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Visita a Cabo Verde do sr. Gilberto Silva, Vice-Presidente do Racionalismo Cristão

Luiz Silva

Não é de agora que o Racionalismo Cristão, nascido no Brasil em 1910, exerce a sua influência na sociedade cabo-verdiana. Como também ninguém ignora a influência do Brasil na nossa musica onde puderam emergir um Eugenio Tavares (conhecido como o Catulo Cearense cabo-verdiano), o Luiz Rendall, um dos maiores intérpretes do violão e clarineta, B. Leza, o mais consagrado dos compositores cabo-verdianos, autor da morna dedicada ao Brasil, sem esquecer um Jotamonte, Luis Morais, aluno extremoso do Pixinguinha, um Manuel de Novas, que já se define como racionalista cristão, ou mesmo o Morgadinho e Paulino Vieira, que já nas suas composições se referem ao Racionalismo Cristão. A influência do Brasil, em especial do nordeste, está gostosamente na revista Claridade (1936), e ainda no romance Chiquinho, de Baltasar Lopes, nos romances de Manuel Lopes ou na poesia de Jorge Barbosa. Ao nível do ensaio literário, Antonio Aurélio Gonçalves despejou toda a sua erudição sobre a Clarissa de Érico Veríssimo. Mas Osvaldo Alcântara, poeta maior das nossas letras num dos heterônimos de Baltasar Lopes, não esqueceu o poeta Manuel Bandeira e o seu itinerário para a Pasárgada, amargamente mal compreendido. Nenhum claridoso deixou de se referir à importância deste irmão maior mas irmão, parafraseando o Manuel Lopes. Com o golpe de Estado de 1926, o direito ao associativismo é vetado em Portugal e nas colônias e o Racionalismo Cristão em Cabo Verde é obrigado a refugiar-se nas catacumbas. Henrique Baptista e João Miranda, os seus principais mentores em Cabo Verde, serão obrigados a fechar as suas Casas racionalistas cristãs. Foi em casa do professor João Miranda, na Rua de Coco, em São Vicente, onde o jovem da época Amilcar Cabral chegou a residir, que este se iniciou na leitura do Racionalismo Cristão e que veio a marcar a sua obra política.

No dia 26 de fevereiro passado, a convite duma associação de racionalistas cristãos cabo-verdianos, desloquei-me a Roterdã, Holanda a fim de fazer uma conferência sobre o Padre Antonio Vieira (Lisboa 1608-Bahia 1697). Se o nome de Antonio Vieira ficou ligado à luta contra a escravatura dos índios e dos africanos e pela sua passagem por Cabo Verde onde encontrou em 1652 "clérigos e cônegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais", não se deve ignorar que a sua história política está ligada às cidades holandesas de Roterdã e Amsterdã, a nova Jerusalém do Norte como foi chamada, onde vivia uma grande colônia de emigrantes judeus português, expulsos pela Inquisição, que dominavam não só a economia mas também a cultura. Assim como os judeus "cristãos novos" foram para a Holanda em procura de pão, dignidade e liberdade aconteceu o mesmo com os cabo-verdianos, vítimas das conseqüências da escravatura e também da colonização, em procura não só do pão de cada dia, mas também de dignidade e liberdade. O padre Antonio Vieira visitou várias vezes Roterdã e Amsterdã em procura de meios materiais e culturais para realizar o seu projeto do V Império. Os cristãos novos da Holanda investiram nos Bancos, no comércio e em especial na educação a ponto de possuírem no seu seio os maiores intelectuais da Europa e, acima de todos, o famoso filósofo Spinoza (Espinhosa em português). Vieira chegou a dizer que se os cristãos novos regressassem a Portugal com os meios econômicos e culturais que possuíam, então Portugal poderia transformar-se num dos países mais ricos do Mundo. Incompreendido, preso pela Inquisição, Portugal perdeu a histórica oportunidade de ser o país que sonhara o Padre Antonio Vieira. E eu direi que se os emigrantes cabo-verdianos se dispuserem de todas as suas potencialidades, poderemos ajudar a fazer de Cabo Verde uma grande Nação. Falta-nos simplesmente um projeto para fazer a grande Nação que o povo espera.

