nascendo a teoria quântica com uma reformulação revolucionária de tudo o que se conceituava sobre a Matéria, conforme o texto abaixo que reproduz uma entrevista do filósofo francês Jean Guitton com os doutores em semiologia (ciência que estuda a significação dos processos culturais) e os físicos teóricos Igor e Grichka Bogdanov, onde o grifo é nosso (8):

"Eis-nos no início dos anos 1900. A teoria quântica nos diz que, para compreender o real, é preciso renunciar à noção tradicional de matéria: matéria tangível, concreta, sólida. Que o espaço e o tempo são ilusões. Que uma (mesma) partícula pode ser detectada em dois lugares ao mesmo tempo. Que a realidade fundamental não é cognoscível.".

"Estamos ligados ao real dessas entidades quânticas que transcendem as categorias do tempo e do espaço ordinários. Existimos através de "alguma coisa" cuja natureza e espantosas propriedades temos bastante dificuldade de apreender, mas que se aproxima mais do espírito que da matéria tradicional."

Tratamos, do ponto de vista exclusivamente científico, dessas grandes alterações havidas na Física durante o século XX no trabalho que já apresentamos sob o título Força e Matéria. Vamos agora tratar da outra alternativa, a não materialista, em que a realidade não se limita à matéria visível, onde espaço e tempo não passam de simples abstrações, puras ilusões dos sentidos humanos. Como dissemos, essa foi a alternativa seguida por Luiz de Mattos em suas pesquisas filosóficas e espiritualistas, pois seus estudos levaram-no a considerar a Força como partícula da Inteligência Universal – Força Criadora. Quase da mesma forma agiu a Física quântica, que considerou que a realidade não é causal, nem local: nela, espaço e tempo são abstrações, puras ilusões, com a diferença que esta coloca tudo como conseqüência da Matéria. Veja esta citação (8):

"As conseqüências dessa reformulação ultrapassam em muito tudo aquilo que hoje estamos em condições de acrescentar à nossa experiência, ou mesmo à nossa intuição. Pouco a pouco, começamos a compreender que o real está velado, inacessível, que dele percebemos apenas a sombra, sob a forma provisoriamente convincente de uma miragem. Mas o que há então sob o véu?"

Diante desse enigma, só restam duas atitudes a tomar: uma nos conduz ao absurdo, de continuarmos endeusando a Matéria, a outra nos levará à pesquisa do incognoscível, cujas leis continuam desafiando a Ciência. Este dilema não poderá perdurar por mais tempo, pois a humanidade está carente de informações e pedindo uma direção segura para sua evolução. Afinal, o que é real? Por que existe o ser e qual é o seu destino? Precisamos levantar o véu da Matéria para descobrirmos. Estas questões serão por nós tratadas em um trabalho futuro.

Trata-se de um campo desconhecido e aberto à investigação séria e honesta, sem o ranço místico das religiões. É necessário apenas coragem e valor, que todo cientista honesto possui, mas que é preciso não hesitar em examinar com isenção de ânimo, aceitando os resultados surpreendentes, mas não milagrosos que, com certeza, vai encontrar além da Matéria. A hora é agora, no limiar desse novo século, pois a humanidade está cansada de tanto materialismo!

Ainda mencionando Jean Guitton (8), ele afirma que nós precisamos dar um passo decisivo, demonstrando que "há continuidade entre a matéria dita "inanimada" e a matéria viva. De fato, a vida retira diretamente suas propriedades dessa misteriosa tendência da Matéria para se organizar a si mesma, espontaneamente, para dirigir-se a estados incessantemente mais ordenados e complexos. Já o dissemos: o Universo é um vasto pensamento. Em cada partícula, átomo, molécula, célula de matéria, vive e atua, incógnita, uma onipresença." E mais adiante: "A presença manifesta dessa inteligência, até no cerne da matéria, afasta-me para sempre da concepção de um Universo que teria aparecido "por acaso", que teria produzido a vida e a inteligência "por acaso". O que está por trás dessas asserções é que o Universo tem um eixo, um propósito, que estamos designando como evolutivo, do átomo mais elementar à mais elevada inteligência possível na Terra e algures no espaço infinito, que representamos como Inteligência Universal (causa transcendente), fonte de todas as partículas inteligentes portadoras da vida.

Quando mencionamos que há uma causa inteligente não estamos nos referindo ao Deus das religiões nem às idéias dos religiosos de todas as religiões sobre Deus, nem a um suposto Deus super matemático (o Acaso da teoria das probabilidades, nem ao Infinito do cálculo infinitesimal ou ao Infinito Universal). Não se trata de nenhum ente ou super ente. Nós estamos falando de causas ou agentes ainda não conhecidos pela Ciência oficial. Nós estamos falando de causas super galáticas ou entre galáticas, não sobrenaturais, porque o natural não é só o que se vê com os nossos pobres olhos. Estes vêem os objetos e as coisas que refletem apenas a luz visível, uma ínfima fração de todo o amplo espectro eletromagnético. Os cientistas falam muito de realidade e endeusam este conceito como se ele se aplicasse apenas ao mundo material.

Como seria essa realidade, por exemplo, se nossos olhos físicos enxergassem uma porção maior do espectro eletromagnético, por exemplo, se tivéssemos olhos penetrantes como os Raios-X? Para não nos estendermos, o que queremos dizer é que toda realidade, seja ela objetiva ou subjetiva, é sempre relativa. O que estamos querendo dizer é que a evolução não se limita apenas à forma, mas também, à Força, à essência, ao Espírito, que não têm forma, mas podem assumir qualquer forma, usando-se do fluido universal, que é uma matéria tênue, rarefeita, plasmável pela Força.

A Força (gênero), que abrange o Espírito (espécie superior da Força), evolui sempre e essa evolução começa nos átomos, desde o mais simples (hidrogênio) até ao mais complexo elemento químico natural (o urânio) tanto no reino mineral, como no vegetal e animal, porque afinal todos os corpos são átomos que vão se estruturando em formas cada vez mais complexas, sob a ação da Força, ao longo dessa evolução, conforme veremos mais adiante. Afinal, o Universo e tudo o que nele existe tem uma história e essa história está longe, muito longe de ser conhecida pelo Homem. Talvez, nós como seres humanos, estejamos passando por uma super evolução, sem que nos possamos disso dar conta, pois a evolução é um processo demasiadamente lento e seus efeitos só serão observados a longo prazo. Daí, nos atrevermos a pensar numa evolução para uma "superespécie" humana, capaz de usar, por exemplo, a telepatia como elemento biológico de recepção e transmissão do pensamento.

2. Evolução da Força nos seres vivos

Exceções feitas ao monóxido de carbono, dióxido de carbono, ácidos carbônico e bicarbônico e seus sais, os carbonatos e bicarbonatos, cujos estudos fazem parte da química inorgânica ou mineral, todas as substâncias que contêm carbono em suas moléculas constituem objeto da química orgânica. Este conceito nasceu quando, em 1828, Friederich Whöler (1800-1882) sintetizou pela primeira vez a uréia.

