gazeta2.jpg (8041 bytes)

A natureza e o homem

Jurandir Pereira

O problema ecológico vem a cada dia ocupando um espaço maior em nossas vidas. Isto se manifesta não só pelo surgimento de movimentos em defesa da natureza como também nos anúncios de diversos tipos de mercados, cada vez mais freqüentes, que nos tentam vender um produto chamado de "qualidade de vida". Desta maneira, verifica-se, de um lado cresce uma consciência necessária em torno do problema, de outro, esta tomada de consciência apenas não é suficiente para superar as mazelas da sociedade humana.

Fundamentados na lógica das ideologias, afirmam que a natureza é fonte de beleza e de recursos a serem apropriados e transformados em propriedade privada. Pelo menos a curto prazo a natureza por si só não pode produzir qualquer riqueza em benefício da humanidade. Efetivamente a mediação do homem se faz necessária à produção de bens através do trabalho seja qual for a esfera de ação. Na realidade, muito mais explorado do que a natureza é o trabalho do homem para satisfazer ambições desmedidas de certos semelhantes.

Apenas a capacidade que se demonstra na realização do trabalho não é condição suficiente para completar o processo de alienação – situação resultante dos fatores materiais dominantes da sociedade – do homem em relação à natureza. Em face disso, é necessário que o resultado deste trabalho seja apropriado por todos. E como não há outra forma de se apropriar dos "bens", a não ser apropriando-se também dos meios de produzi-los, a alienação homem-natureza só se completa de fato com a alienação do próprio trabalho. Portanto, indiretamente, o trabalho está imbuído nesse processo de degradação da natureza.

Desde as primeiras aglomerações relatadas pela História, o homem aprendeu a trabalhar e acabou por inaugurar a dominação sobre seu semelhante. Os desdobramentos culminam na fragmentação do próprio trabalhador e na subjetividade que este tem de si: ele não se entende como produtor, mas como força que desenvolve uma determinada atividade. No que diz respeito a sua relação com a natureza, esta permanece como propriedade privada e dissociada dele. É a relação homem-natureza que surge como resultado das relações que permeiam a sociedade, tornando-se condição de reprodução desta.

Assim, a crise ambiental nos leva a colocar em questão a forma como as ideologias em geral regerão o funcionamento da nossa sociedade: gestão dos recursos naturais, os meios de produção, o consumismo, a criação de necessidades, a ciência, a técnica, a distribuição, a alienação. Convém salientar que o conjunto homem-natureza não é privilégio de nenhum modelo de produção. Na verdade, esta dualidade pode ser percebida no tempo e no espaço, dentro de cada período da sociedade humana em que ocorreu a dominação de um ser sobre outro, e na própria história de cada modo de produção anterior aos modelos atuais.

A relação entre homem e o meio existe nas condições concretas do modo de produção a fim de servir a favor do homem. Enquanto exteriorizada do íntimo humano, a natureza não passa de uma abstração cultivada e se destaca por causa do papel de certos padrões de produção. De outra forma, a natureza é sempre uma espécie de discurso momentâneo, cujo conteúdo está sujeito às mesmas transformações que ocorrem através do tempo e alternam a história dos próprios homens e suas sociedades.

Desde o advento da existência humana e de seu desdobramento cultural no processo da evolução, a natureza se apresentou como entidade distinta dos homens. Entre os artifícios produzidos pela cultura está o da natureza que, em cada agrupamento humano ou cada sociedade particular, assume significados diversos que se revelam como leis, teorias e variadas explicações, que os homens reservam para expressar as concepções que têm dos outros integrantes (não humanos) de seus universos.

Enquanto apenas se faz exposições circunspetas, a natureza revela a significação que se busca imprimir ao mundo e sugere o modo de convivência e relacionamento que se pretende para os seres humanos nas relações sociais engendradas na estrutura de classe e nas ideologias inerentes ao modo de supremacia da produção. Por isso, o seu ritmo não é diferente daquele apresentado pelas dinâmicas sociais, pois é nesse ritmo que ocorrem as alterações nas idéias que os homens fazem do mundo.

O homem primitivo imaginava espontaneamente as causas ocultas e as forças invisíveis que controlam a natureza e a sociedade de maneira analógica ao homem. Os animais e os fenômenos naturais eram revestidos dos atributos humanos e assim eram usados. Desta maneira surge em duplo efeito: de um lado a antropomorfização da natureza e, do outro a sobrenaturalização do homem.

Na adoção espontânea das realidades naturais com atributos do homem, este se dota de uma realidade e de um poder sobrenatural. Pode-se dizer até que as coisas naturais sobrevivem independentemente e indiferentes das intervenções humanas, mas o mesmo não acontece com as idéias que fazemos delas, das intervenções. Com essa idéia, o reconhecimento de uma natureza separada do homem não seria possível sem que antes os homens tivessem o seu pensamento domesticado pela necessidade de produzir objetos. Num mundo sem objetos não há natureza e, a rigor, nem sociedade, pois um é a referência do outro.