Em todas as casas dos racionalistas cristãos cabo-verdianos temos uma fotografia com três figuras: Luiz de Matos, Luiz Alves Thomas e o Padre Antonio Vieira. Se os dois primeiros emigrantes portugueses de Trás-os-Montes não somente deram a vida para o bem estar das suas famílias, mas também para o triunfo do Racionalismo Cristão, a figura do padre Antonio Vieira parece mais complexa pela dimensão política e humana da sua obra. Não é somente a condição emigrante dos seus fundadores o mais importante para encontrar alguma semelhança com os cabo-verdianos: a nossa emigração, com problemas vários que não se limitam ao emprego, procura também desenvolver a sua espiritualidade e eis o interesse pelo Racionalismo Cristão. Mas se formos ao fundo desta emigração na Holanda, da criação dessa comunidade, encontraremos valores expendidos pelo Racionalismo Cristão como a solidariedade, a fraternidade, a amizade fidelíssima ao próximo e acima de tudo a verdade como arma do sucesso na vida espiritual e material. Em poucas palavras, é uma comunidade que emerge do Racionalismo Cristão.

A nossa emigração navega com muitos problemas que não serão resolvidos com soluções sociais, mas, sim, com a reconquista dos valores que condicionaram os seus objetivos de emigrar. O que precisamos acima de tudo é de valores morais para oferecer de coração aberto aos nossos filhos e à nossa comunidade. O diagnóstico já está feito em quase todas as nossas comunidades onde, cada dia, a nossa juventude se afasta dos padrões da cabo-verdianidade: precisamos de ação, ou melhor, dum projeto cultural que nos identifique dentro e fora da nossa comunidade nos países da emigração. Por isso, pensar Vieira, conhecer a sua obra nos interessa, porque o exemplo de Vieira, que emigrou criança para o Brasil e regressou adulto a Portugal, com um sentido da Nação a que pertence, com um patriotismo invulgar, gostaríamos de vê-lo aplicado nas nossas comunidades. Como pode o Brasil colonial produzir um homem desta grande dimensão sem uma leitura das obras do Racionalismo Cristão?

O interesse de Vieira para os cristãos-novos, como solução para a reconquista moral e material de Portugal, traz cada dia mais interesse à comunidade em conhecer a sua vida e a sua obra porque Cabo Verde precisa não só dos meios materiais dos emigrantes mas também dos seus valores espirituais. Em verdade, a emigração cabo-verdiana precisa movimentar-se através dum projeto cultural para a emigração, de escolas e liceus, de centros de formação, duma rede associativa com objetivos concretos, de centros culturais e dum consulado ou embaixada com poder de intervenção a todos os níveis na vida da comunidade. Não podemos continuar a laisser faire ou laisser passer e esperar que as soluções venham de Cabo Verde. Temos de enfrentar dignamente a nossa realidade e encontrar dentro das comunidades a solução para os problemas mais gritantes da nossa nação, dentro e fora do Arquipélago.

O Racionalismo Cristão surge como uma filosofia de libertação em Cabo Verde. É nas colônias de emigração, a começar pelo Senegal ou nos Estados Unidos, que renascem as primeiras Casas racionalistas cristãs fora de Cabo Verde. Mas com a emigração para a Holanda e a possibilidade de visitar constantemente o Brasil, onde os emigrantes podem visitar o Centro Redentor e obter livros para a sua formação e que também enviam para Cabo Verde ou para as comunidades emigradas, que o Racionalismo Cristão vai-se impor dentro e fora de Cabo Verde em quase todas as famílias. Com a Independência, surgiram mais de seis casas racionalistas em São Vicente e em quase todas as ilhas aparecem cada dia novas Casas racionalistas cristãs. Explicando sempre que não é uma religião, mas, sim, uma doutrina filosófica, que foi coordenada por Luiz de Matos e Luiz Alves Thomaz sob a influência astral do padre Antonio Vieira, defendendo a reencarnação como etapa necessária da evolução do homem, deseja abrir-se à sociedade, aos leigos e não leigos, propondo mesmo que a Doutrina seja ensinada e debatida nos liceus e outros fóruns culturais. A internet e a rádio vieram contribuir de maior forma a este debate tão necessário e que se impõe em todas as comunidades cabo-verdianas.