Decorreram-se 140 anos para que Arthur Kornberg (1918 - ) – prêmio Nobel de Medicina em 1959 – e Mark Goulian obtivessem, em 1967, a síntese do ácido desoxiribonucleico, o DNA, molécula com estrutura helicoidal portadora do código genético.(9)

A origem da vida

Durante o período que decorreu desde o lançamento da obra A origem das espécies de Charles Darwin (1859), que não cuidou da origem da vida, até os dias atuais (2005), muitas especulações sobre a origem da vida foram aventadas, sem convencer a todos os estudiosos, ainda que muitas delas tivessem recebido abordagem científica. Na última metade do século passado, a biologia experimentou um grande avanço, a ponto de desvendar o código genético da multiplicação celular e promover a clonagem de embriões.

Experiências de laboratório permitiram formular-se teorias coerentes, plausíveis e aceitáveis sobre a origem da vida, obviamente sem o caráter de verdadeiras, como as que foram apresentadas, quase que simultaneamente, por J. B. S. Haldane (1892-1964) e Alexandr Ivanovitch Oparin (1894-1980).

Vamos examinar, muito resumidamente, a hipótese do químico russo Alexandr Ivanovitch Oparin (1894-1980), divulgada por volta de 1936, versão mais ou menos aceita pelos cientistas (biólogos) sobre a formação dos primeiros seres "vivos". Oparin possuía conhecimentos de astronomia, geologia, biologia e bioquímica e os empregou para a suposta solução deste problema. Ele observou pelos seus estudos de astronomia que alguns planetas do sistema solar possuem atmosfera redutora com a presença de gases como hidrogênio, metano e amônia.

Por analogia, Oparin admitiu que quando a Terra se formou e se solidificou, ainda quente, ocorriam freqüentes tempestades com descargas elétricas (relâmpagos) e estes teriam provocado reações químicas entre os elementos anteriormente citados e o vapor d´água formando-se moléculas mais ou menos complexas de aminoácidos. Assim, parece bem verossímil que nos primórdios de sua formação, a atmosfera do planeta consistia de hidrogênio, vapor d´água, gás carbônico, vapores sulfurosos, amônia e metano. Não havia oxigênio na atmosfera, sendo esta redutora (o contrário de oxidante) por excelência. O vapor d´água era proveniente da intensa atividade vulcânica, que mesmo nos dias de hoje, é trazido junto com o magma vulcânico, à proporção de até dez por cento. Com o arrefecimento da Terra, formaram-se os oceanos, mares e lagos primitivos, ainda bem diferentes dos atuais. Em algum momento, durante o período arqueano (3,5 - 2,5 bilhões de anos atrás) da era pré-cambriana, surgiram os primeiros "tijolos" químicos na forma de aminoácidos e proteínas. Com a persistência das chuvas, durante milhares ou milhões de anos, os aminoácidos e proteínas foram arrastados e levados para os lagos, mares e oceanos. Por um tempo incalculável estas proteínas combinavam-se e recombinavam-se, multiplicando-se qualitativa e quantitativamente nas águas mornas dos referidos lagos, mares e oceanos. Dissolvidas em água, formaram uma espécie de "sopa" química, que poderia ter se concentrado em alguns pontos, quem sabe junto às praias e rochedos para dar lugar à formação de colóides. A interpenetração dos colóides levou à formação dos coacervados (10), um tipo especial de colóide.

Esta hipótese é plausível porque no Universo, em muitas estrelas, a análise espectral revela a presença de moléculas de amônia e moléculas orgânicas de pequeno porte na forma de hidrocarbonetos. Experiências de laboratório simularam as condições provavelmente existentes na Terra no início do aparecimento da vida, passando-se descargas elétricas (simulando as descargas elétricas das tempestades) através de uma mistura de gases contendo hidrogênio, vapor d´água, amônia e metano, sintetizando-se, assim, moléculas orgânicas, do tipo aminoácidos (moléculas que contêm carbono, hidrogênio e nitrogênio). Isto foi feito por Harold Urey e Stanley Miller, por volta de 1952. O passo seguinte foi criar condições de laboratório para o aparecimento de macro-moléculas que se autoduplicassem, produzindo cópias de si mesmas, e isso foi conseguido, embora sujeito a muitas opiniões contrárias.

Com esse embasamento, teorizou-se que, com o acúmulo de moléculas do tipo das indicadas, circunscritas a espaços muito restritos, teria dado lugar à formação de uma "sopa" química. Esta, quem sabe, mediante a ação catalítica de argilas (barro) e outros elementos metálicos ou mesmo certas enzimas ou fermentos sintetizados durante um longo processo, teriam formado macro-moléculas de nucleoproteínas e lipídios, acopladas às estruturas coloidais, conhecidas como coacervados. A interação entre coacervados, nucleoproteínas e lipídios teria criado as condições necessárias para que surgissem as células na forma dos primeiros seres unicelulares – os procariontes (células sem núcleo). Suspeita-se que os primeiros fósseis mais antigos encontrados e datados de cerca de 3 bilhões de anos sejam provenientes de procariontes. Uma descrição bem detalhada desse processo pode ser vista na referência (9) e, principalmente, na referência (11). Extraímos, de um trabalho da professora Cynara Chemale Kessler, o seguinte: (9)

"Neste aspecto, a estrutura coloidal da matéria orgânica teria dado lugar às membranas celulares. O problema da síntese das grandes moléculas subdivide-se em dois, interdependentes: o primeiro trata apenas do aparecimento das moléculas que se conhece atualmente; o segundo, refere-se ao modo pelo qual se deu a passagem do estado de uma simples "sopa" de moléculas orgânicas para o aparecimento de formas celulares organizadas."

"Para o primeiro problema, a resposta é aparentemente paradoxal. Imaginemos uma pequena proteína formada por cinqüenta aminoácidos, de vinte variedades. Desmontando-se essa proteína e reagrupando-se seus aminoácidos, de todas as formas possíveis, isso resulta num número altíssimo: a unidade seguida de 48 zeros. Portanto, se nos mares primitivos eram possíveis todas as combinações (e eram, sem dúvida), por que razão vingaram as que produziram a vida? O paradoxo está em que vingaram exatamente porque produziram a vida."

