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Amor materno: mito ou uma conquista espiritual?

Glaci Ribeiro da Silva

[...] O desenvolvimento intelectual da mulher não diminui nem atenua a sua superioridade moral. Pelo contrário, deve e pode aperfeiçoá-la muito mais. Se até hoje nem sempre assim tem sido, quem tem culpa não é o talento feminino, e sim o meio adverso que o homem prepara para não deixar desenvolver nem medrar. A mulher intelectual será esposa experiente e mãe inteligente. A mulher ignorante será, apenas, uma máquina. [...] (Maria Cottas, no livro Folhas esparsas).

Atualmente muitas mulheres se recusam a ter filhos por verem na maternidade um empecilho às realizações profissionais e, à gravidez, como um modo fácil de perder a forma tão duramente mantida com regimes e exercícios na academia.

Vários estudos, porém, têm mostrado que essa fase da vida feminina é muito importante de ser vivenciada, pois ela influencia de um modo positivo a saúde da mulher, aumentando até mesmo sua longevidade. Esse retardo do envelhecimento ocorre principalmente nas mulheres que engravidam depois dos quarenta anos, época em que a concentração de hormônios sexuais já se encontra em declínio. Tal achado vem sendo correlacionado à verdadeira inundação hormonal que acontece no organismo feminino durante a gestação, o parto e a amamentação; segundo os autores do estudo, seriam esses hormônios que iriam contrabalançar as deficiências hormonais que a mulher nessa idade começa a apresentar protegendo assim melhor seu cérebro e retardando o envelhecimento.

Embora os cientistas de a muito soubessem da existência dessa inundação hormonal que marca gestação, parto e lactação, só recentemente eles têm estudado o efeito desse fenômeno sobre o cérebro das fêmeas. Resultados preliminares têm mostrado que em algumas regiões novos neurônios são criados e, em outras, surgem modificações morfológicas. As regiões que sofrem essas alterações são aquelas que controlam memória, aprendizado, medo e estresse. Esse mesmo fenômeno é capaz, também, de induzir as fêmeas a construir ninhos, cuidar das crias e protegê-las dos predadores. Esses comportamentos maternais são similares na maioria dos mamíferos e, provavelmente, controlados, tanto em humanos como em ratos, pelas mesmas regiões do cérebro.

Do ponto de vista evolutivo, o comportamento maternal humano surgiu a partir dos répteis, animais que botam ovos em esconderijos aquecidos e vão embora cuidar da sua vida pessoal; o futuro de sua prole não lhes diz respeito. Quando houve a transição dos répteis para os mamíferos a cerca de 90 milhões de anos, nossos antepassados adotaram estratégias diferentes e mais responsáveis: manter sua cria no útero, amamentá-la e defendê-la dos perigos até que ela fosse capaz de fazer isso sozinha.

Parece não existir ainda um consenso de que o chamado "amor materno" seja na espécie humana uma tendência inata; ou, pelo menos, ele não existe nos humanos de um modo pleno como aquele observado nos mamíferos inferiores onde ele é denominado "instinto materno"; nestes, as mães geralmente se dedicam inteiramente à sua prole enquanto que na espécie humana isso nem sempre acontece.

A filósofa e escritora francesa Elizabeth Badinter analisa com muita propriedade esse controvertido assunto em seu livro Um amor conquistado: o mito do amor materno. Segundo ela o amor materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito. Pode existir ou não, pode aparecer e desaparecer, mostrar-se forte ou frágil, preferir um filho ou ser de todos. Contrariando a crença generalizada, ou seja o mito, esse sentimento não está profundamente inscrito na natureza feminina; ele não é tão pouco inerente à condição de mãe pois uma ama ou, até mesmo um homem, são capazes de maternar uma criança; enfim, não se trata de um determinismo mas sim algo que se adquire.

Ao estudar a evolução das atitudes maternas, ela verificou que o interesse e a dedicação à criança não existiram em todas as épocas e em todos os meios sociais. As diferentes maneiras de expressar esse amor vão do mais ou menos, passando pelo nada, ou quase nada. Analisando dados históricos no decorrer dos séculos, ela chegou a conclusão que o conceito de amor materno, tal como o vemos hoje, é produto da evolução social observada no início do século XIX, pois nos séculos XVII e XVIII as crianças desde tenra idade eram normalmente entregues às amas para que as criassem, e só voltavam ao lar depois dos cinco anos. Foi usando essa metodologia analítica que a autora chegou a conclusão que o amor materno, como todos os sentimentos humanos, varia de acordo com as flutuações sócio-econômicas da história.

Afirma a ciência espiritualista divulgada pelo Racionalismo Cristão que o espírito não tem sexo. Para processar sua evolução na Terra, é necessário que ele encarne obrigatoriamente tanto num corpo masculino como num feminino; essas duas possibilidades são suplementares, pois fornecem ao espírito a oportunidade de desenvolver qualidades inerentes a cada um desses sexos. E, para que isso ocorra, é o próprio espírito que, ao elaborar seu roteiro evolutivo em seu mundo de estágio, decide qual o sexo que terá ao reencarnar. Julgamos assim ser bastante provável que seja o próprio espírito quem seleciona o espermatozóide que irá penetrar no óvulo, determinando assim o sexo de que ele necessita para cumprir seu roteiro (ver em Bibliografia: "O cérebro, dimorfismo sexual e inteligência").