No padrão em que agrupamentos humanos passam a compor sociedades, cujas relações sociais promovam a desigualdade entre os homens, estabelece-se entre eles relações diferenciadas de poder, pois, sem a espiritualidade, não há outra forma de domesticar os pensamentos no sentido de conduzi-los a produzir o suficiente à sobrevivência sem os excessos, sem a visão de lucros e rendimentos extorsivos. Então a natureza era algo a ser inventado ou a ser revelado como identidade distinta, pois ela tem que ser, de maneira individual, apropriada e consumida, ou seja, o homem contra a natureza.

O aumento da sociedade de classes e seu desdobramento espacial, entre a vida na cidade e a vida no campo, é que abriu o caminho para que, a partir da consolidação da distância social dos homens entre si, estes pudessem ver, pensar e conceituar natureza e sociedade como coisas distintas. Se considerarmos a estreita identificação que há entre a natureza de um lado e o homem metropolitano do outro, não nos será difícil perceber a imposição de novas exigências, ou melhor, a decomposição da realidade em mundos distintos, governados separadamente por forças sociais e naturais.

Resultado do processo de superação de um espaço primitivo, selvagem, acarretará na produção de um número cada vez maior de objetos, estabelecendo uma natureza criada, o que é uma invenção cultural, cuja evidência maior ou menor está diretamente relacionada à intensidade de produção destes objetos que os conteúdos sociais fundados na domesticação e alienação do trabalho favorecem.

O privilégio de classes sociais, a adoção de uma hierarquia de valores, a definição de localidades sociais e a segregação espacial para quem domina ou para quem é dominado, são os principais sintomas do rompimento com o universo primitivo do pensamento selvagem e, da instauração da desigualdade e segregação sociais, apontando a natureza como identidade distinta da identidade do homem, um pensamento incoerente da relação homem-natureza. A separação homem/natureza só se consolidará plenamente quando se elaborarem as teorias que sejam capazes de introduzir no universo mental das pessoas o reconhecimento desta situação. Ou seja, é preciso formular uma explicação para que a visão fragmentada da realidade seja aceita pela sociedade como verdadeira.

A consideração de que a natureza é tudo aquilo que não for produto do homem, isto é, a natureza independe da intervenção humana e tem autonomia de movimento poderá levar a humanidade a um colapso imensurável. Tenho dito, mesmo ocultamente, em artigo nesta página intitulado "Formação da Personalidade sob Influência Mítica", o pensamento grego de que o mundo era o centro do universo ainda influencia nessa separação do homem e a natureza, uma cultura que avançou por séculos caracterizando o seu reconhecimento oficial no período, essa idéia, que do inconsciente coletivo aparece reinante nas mentes de certas autoridades governadoras, exemplificando que nem sempre nomes e renomes em termos físicos estejam à altura de resolver este megaproblema da poluição.

Se libertos das influências míticas ou comprometimentos com a religião, farão com que o mundo natural seja descoberto e tenha sua identidade oficializada e seu lugar reconhecido. Assim, a natureza terá seu percurso livremente em favor do homem revestido de alta espiritualidade, sem os reveses provocados pelas filosofias dogmáticas, principalmente daqueles influenciados pela idéia criacionista. Certamente se escreverá "O Livro da Natureza" que deverá substituir o "livro das escrituras", atirando por terra as considerações de que o homem é um fruto da graça divina e colocado em lugar único do Universo – a Terra.

Em face das exigências da sociedade de produção, as antigas imagens do mundo e de sua natureza terão que ser substituídas. Terão que ser abolidas as restrições culturais para uma nova concepção de natureza, empunhando um novo sistema enquanto há tempo, sem uma violação de comportamento ético humano, sem atos destrutivos contra ela, mas em favor dela e da humanidade.

O rompimento desse mundo obsoleto em favor do novo mundo é uma das razões para essa nova imagem que se dará no fato concreto do estabelecimento de uma fronteira cada vez mais consolidada entre os setores de produção e as forças de trabalho. Mas, para tal, os homens devem se lançar em uma busca alucinante e sem sentido visando uma qualificação profissional para atender as exigências das máquinas e, nessa educação não poderia faltar a matéria principal – a espiritualização.

Enfim, natureza é no fundo um conceito do qual medimos a intensidade da produção de objetos oriundos dela. E é do aprofundamento das desigualdades sociais, que por sua vez depende a quantidade destes objetos. Portanto, quanto mais as sociedades aprimoram os seus esquemas de domínio sobre o natural e desigualdade entre grupos sociais nesses modelos atuais, mais claramente se estabeleceram as diferenças entre um mundo que é natural e outro que é humano, o que é uma realidade e contra isso devemos lutar.

Fontes de estudo:

Sítios de Ecologia
Apocalíptica Ambiental
Racionalismo Cristão

Fevereiro de 2007

 

Página Principal da Gazeta  | Página anterior

Gazeta do Racionalismo Cristão - Uma filosofia para o nosso tempo