Possivelmente, apareceram outros tipos de macro-moléculas, além do RNA (ácido ribonucléico) e do DNA (ácido desoxiribonucleico), mas somente estas últimas conseguiram organizar-se em pequenas unidades autoreprodutoras, usando as outras como alimento, numa espécie de "canibalismo". Com essa hipótese, admite-se que os procariontes (representados por bactérias e algas, cujas células não contêm núcleo) - primeiros seres vivos, eram heterótrofos, como os animais e fungos atuais, que comem outros seres vivos para sobreviverem. Somente muito tempo depois, há cerca de 1,5 bilhão de anos, surgiram os eucariontes (cujas células contêm núcleos) – autótrofos, seres vivos que criam seus próprios alimentos, como as plantas atuais. Isto teria sido possível com o aparecimento dos cloroplastos (elementos formadores de clorofila) no interior das células. Segundo esta versão, os animais (reino das moneras - bactérias e certas algas destituídas de cloroplastos, tipo cianofícias ou algas azuis) teriam surgido antes que os vegetais.

Mas, acabado o canibalismo inicial, que durou milhões de anos, os unicelulares evoluíram para um estágio de complexidade tal que permitia o aproveitamento das reações fotoquímicas. Com esse mecanismo de fotossíntese (transformação do gás carbônico atmosférico pela clorofila em produtos orgânicos que constituem as plantas, com liberação de oxigênio), evitou-se, o extermínio da vida incipiente representada pelos procariontes, o que ocorreria se o canibalismo entre eles prosseguisse. É de se mencionar que até o surgimento dos eucariontes, a vida se organizou nos mares, sob as águas, pois a atmosfera era essencialmente redutora, com apenas 0,001% de oxigênio. Somente há 1,8 bilhões de anos atrás a atmosfera teria alcançado elevados teores de oxigênio (hoje, cerca de 21%), em função de milhões de anos de fotossíntese dos seres unicelulares primitivos (vegetais), principalmente através do plâncton oceânico (10).

Graças ao aperfeiçoamento da microscopia ótica eletrônica, além de outras técnicas, e de acordo com o tipo estrutural das células (procariontes e eucariontes), Whitaker classificou os seres vivos atuais em cinco reinos: monera (procariontes: bactérias atuais e certas algas), fungos, protistas (protozoários e algas unicelulares), animal (pluricelulares), plantas (pluricelulares), estes últimos quatro, todos eucariontes (12).

Como dissemos, as hipóteses acima são plausíveis. Mas organizar-se a matéria, mesmo numa estrutura complexa e propícia à vida, não significa que a vida esteja presente, e nisso reside a diferença entre existir e não existir como ser, mesmo que se trate de uma única célula. É necessário iniciar-se nela o processo metabólico, isto é imprimir-lhe a Força Inteligente que lhe garanta o que nós chamamos "vida", seja como forma celular autotrófica ou heterotrófica. A vida em si, de onde vêm, de onde se originou? Será que replicar uma molécula de aminoácidos, nucleotídeos ou mesmo de DNA, significa também replicar a vida?

Dada a natureza também filosófica da questão, uma vez que nada acontece por acaso, para cada efeito tem que haver uma ou mais causas, vamos reproduzir aqui uma parte do diálogo havido entre os autores do maravilhoso livro Deus e a ciência, de Igor e Grichka Bogdanov com o filósofo Jean Guitton, conforme relatado na referência (11):

Igor Bogdanov – Tomemos um caso concreto: numa célula viva subsistem uns vinte aminoácidos, que formam uma cadeia completa. A função desses aminoácidos depende, por sua vez, de cerca de 2000 enzimas específicas. Continuando o mesmo raciocínio, os biólogos foram levados a calcular que a probabilidade de que um milhar de enzimas diferentes se aproximem de um modo ordenado até formar uma célula viva (ao longo de uma evolução de muitos bilhões de anos) é da ordem de 10 elevado à potência de 1000 contra um.

Jean Guitton – O que equivale a dizer que essa chance é nula.

Igor Bogdanov – Foi o que levou Francis Crick, prêmio Nobel de Biologia graças à descoberta do DNA, a concluir, no mesmo sentido: "Um homem sensato, armado de todo o saber à nossa disposição hoje, teria a obrigação de afirmar que a origem da vida parece atualmente dever-se a um milagre, tantas são as condições a reunir para viabilizá-la.".

Grichka Bogdanov – Precisamente. Retornemos um instante às origens, há quatro bilhões de anos. Nessa época distante, ainda não existe o que chamamos vida. Sobre a Terra dos primeiros tempos, varrida pelos ventos eternos, as moléculas nascentes são incessantemente agitadas, cortadas, reformadas e depois novamente dispersas pelo raio, pelo calor, pelas radiações e pelos ciclones.

Ora, desde esse estado primitivo, os primeiros corpos simples se reúnem segundo leis que já não devem nada ao acaso. Por exemplo, existe na química um princípio hoje conhecido pelo nome de "estabilização topológica de cargas". Essa "lei" implica que as moléculas que comportam, em sua estrutura, cadeias de átomos em alternância (especialmente o carbono, o nitrogênio e o oxigênio) formam, ao se reunir, sistemas estáveis.

De que sistemas se trata? Nada menos que peças fundamentais que compõem a mecânica do vivente: os aminoácidos.

Sempre segundo a mesma lei de afinidade atômica, eles vão reunir-se por sua vez para formar as primeiras cadeias desses preciosos materiais da vida que são os peptídeos.

No cerne desse caldo primitivo, nas vagas negras dos primeiros oceanos do mundo, começam assim a emergir, segundo o mesmo processo, as primeiríssimas moléculas nitrogenadas (que são chamadas "purinas" e "pirimidinas"), das quais vai nascer, mais tarde, o código genético. A grande aventura começa, levando lentamente a matéria para cima, numa irresistível espiral ascendente: as primeiras moléculas nitrogenadas se reforçam, associando-se ao fosfato e a açúcares, até elaborarem os protótipos dos nucleotídeos, esses famosos elementos de base que, ao formarem por sua vez intermináveis cadeias, conduzem à etapa fundamental do vivente, que é a emergência do ácido ribonucléico (o célebre RNA, quase tão conhecido quanto o DNA).

Assim, em apenas algumas centenas de milhões de anos a evolução engendrou sistemas bioquímicos estáveis, autônomos, protegidos do exterior por membranas celulares e que já se assemelham a certas bactérias primitivas.

Jean Guitton – Afora o aprovisionamento de energia, abundante na época, o verdadeiro problema com o qual se defrontaram essas células arcaicas era o da reprodução. Como esses preciosos aglomerados poderiam manter-se? Como essas pequenas maravilhas da natureza poderiam garantir sua perenidade? Acabamos de ver que os aminoácidos, de que eram formadas, obedecem a uma ordem precisa. Era preciso, portanto, que essas primeiras células aprendessem a "recopiar" em algum lugar esse encadeamento de suas proteínas de base, a fim de que elas mesmas ficassem em condições de fabricar novas proteínas, conformes em todos os aspectos às precedentes.

A questão é, portanto, saber como as coisas se passaram nesse estágio: como essas primeiríssimas células inventaram os inúmeros estratagemas que conduziram a este prodígio, a reprodução?