Quando um espírito decide encarnar num corpo feminino ele está bem ciente das lutas que tem que enfrentar. Não raras vezes, porém, certos espíritos precisam aprender a ser mãe – o mais importante dos deveres da mulher. Isso acontece, por exemplo, quando esse espírito encarna pela primeira vez num corpo feminino; ou então, quando falhou na sua função de mãe em outras encarnações. Portanto, na visão da ciência espiritualista cristã, a controvertida tese de Elisabeth Badinter encontra uma explicação perfeitamente lógica: o amor materno não é simplemente um mito mas, sim, uma conquista espiritual; ou seja, um passo adiante numa trajetória evolutiva.

Atualmente, cabe a mulher uma jornada muito árdua, pois, além de ser mãe e coordenadora do lar, ela geralmente tem um emprego fora de casa. Com esse ganho financeiro, a mulher finalmente conseguiu a sua liberdade – liberdade no bom sentido, pois é o dinheiro que a mulher ganha trabalhando honestamente que lhe dá a sensação de dever cumprido.

Esse tipo de mulher foi, e continua sendo, muito criticada; são mulheres fortes; são mulheres que querem trabalhar; querem se realizar; e, que têm todo o direito de fazer isso! Porém existe ainda muito preconceito que, na maioria das vezes – pasmem! – vem das próprias mulheres: são aquelas que se vangloriam de ser somente mãe e dona de casa que não conseguem compreender a ânsia de trabalhar, a ânsia de produzir de uma outra mulher; esse trabalho pode ser intelectual ou não – isso não importa, de toda a forma é um trabalho.

A mulher quando ganha o seu dinheiro se torna independente – dona da sua vida. Para muitos homens isso é uma ameaça; eles sentem que têm a seu lado uma companheira que pretende competir com eles. Coisa mais ridícula! Não é esse o sentido de tudo; é preciso entender aquela companheira e, apoiá-la no seu desejo de trabalho, no seu desejo de independência financeira.

Infelizmente, porém, essa mulher que luta pela liberdade nem sempre aproveita essa liberdade de uma maneira adequada. E são essas que agem negativamente, que servem sempre de um exemplo a ser dado, tanto pelas mulheres que não trabalham fora de casa, como pelos homens que não permitem que a mulher trabalhe. Quando falamos dessa liberdade negativa, falamos da mulher fútil, da mulher que não trabalha ou que faz um trabalho indigno e desonesto.

Todos esses percalços a mulher atual tem tentado derrubar, sublimar e tem feito isso com êxito. Essas mulheres, pela oportunidade que têm de vivenciar a vida fora do lar, têm se mostrado geralmente mais capaz de orientar seus filhos do que outras que vivem somente no ambiente doméstico. São mulheres também que geralmente optam por engravidar com mais idade. Uma vantagem, a meu ver, tanto para a mãe como para seu filho.

Meu Pai – Augusto Gomes da Silva, foi um homem à frente do seu tempo, um verdadeiro visionário que sempre defendeu os direitos da mulher. O texto abaixo foi transcrito do meu álbum de recordações e escrito por ele em 1946 quando completei meus quinze anos. Ao escrevê-lo, meu pai parecia prever que, muitos anos depois, graças a Independência (com "i" maiúsculo como ele sempre enfatizava) que ele me facultou conquistar, eu seria capaz de, sozinha, criar meus três filhos; e, principalmente, de fazer deles pessoas íntegras e úteis para a sociedade.

[...] Faça, em época oportuna, uma boa escolha e dispense generosamente o "emprego de marido". Para isso, faculto-lhe obter uma profissão liberal que lhe dê a verdadeira Independência, o que significa entrar em igualdade de condições na sociedade conjugal, precavendo-se de uma má e impensada preferência ou de uma "revelação" vindoura.

Expresso-me assim, por falar a uma moça e com a minha franqueza só posso desejar um bom futuro, igual ao que todas as moças almejam: c a s a m e n t o – mas, ...em tempo oportuno. Conquiste pois, antes de tudo, sua INDEPENDÊNCIA
. [...]

Bibliografia
A encarnação do espírito. In: Racionalismo Cristão, Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 42a ed., p. 94-113, 2005.
Badinter, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 5a ed., 1985.
Cottas, Maria. Intelectualidade da mulher. Folhas esparsas. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 8a ed., p.53, 1981.
Howard, Craig e Lambert, Kelly. Sabedoria de Mãe. Scientific American Brasil, Fevereiro de 2006, p. 66-73.
Silva, Glaci Ribeiro da. O cérebro: dimorfismo sexual e inteligência. Racionalismo Cristão e Ciência Experimental, volume 2. Biblioteca Digital do Racionalismo Cristão.

Novembro, 2006

 

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