Roterdã, na Holanda, não somente resolveu os problemas econômicos de Cabo Verde nos anos sessenta. Roterdã tem sido também o centro de todas as experiências culturais e políticas da emigração. Ao nível da música, ao nível do associativismo ou ao nível do Racionalismo Cristão, tudo tem partido da Holanda desde os anos sessenta. Falar da Holanda não somente nos lembra a construção de novas casas, da transformação da sociedade, mas também da Voz de Cabo Verde, do jornal Nós Vida e outras edições, da resistência ao partido único, mas especialmente da implantação do Racionalismo Cristão na Europa, tanto em várias cidades da Holanda, França, Suíça, Luxemburgo, Suécia, etc. Esta visita do vice-presidente do Centro Redentor, constitui, nas palavras do sr. Gilberto Silva, uma homenagem aos cabo-verdianos na divulgação do Racionalismo Cristão no Mundo.

O sr. Gilberto Silva esteve também em Paris nas Casas racionalistas cristãs onde destilou lições sobre a amizade, a fraternidade e a modéstia que exigem o racionalista cristão, que não serão facilmente esquecidas. Aqui, em Paris, embora num curto espaço de tempo, pôde visitar a cidade, conceder uma grande entrevista à Radio France Internacional, que será transmitida na quarta feira, 15 de março, e almoçar com o nosso Embaixador de Cabo Verde, Dr. José Armando Duarte.

Na Holanda, o Vice-Presidente, no dia 11 de março, na festa de comemoração do 15° aniversario da Casa racionalista cristã, dirigida pelo Sr. Vitorino Chantre, que tem sido um verdadeiro apóstolo da divulgação do Racionalismo Cristão na Europa, abrindo várias Casas racionalistas cristãs em todos os lugares e formando a maioria dos seus dirigentes. Viajou no dia 12 de março para Portugal e segue para Cabo Verde no dia 17 março, onde vai visitar as Casas racionalistas cristãs de São Vicente, Santiago, Boa Vista e Sal. Lamentamos que não faça uma visita ao Paul, na Ilha de Santo Antão, que possui uma das mais antigas Casas racionalistas cristãs em Cabo Verde.

A presença do sr. Gilberto Silva nas comunidades racionalistas cristãs em Cabo Verde e na sua emigração foi duma grande contribuição e esperemos que d'agora para o futuro essas visitas possam ser mais constantes para dar indicações, afastar divergências e traçar novas metas para o Racionalismo Cristão. Veio, nas suas próprias palavras, homenagear os cabo-verdianos emigrantes pelo seu papel importante na divulgação do Racionalismo Cristão pelo Mundo. E vai a Cabo Verde também homenagear o povo cabo-verdiano pela sua adesão a esta filosofia que não pede nada a ninguém e que se predispõe, pela lei do pensamento positivo, a responder a todas as preocupações do homem. O seu jornal A Razão, ou o "site" internet www.racionalismo-cristao.org.br permitem aos cabo-verdianos refazer a sua educação e dialogar sobre vários problemas de ordem material e espiritual.

Os cabo-verdianos emigrantes, mesmo durante este inverno, não poupam esforços para estarem presentes nas sessões organizadas às segundas, quartas e sextas-feiras. E por isso merecem a nossa mais elevada consideração e respeito. E desejamos que esta visita do Vice-Presidente do Racionalismo Cristão encontre o melhor acolhimento e que se retirem as lições necessárias para continuar a lutar e a viver na emigração para enriquecer a nação cabo-verdiana.

Os nossos políticos deviam se inspirar nesta filosofia que se preocupa simplesmente em servir a Nação. Onde há ódio, encontrarão a amizade e a fraternidade, onde há diversidade encontrarão uma grande riqueza, porque na honestidade todos os caminhos vão a Roma.

Esperemos que no Cabo Verde real, os Municípios, o Governo, as forças vivas da Nação, se dignem receber condignamente o irmão maior Gilberto Silva, que em nome do Presidente Perpétuo Humberto Machado, vai homenagear o povo cabo-verdiano.

Março de 2006

 

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