Igor Bogdanov – Neste caso também foi uma "lei", inscrita no próprio cerne da matéria, que permitiu o milagre: os aminoácidos mais polares (isto é, os que comportam uma carga eletrostática elevada) são espontaneamente atraídos por moléculas nitrogenadas, enquanto os menos polares agregam-se antes a outras famílias, como a citosina.

Assim nasceu o primeiro esboço do código genético: ao se aproximar de certos nucleotídeos (e não de alguns outros), nossos famosos aminoácidos elaboraram lentamente os planos de sua própria construção, depois os instrumentos e materiais destinados a fabricá-los.

Grichka Bogdanov – É preciso insistir mais uma vez: nenhuma das operações evocadas acima pode ter sido efetuada ao acaso.

Tomemos um exemplo, entre outros: para que a agregação dos nucleotídeos conduzisse "por acaso" à elaboração de uma molécula de RNA utilizável, teria sido preciso que a natureza multiplicasse às apalpadelas as tentativas durante pelo menos 10 elevado a décima quinta potência anos, ou seja, durante cem mil vezes mais tempo que a idade total do nosso Universo.

Jean Guitton – Em outras palavras, uma tentativa ao acaso sobre a Terra teria sido suficiente para esgotar o Universo inteiro. Um pouco como se todos os esquemas da evolução tivessem sido escritos antecipadamente, desde as origens.

Mas aqui volta uma pergunta. Se é verdade que a evolução da matéria para a vida contém em si uma ordem, de que ordem se trata?

Observo que se o acaso tende a destruir a ordem, a inteligência se manifesta no sentido contrário, pela organização das coisas, pela instalação de uma ordem a partir do caos. Concluo portanto, observando a estarrecedora complexidade da vida, que o próprio Universo é "inteligente": uma inteligência que transcende o que existe em nosso plano de realidade (no instante primordial daquilo a que chamamos Criação) ordenou a matéria que deu origem à vida.

Porém, uma vez mais: qual é a natureza profunda dessa "ordem", dessa inteligência perceptível em todas as dimensões do real?

Jean Guitton – Se uma ordem subjacente governa a evolução do real, torna-se impossível sustentar, de um ponto de vista científico, que a vida e a inteligência apareceram no Universo em conseqüência de acidentes, de acontecimentos aleatórios, nos quais estaria ausente qualquer finalidade. Observando a natureza e as leis que dela emanam, parece-me, ao contrário, que o Universo inteiro tende para a consciência. Melhor ainda: em sua imensa complexidade, e apesar de suas aparências hostis, o Universo é feito para gerar vida, consciência e inteligência. Por quê? Porque, parafraseando uma citação celebre, "matéria sem consciência não é senão ruína do Universo". Sem nós, sem uma consciência para legitimá-lo, o Universo não poderia existir: nós somos o próprio Universo, sua vida, sua consciência, sua inteligência.

Conseqüentemente, precisamos reavaliar o papel do que chamamos acaso. Jung sustentava que o aparecimento de "coincidências significativas" implicava necessariamente a existência de um princípio explicativo que devia juntar-se aos conceitos de espaço, tempo e causalidade. Esse grande princípio, chamado princípio de sincronicidade, é baseado numa ordem universal de compreensão, complementar da causalidade. Na origem da Criação não há acontecimento aleatório, não há acaso, mas um grau de ordem infinitamente superior a tudo aquilo que podemos imaginar: ordem suprema que regula as constantes físicas, as condições iniciais, o comportamento dos átomos e a vida das estrelas. Poderosa, livre, infinitamente existente, misteriosa, implícita, invisível, sensível, ela está ali, eterna e necessária por trás dos fenômenos, acima do Universo, mas presente em cada partícula."( 8)

Do que ficou exposto neste diálogo sábio, constata-se que nós não somos simples produto deste pequeno planeta, ou então, no dizer de Theodosius Dobzhansky (2), (13): "nada no mundo vivo faz sentido se não for à luz da evolução".

A Evolução das Espécies - Darwinismo e Neodarwinismo

Embora Charles Darwin, na sua obra A origem das espécies (The origins of species), não tenha abordado diretamente o problema da origem da vida, com sua longa viagem de mais de cinco anos no Beagle ao redor do mundo e após exaustivos estudos comparativos baseados na variação das espécies, ele inferiu várias leis dela decorrentes, estabelecendo a teoria da seleção natural. Na verdade, não foi fácil teorizar sobre um assunto ainda não desbravado pelos naturalistas, desde Aristóteles.

Apesar de muito ridicularizado no seu tempo, pouco a pouco a teoria foi ganhando terreno e se firmando. Quem leu a sua obra sabe das dificuldades que encontrou, como por exemplo, nas imperfeições dos registros geológicos e nas incoerências que se apresentavam e, talvez por isso mesmo, levou tanto tempo em divulgá-la. Ainda assim, abordou assuntos como o instinto animal, as afinidades mútuas entre as espécies, o hibridismo, a embriologia dos órgãos rudimentares, etc. Ele mesmo admitiu muitas imperfeições em sua obra, mas nela ficou evidente a luta pela preservação das espécies fundamentada na seleção natural.

Darwin morreu em 1882, e após a celeuma de muitos anos, a seleção natural como mecanismo evolutivo foi aceita e tornou-se um fato, mesmo sem ele ter explicado como a variação surgia nos organismos e era passada de geração a geração. Só com o aparecimento da genética, fundada por Gregor Mendel (1822-1884), a herança entre as espécies foi plenamente explicada em 1865 e retomada no começo do século passado. Mesmo assim, durante o primeiro quarto do século XX, a teoria da evolução foi perdendo terreno, para só readquirir força com os trabalhos do geneticista russo Theodosius Dobzhansky (1900-1975), a partir de 1936, que propôs a unificação da genética com o darwinismo. Muitas outras questões que ficaram em aberto na teoria foram, mais tarde, esclarecidas pelos zoólogos Ernst Mayr e Julian Huxley (neto de Thomas Huxley), pelos geneticistas de populações R.A. Fisher e J.B.S. Haldane e o paleontólogo George Gaylord Simpson. A definição de espécie de Ernest Mayr (37) como conjunto de organismos que se cruzam entre si, mas que estão sexualmente isolados de grupos semelhantes, é adotada até hoje. Foi ainda Ernest Mayr que criou a moderna Síntese Evolucionista, também conhecida como Neodarwinismo, teoria que reúne a seleção natural de Charles Darwin com a genética e a ecologia. Vemos assim, que a obra de Darwin não foi destronada, antes vem sendo completada e acabada pouco a pouco, o que demonstra que a idéia da evolução é bem aceita pela ciência e pela humanidade em geral. Ernest Mayr (1904-2005), professor emérito da Universidade de Harvard, foi o autor da obra clássica Sistemática e a origem das espécies, publicada em 1942. Ao todo escreveu 25 livros, o último concluído pouco antes de sua morte, em 2005, versando sobre filosofia da biologia.

Além da celeuma evolucionismo versus criacionismo, que veremos mais abaixo, há também, na atualidade, críticas amargas dos físicos à Biologia como ciência. Mas, não há dúvida que a Biologia é realmente uma ciência independente, como observamos nas afirmações de Ernest Mayr (37):

"Eu mostro que a biologia é uma ciência séria, legítima e honesta, como as ciências físicas, e todas as idéias que costumavam ser misturadas com a filosofia da biologia, como o vitalismo e a teleologia, que vieram para tentar desacreditar a biologia, todas essas coisas esquisitas estão fora. A biologia tem exatamente as mesmas bases das ciências físicas, compostas de leis naturais. As leis naturais se aplicam à biologia da mesma forma que se aplicam às ciências físicas. Mas as pessoas que comparam ambas, e os filósofos que põem a biologia junto com as ciências físicas, deixam de fora um monte de coisas. Você pode ver claramente que a biologia não é a mesma coisa que as ciências físicas. Dou apenas dois exemplos - um são as biopopulações. Biopopulação é algo que simplesmente não existe nas ciências físicas, e no entanto é a base de quase todos os conceitos em biologia. E a segunda coisa na qual a biologia difere por princípio das ciências físicas é que, nas ciências físicas, todas as teorias, sem exceção, são baseadas em leis naturais. Em biologia não há leis naturais que correspondam às das ciências físicas. Você pode perguntar como você pode ter teorias sem leis. Bem, em biologia, as teorias não se baseiam em leis, mas em conceitos - como o de seleção natural, em biologia evolutiva, ou conceitos como os de recursos ou de competição, em ecologia. Claro, em última instância, as leis físicas são a base de tudo, mas não diretamente da ecologia. "

É interessante notar que a teoria darwinista e o neodarwinismo têm resistido, como teorias, aos maiores avanços da ciência na área de biologia molecular, embriologia e genômica, realizados a partir dos anos 1950 aos dias de hoje, como ainda nos relata Ernest Mayr na entrevista já citada (37):

"Quando a biologia se originou? Bem, até o século 18, você tinha vários campos de atividade biológica, como anatomia e taxonomia, mas não tinha o campo da biologia. A palavra "biologia", curiosamente, foi proposta três vezes, independentemente, por volta de 1800, por três autores - dois alemães e um francês. Minha proposição, que fiz em livros anteriores, foi que a biologia como um campo que você pode reconhecer, como algo diferente das ciências físicas, que você pode designar por uma única palavra, se desenvolveu e se tornou o que é hoje em um período relativamente curto. Foram cerca de 40 anos, [a partir] de 1828, quando Karl Ernst von Baer organizou a embriologia, e logo depois vieram os fundadores da citologia, [Theodor] Schwann e [Matthias Jakob] Schleiden, que causaram um grande furor quando publicaram seu trabalho na década de 1830, ao mostrar que animais e plantas são compostos dos mesmos elementos, as células. Então veio o grande período da fisiologia, com Claude Bernard, na França, e pessoas como Johannes [Peter] Müller e outros, na Alemanha. Esse foi um terceiro campo. Após algum tempo vieram [Charles] Darwin e [Alfred Russel] Wallace e a biologia evolutiva, e depois, em 1865-66, a genética. Então, essa série de ciências que começam com a embriologia e terminam com a genética são os alicerces da biologia. Você pergunta sobre a biologia molecular. Bem, deixe-me dar mais um passo ou dois atrás. Houve um período no começo do século passado durante o qual a síntese evolucionista teve lugar. Até aquela época, ou seja, o período entre 1859 e a síntese, nos anos 1940, houve uma grande reviravolta na biologia evolutiva, na qual foram propostas pelo menos quatro ou cinco grandes teorias básicas da evolução, como a das células germinativas. A síntese evolucionista, iniciada por [Theodosius] Dobzhansky e à qual se juntaram depois pessoas como eu, Julian Huxley e [George] Simpson, pôs um fim às elaborações teóricas no campo da evolução. Você tem [Oswald Theodore] Avery mostrando que os ácidos nucléicos, não as proteínas, são o material da evolução, e aí vieram James Watson e Francis Crick e todos os desenvolvimentos em biologia molecular, depois a genômica. Cada vez que uma dessas grandes revoluções acontecia, alguém esperava, por exemplo, que a síntese evolucionista fosse precisar ser reescrita. Mas o fato é que nenhuma dessas revoluções na estrutura da nova biologia, de Avery à genômica, nada disso realmente afetou o paradigma darwinista. Dito isso, desde Watson e Crick novos livros aparecem tentando provar que o darwinismo é inválido. Nenhum deles foi um sucesso. Agora, finalmente respondendo à sua pergunta, o gozado é que a biologia molecular tem um impacto notavelmente pequeno na teoria estrutural da biologia. Pelo menos é o que me parece hoje em dia. Claro, os biólogos moleculares podem apontar para o código genético e dizer que o código mostrou que a vida como a conhecemos só pode ter se originado uma vez, senão não teríamos o mesmo código para todos os organismos. E há outras contribuições da biologia molecular, mas nenhuma delas realmente tocou a teoria estrutural do paradigma darwinista, na minha opinião.

Mas, por outro lado, se você fosse um citologista, você poderia dizer que a demonstração de Schwann e Schleiden de que todos os organismos consistem em células é uma fundação tão importante da biologia como, digamos, a de que todos os ácidos nucléicos consistem em pares de bases. Eu diria que, do ponto de vista filosófico, os achados descritivos da biologia molecular não são mais importantes do que as conquistas na origem da biologia no período de 1828 a 1866. Essas descobertas são tão importantes quanto qualquer coisa em biologia molecular."

Com relação à determinação de espécies distintas com base no DNA, a diferença molecular tão somente pode não ser indicativa de que as espécies são diferentes, não havendo um conjunto de regras que determina isso. Ainda, segundo Ernest Mayr (2), na entrevista dada em 2004:

"Pode ser um único gene. Você tem duas escolas de evolucionistas, aqueles centrados nos genes e aqueles centrados nos organismos. Na década de 20 do século passado, quando J.B.S. Haldane e R.A. Fisher tiveram grande sucesso na genética molecular, havia uma grande crença em genes isolados, e você tinha a definição de evolução como a mudança nas freqüências de genes através das gerações, uma definição que nenhum geneticista que se preze daria hoje. Naquela época, havia uma polarização entre os chamados geneticistas de populações, que são centrados nos genes, e os naturalistas, que diziam que o indivíduo é que é selecionado e que o gene é apenas a forma por meio da qual o indivíduo é selecionado. Isso foi até os anos 1930. Então começou a se demonstrar, caso a caso, que tudo também dependia do contexto de outros genes. Portanto, um gene único não podia ser imediatamente selecionado. Um gene sempre ocorre no contexto de um genótipo, e no do fenótipo produzido por esse genótipo. Isso foi indicado por Dobzhansky em 1937, mas não realmente enfatizado. Aí vieram vários autores, alguns amigos de Dobzhansky, ressaltando que era a combinação de genes, portanto o indivíduo, o alvo da seleção natural. Depois, em 1970, saiu um artigo de Dick [Richard] Lewontin mostrando como não podia ser um só gene, e, em 1984, outro artigo de Lewontin com o filósofo Eliott Sober. Levou 60 anos, de 1924 a 1984, para essa visão centrada no gene ir embora. Mas ainda hoje autores como [Richard] Dawkins insistem nela. Eu tenho uma citação maravilhosa do Dawkins, na qual em uma única frase ele admite que o gene não é o alvo de seleção e depois ignora isso, dali em diante. Mas ela estará no meu novo livro [risos]."

Parece, assim, fora de dúvida que nada acontece na evolução sem ter passado pelos caminhos da seleção natural. Mayr interpreta que o que muitas vezes pode acontecer na seleção natural é a eliminação dos genes inferiores e nem sempre a seleção dos melhores, e disso as pessoas não se dão conta, afirmando que "essa seleção é bem menos egoísta que a seleção dos melhores". Enfim, na evolução, podem acontecer as duas coisas: seleção dos melhores genes e, também, eliminação dos genes inferiores, entendendo-se que muitos genes não são suficientemente bons para serem selecionados, mas também, não são suficientemente ruins para serem eliminados.

Um outro geneticista de renome internacional, Theodosius Dobzhansky (1900-1975), refletindo sobre o mundo biológico, que contem entre 1,5 - 2 milhões de espécies estudadas e talvez outro tanto ainda desconhecidas, variando em tamanho da ordem de 10 micra (dez milionésimos do metro) nos vírus até 30 metros de comprimento e 135 toneladas na baleia azul, nos chama atenção para esta prodigiosa diversidade e conclui: "tudo isso é compreensível à luz da teoria da evolução, mas o que nos parece uma operação sem sentido é ter Deus criado uma multidão de espécies para nada". E, ainda em favor da seleção das espécies, afirma "o ambiente apresenta desafios às espécies, as quais podem responder mediante variações genéticas adaptativas" (13).

Recentemente foi publicado um livro com o título O gene egoísta (14), de autoria de Richard Dawkins, zoólogo com amplos conhecimentos de biologia e genética, respeitado nos meios científicos dos Estados Unidos, mas também muito combatido por suas idéias diferenciadas sobre a seleção natural de Darwin, de que é ardoroso adepto. O principal aspecto de diferenciação é que, ao contrário de Darwin que considerou em sua teoria a sobrevivência do mais apto, ele prefere adotar como regulador da evolução, a sobrevivência do estável. Insatisfeito por muitas explicações oferecidas por outros respeitáveis estudiosos, como Sir Karl Popper, pelo geneticista L. L. Cavalli-Sforza, pelo abtropólogo F. T.Cloak e o etólogo J. M. Cullen, pergunta: "O que, afinal de contas, é tão especial a respeito dos genes (14)?" E ele mesmo responde: "A resposta é que eles são replicadores." Seu principal argumento é que os genes adquirem certas e especiais qualidades, porém limitadas, em função do meio ambiente em que se desenvolvem e replicam essas qualidades aos seus genes descendentes. Mas, ao contrário do que muitos são levados a pensar, não se deve supor que as características herdadas sejam fixas e inalteráveis. Outro aspecto interessante de seu livro é a utilização do termo "máquina de sobrevivência" para qualificar não somente os humanos, mas todos os seres vivos.

3. Criacionismo versus Evolucionismo

Parece incrível que, com todo o progresso tecnológico de nosso tempo, ainda existe uma grande corrente contra o evolucionismo criada pelos religiosos que se fundamentam no Velho e no Novo Testamento (Bíblia). Pior ainda, a esses religiosos fundamentalistas aliaram-se cientistas que ainda não se desvencilharam das crenças religiosas, dando-lhes suporte que não resistem aos argumentos bem fundados do evolucionismo.

O Criacionismo

Muitas são as correntes dos criacionistas, que estão fazendo pressão, inclusive junto aos legisladores, nos Estados Unidos (Arkansas e outros estados do sul), Inglaterra e Brasil, no sentido de obrigarem as escolas a ensinarem o criacionismo bíblico. Mas, para efeito desse nosso trabalho vamos apenas mencionar as três principais correntes.

Em primeiro lugar destacamos o Criacionismo Religioso Puro, fundamentalista, sem pretensão científica, baseada estritamente nos textos bíblicos. É uma visão mística, distorcida do mundo em que vivemos e do Universo maravilhoso que a ciência vem descortinando e para os quais os seus seguidores insistem em manter os olhos fechados, a despeito da realidade tecnológica de nossos tempos. Nem mesmo aceitam os argumentos da razão e da lógica filosófica, preferindo manter suas posições fundamentadas no entendimento arcaico de um passado remoto. Trata-se de uma fé religiosa, arraigada a nível individual e coletivo no seio das religiões bíblicas, que só a educação escolar e a elevação do nível cultural, a longo prazo, poderão alterar.

Há uma posição intermediária, que poderemos chamar de Criacionismo Intermediário, também conhecido como Criacionismo da Terra Antiga (15), um pouco mais escolarizado, composto por legiões de pessoas que se dizem adeptos de uma ou outra religião, mas não são fundamentalistas. São pessoas que mantêm as suas religiões, em geral de origem bíblica, mas sem a ela se dedicarem, delas conservando apenas os ensinamentos éticos e morais, sem se importarem com a parte divina que nelas se acha impregnada. Para essas pessoas, não há conflito entre suas religiões e a ciência, sendo mais flexíveis, não se apegando a certos dogmas religiosos. Interpretam o dilúvio como episódio local e não universal e aceitam a história da terra segundo as eras geológicas e períodos geológicos. Há até mesmo, dentre eles, aqueles que aceitam a teoria do big bang para a criação do universo. Apesar desses posicionamentos, não aceitam a teoria da evolução.

A terceira corrente se compõe dos que defendem o Criacionismo "Científico" Fundamentalista (15). São pessoas com convicções religiosas muito fortes, que desejam resgatar a ortodoxia religiosa, porem "vestida" de ciência. Por isso mesmo, seria melhor que fosse denominada de "corrente cientifista", a qual vem se difundindo e ganhando terreno a partir dos anos 50 do século passado. Seus seguidores pretendem dar validade científica a tudo que está na Bíblia, por conter esta a palavra de Deus, tentando, entre outras coisas, provar: (a) situar-se a idade da Terra entre 6000 - 12000 anos, (b) a existência da arca de Noé, (c) a existência da Torre de Babel, (d) o episódio de Josué, quando Deus parou o Sol sobre Jericó, etc. Por tudo isso, este grupo é também conhecido como Criacionismo da Terra Jovem. Ele está ganhando terreno nos Estados Unidos, tendo conseguido inclusive a intervenção federal em alguns estados do sul para o ensino do criacionismo nas escolas. Embora os defensores desse grupo apresentem alguns conceitos que poderiam até ser considerados razoáveis, corre-se o risco da ocorrência de certas deturpações sob o manto da ciência, para defender uma causa que seus seguidores julgam justa.

4. O "Projeto Inteligente"

Mais recentemente surgiu um grupo novo sob o título de "Projeto Inteligente" ("Intelligent Design") proposto pelo bioquímico Michael Behe (16) em seu livro A caixa preta de Darwin, que também trata do assunto na entrevista sob o título A verdadeira questão. Suas idéias foram lançadas na Conferência da Simples Criação (Mere Creation Conference), em 1996 e, desde então vem angariando adeptos. Mike Behe é católico e esteve sempre exposto ao darwinismo. Mas, em 1997, ao ler o livro Evolution: a theory in crisis (Evolução: uma teoria em crise) de Michael Denton se deu conta de que havia muitas questões na teoria evolutiva, ainda não discutidas e explicadas, pois ela não discorria sobre como a vida teria surgido. Intrigado e depois de muito pesquisar na literatura, Behe descobriu que não existiam documentos que realmente tratassem da questão de como surgira a vida e desenvolveu a idéia de que, de fato, estes sistemas eram o resultado de um "Projeto Inteligente". Pouco depois, juntando-se a Phil Johnson, pesquisador que também, apresentou idéias nesta mesma direção, não de refutar, mas de advertir que a teoria da evolução deixava questões a resolver, criou o "Grupo do Projeto Inteligente", destinado a criticar a evolução sob o ponto de vista científico. Um outro livro que chamou a atenção de Behe foi O Relojoeiro Cego [Edições, 1970] de Richard Dawkins. Este livro e o de Denton usavam exemplos semelhantes, mas chegaram a conclusões completamente diferentes, para explicar como se pode apoiar uma teoria com evidências e que extrapolações legítimas dela podemos tirar.

Segundo Behe, o tema básico do seu livro A caixa preta de Darwin nos mostra que "em ciência, uma caixa preta é uma máquina, dispositivo, ou sistema que faz algo, mas você não sabe como funciona; é completamente misterioso. Pode ser misterioso porque você não pode ver dentro ou porque você simplesmente não pode compreendê-lo. Para Darwin e para seus contemporâneos do século XIX, a célula era uma caixa preta" (16). Hoje, sabemos que a célula é a base da vida e os biologistas desvendaram os seus segredos, mas o que a ciência daquela época podia ver com seus grosseiros microscópios era apenas o contorno de uma célula. Daí, segundo ele, a visão simplista dos cientistas contemporâneos de Darwin. Por isso mesmo, dizemos nós, Darwin foi um gênio notável e, até hoje, não destronado.

Tomando-se a complexidade existente no interior da célula como base, Behe examina o que ele chama de "máquinas miniaturizadas" (as proteínas e ácidos nucléicos) e argumenta que a seleção natural darwiniana não "poderia tê-las produzido porque elas têm uma propriedade chamada de complexidade irredutível", comparando complexidade irredutível com uma ratoeira que tem várias partes, e todas as partes devem estar presentes antes que ela possa funcionar. E argumenta que tais sistemas são melhor explicados como o resultado de um deliberado projeto inteligente, já que é assim que nos comportamos quando vemos algo bem real no nosso mundo macroscópico. Daí, a razão e o nome "Projeto Inteligente" com que Behe batizou sua idéia, propondo trabalhar nela para ver aonde ela conduzirá a ciência.

Convém salientar que há muitas reações e críticas à idéia do projeto inteligente afirmando que o projeto inteligente é um criacionismo disfarçado, mas Behe rebate que há uma boa diferença entre chegar a conclusões baseadas na observação do mundo físico, como é esperado de um cientista, e chegar a uma conclusão baseado nas escrituras ou em convicções religiosas. É inegável que alguns sistemas bioquímicos são demasiadamente complexos para serem considerados obra do simples acaso ou da geração espontânea da vida, idéia ultrapassada desde Pasteur.

Qualquer que venha ser o direcionamento que a idéia do projeto inteligente venha ter, é inegável que ele tem implicações de natureza religiosa ou teológica óbvias e o seu eventual desdobramento ainda vai levantar muita poeira. Há, presentemente, um grande avanço na biologia molecular, técnicas de seqüenciamento do DNA, embriologia, genômica, clonagem de células, etc., mas estamos longe de explicar a questão essencial de como surgiu a vida na Terra e, muito mais distante ainda, de poder explicar a natureza do homem e porque ele está aqui neste insignificante planeta em evolução. Assim, pensamos que não pode haver nenhum tipo de obstrução, seja da ciência, seja da filosofia, com relação ao verdadeiro conhecimento da vida.

É inegável que o evolucionismo e, modernamente, o neoevolucionismo vieram para ficar. Embora ele não tenha resposta, ainda, para todas as questões, os cientistas continuam nos oferecendo estudos e conclusões sobre muitas delas, à medida que a ciência avança. Vale salientar que, mesmo por estímulo dos debates que estão ocorrendo pela Internet, através de livros e em seminários científicos ou religiosos, haverá sempre brechas a serem exploradas e lacunas a serem preenchidas, de que muito se aproveitarão os cientistas e até mesmo os religiosos para combatê-los.

5. Evolução da Força no Homem

O criacionismo divino imediato, definitivo, cristalizado, como consta na letra do Gênesis, pelo qual Deus teria criado todas as espécies de seres vivos, tais como se encontram presentemente, não se coaduna com as descobertas arqueológicas e paleontológicas de nossos tempos, nem com os avanços havidos em outros ramos da ciência. Nos dias de hoje o criacionismo não passa de uma bela alegoria e como tal deve ser entendido. É fácil compreender que, na época em que o Gênesis foi escrito, a humanidade não estava preparada nem tinha os conhecimentos que tem hoje para compreender e entender outra cosmogenia que não fosse similar àquela.

Sendo a ciência a busca da verdade, ela não deve se isolar de outros ramos do conhecimento como o tem feito nos últimos dois séculos, afastando-se da filosofia, ainda que seus métodos de investigação utilizem diferentes metodologias. Por último, mas não sem menos força, há a considerar os progressos havidos na psicologia e por que não dizer, também, na parapsicologia, no espiritismo e no espiritualismo.

A grande polêmica que hoje vemos ser travada entre os criacionistas e os evolucionistas se localiza num único nó de discórdia: o entendimento que uns e outros fazem da natureza da Força Criadora ou Inteligência Universal, que os mulçumanos denominam de Alá e os religiosos cristãos denominam de Deus e outros povos têm as suas denominações. Nenhum conhecimento verdadeiro pode haver dessa verdadeira grandeza se o homem não colocar uma pá de cal no misticismo e se despir de suas mazelas, de seu egoísmo e de sua vaidade e de tudo o mais que o avilta como ser superior. Enquanto isso acontecer, estaremos expondo nossos instintos inferiores, não estaremos sendo racionais nem estaremos utilizando a lógica que o bom senso nos aconselha. Nós vamos tratar desses problemas em outro trabalho.

Em primeiro lugar, precisamos deixar de lado os dogmas religiosos, que vão continuar servindo a maior parte da humanidade, pois o seu grau de evolução espiritual não alcança mais do que isso: exprimir a sua fé naquilo que lhe é revelado pelas religiões como provindo de Deus. Mas também, a ciência precisa livrar-se de seu hermetismo e os cientistas precisam abrir o leque de suas descobertas para o homem de conhecimento médio, pois a ciência e as verdades dela decorrentes devem estar para todos e não apenas para uns poucos privilegiados. Há necessidade, também, de simplificar as coisas para o uso comum e para o entendimento mais geral possível.

É interessante também assinalar-se que a grande polêmica tem o seu fulcro principal, além dos interesses puramente religiosos, nas aparências ensejadas pelo que a Matéria representa, pois nela residem quase que exclusivamente os efeitos e não as causas de tudo o que acontece, que reside na Força. Infelizmente, com raras exceções, a ciência vem dedicando seus esforços só ao estudo da Matéria e, para isso, conta com grandes verbas. Podemos até compreender que assim seja durante muito tempo, mas não o será por todo o tempo, porque os estudos sobre a Matéria esgotam-se em si mesma, chegando a um beco sem saída. Se quisermos realmente merecer o título de homo sapiens, precisamos considerar, com profundidade e propriedade, o estudo da Força em si e sua atuação sobre a Matéria, num processo evolutivo da Força, que no homem encontrou o seu meio adequado no planeta Terra. Tudo o que foi feito até aqui em matéria de evolução, tratou apenas da evolução somática, da Matéria como tal, negligenciando a evolução mais importante que é a evolução da Força. A isso consagraremos o nosso livro, no sentido de apontar o que já se conhecem e estimulam a pesquisa no que ainda nos falta conhecer. Muitos cientistas já chegaram perto, bem perto mesmo, de uma mudança de paradigma, mas por uma razão ou outra, desistiram de levar adiante pesquisas nesse sentido. Muitos poucos o fizeram, mas foram casos isolados e seus trabalhos ou não tiveram a divulgação necessária ou seus autores foram colocados no ostracismo. Por isso, ressente-se de seu prosseguimento.

Existe um ditado e a evolução é uma prova disso que diz: "a natureza não dá saltos", que pode ser usado para significar que tudo tem o seu tempo certo. Assim, vale esse ditado para nos situarmos na evolução hominal. É fácil de entender que há cerca de dois milhões de anos, e isso é quase nada em termos de evolução somática das espécies, tínhamos o primitivismo de nossos ancestrais, que vieram constituir os primeiros corpos adequados para a evolução do Espírito, ainda que se tratassem de corpos em transição para o nosso atual estágio de evolução humana. Mas foram necessários e suficientes, à época, para darem início ao que chamaremos de a evolução hominal.

Chegou o momento de afirmarmos que o início da evolução hominal, isto é, da Força no corpo humano como Espírito encarnado, coincide também com o início da evolução espiritual no planeta Terra, a partir da qual começaram a surgir, gradativamente, as diferentes raças com suas culturas diferenciadas, como ainda acontece na atualidade. À medida que a evolução somática progredia juntamente com as respectivas culturas, realizava-se, como continua realizando-se, silenciosamente a evolução espiritual que cada vez mais encontrava condições propícias para a sua realização. Também, a "evolução espiritual não dá saltos" e ela objetiva, principalmente, a evolução da inteligência, da moral e da ética, vale dizer do caráter, pela apuração contínua dos sentimentos mais nobres do homem até a eliminação completa dos seus instintos animalescos. Esta evolução é individualizada, isto é, ela é feita de "per si", mas ela se realiza, também, em grupos.

Referências:

1) SAKALL, Sergio. Darwin. Disp. em www.sergiosakall.com.br/montagem/5darwin.html . Acesso em 08/08/05.

2) LEITE, Marcelo e Mirsky, Steve. Para Ernest Mayr, biologia não se reduz às ciências físicas. (entrevista aos 100 anos). Disponível em http://zoo.bio.ufpr.br/diptera/bz023/ernst_mayr.htm Acesso em 28/08/05.

3) ALVES, Cláudia Aparecida. Criação e evolução. Disponível em: www.cacp.org.br/Evolucao-2.htm Acesso em 08/08/05.

4) TIAGHO, Paulo de Tarso São. Evolucionismo e criacionismo à luz do espiritismo. Disponível em: www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1614.html Acesso 08/08/05.

5) ANÔNIMO. Eras, Períodos e Épocas Geológicas. www.avph.hpg.ig.com.br/eras.htm Acesso em 15/08/05.

6) ALTABA, M. Font. Atlas de Mineralogia. Edição especial (1963) da Editora Livro Ibero-Americano, Ltda. - Rio de Janeiro - 1963.

7) MATTOS, Luiz de. Racionalismo Cristão. Gráfica Lidador Ltda, 43ª edição. Pág. 49. Ver, também: www.racionalismo-cristao.org.br de onde o referido livro, em sua edição mais atualizada pode ser baixado (versões em português, inglês, francês e espanhol).

8) GUITTON, Jean. Deus e a ciência. Acesso em 10/08/05. Disponível em: www.plenitudeonline.com.br/noticias/news/index_noticias.php?id=16

9) KESSLER, Cynara Chemale. Origem da Vida. Acesso em 16/08/05. Disponível em: http://www.logic.com.br/prof.cynara/origemvida.htm

10) WILKIPEDIA. Teoria de Oparin. Acesso em 29/08/05. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_de_Oparin

11) ARAUJO, Jorge. Gênese da Vida. Acesso em 28/08/05. Disponível em: www.ateus.net/artigos/ciencias/genese_da_vida.html

12) ANÔNIMO. Meio Ambiente – os grandes reinos. Acesso em 18/08/05. Disponível em: www.geocities.com/kinren12000/reinos.htm

13) DOBZHANSKY, Theodosius. Nothing in biology makes sense except in the light of evolution, Disponível em http://people.delphiforums.com/lordorman/light.htm Acesso em 26/08/05.

14) DAWKINS, Richard. O gene egoísta. Editora Itatiaia - Belo Horizonte - 2001 - p 22

15) VALÉRIO JR., Marcos. Criação versus evolução. Disponível em www.evo.bio.br/EVOXCRIA.HTML Acesso em 28/08/05.

16) FLÁVIO, João e Cristiano, Paulo. A verdadeira questão – uma entrevista com Michael Behe. Disponível em www.cacp.org.br/critica%20a%20darwin.htm Acesso em 27/08/05.

Maio de 2006

 

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