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A humanidade está evoluindo?

Elenir Aguilera de Barros

Em busca de uma resposta a essa pergunta e trilhando caminhos pouco explorados, tecemos algumas considerações sobre o assunto em pauta: a trajetória evolutiva do homem.

Em primeiro lugar devemos entender que evolução está associada a mudanças que conduzam a um progresso.

Por isso, quando analisamos a realidade que nos cerca, não podemos deixar de perguntar "Houve progresso?"

Científica e tecnologicamente não há espaço para dúvidas. O progresso é visível. E o ritmo em que se desenvolve mostra-nos que a humanidade caminha a passos largos na conquista de novos conhecimentos.

Mas, no que diz respeito ao conhecimento de si mesmo, tem o homem progredido?

Para entender, caracterizar e avaliar esse olhar que o homem lança sobre o mundo que o cerca e sobre si mesmo, parece-nos ser a literatura a melhor fonte de conhecimento dos caminhos que a mente percorre, pois é através dela que o homem expressa sua visão de mundo.

Será este, portanto, o objeto de nossa investigação: o que a literatura registra.

Que tendências podemos observar quando lançamos um olhar sobre a produção literária do mundo ocidental – pois é nele que estamos inseridos – no último milênio?

Num voo rasante, panorâmico, apesar da superficialidade que o caracteriza, observamos que, no decorrer da história da literatura, notam-se fortes tendências que são detectadas na produção literária, tendências que servem de base para os historiadores classificarem a literatura em determinado período histórico.

Apesar de conhecermos os riscos que toda simplificação encerra, como não temos, entretanto, por objetivo construir um tratado de literatura, lançaremos um olhar interessado sobre o que aconteceu no decorrer dessa história literária.

Só Deus tinha as respostas

Para não nos afastarmos muito no tempo, partiremos da Idade Média, que podemos datar dos anos 1000 até a Renascença, no século XIV.

Nesse período, a visão de mundo que o homem expressa foi predominantemente teocêntrica, isto é, as respostas a perguntas existenciais do tipo "Quem sou?", "De onde vim?", "Qual o sentido da vida?", "Para onde vou após o término da vida terrena?" seriam obtidas de Deus, pois só ele tinha as respostas. Competia ao homem decodificar as respostas que supunha ter e adequar-se a elas.

Nessa busca, isto é, procurando nos desígnios divinos a explicação para a própria existência, o homem demorou-se cerca de 400 anos, considerando nosso ponto de partida o ano 1000.

Submetido, o homem não confiava em si mesmo, em sua capacidade de observar, raciocinar e deduzir. Sabemos o que aconteceu àqueles precursores que buscaram escapar dos limites impostos por essa visão de mundo, rebelando-se contra a submissão, buscando suas próprias respostas.

Essa era uma mudança, entretanto, que nada nem ninguém podia frear. Não há poder que detenha a evolução.

O homem descobre que pode encontrar respostas

Quando se inicia esse processo em que o homem descobre sua capacidade de encontrar respostas, dando-se conta de que elas devem resultar de seu trabalho de busca, ocorre uma reviravolta e o homem, que até então tinha os olhos voltados para o divino, procura olhar para a natureza que o cerca e para si mesmo.

A essa reviravolta é dado o nome de Renascimento, pois retoma-se um caminho de busca já iniciado séculos antes de Cristo, caminho que ficou subterrâneo por todo esse tempo.

Confiante em si mesmo, o homem busca respostas.

Para competir com o saber que se dizia vir de Deus, tais respostas devem ser universais, comuns a todos os seres, aceitas por todos sem possibilidade de contestação; têm, portanto, que ter o respaldo da razão.

São essas tendências que, instauradas no Renascimento, sustentam a visão clássica do mundo, visão que se caracteriza pelo universalismo, pelo racionalismo.

O homem, confiante em sua capacidade de observar, de raciocinar, parte em busca de conceitos que expliquem o mundo. Passamos do teocentrismo (teo, em grego, significa "deus") para o antropocentrismo (antropos significa "homem"). O homem assume um papel até então atribuído a Deus: explicar o mundo e a si mesmo.

Quando se coloca no centro do Universo, quando se considera capaz de gerar respostas, o homem busca amparo no que em si sente mais estável: a razão, a capacidade de raciocinar.

O homem vê a si mesmo e o Universo como um todo, um conjunto onde não há espaço para o individual, para o particular.

Ao mesmo tempo, não pode ignorar que, embora seja um ser racional, há no indivíduo características que são particulares. Se a razão, por ser universal, é um porto seguro em que se encontra uma âncora segura, não há como ignorar a existência de um mundo de sensações que são individuais. O universal contém o particular.

Diante dessa realidade, busca-se a conciliação entre o universal e o particular. O homem procura hamonizar os contrastes, estabelecer um equilíbrio entre essas forças conflitantes.

Partindo do "nós" para chegar ao "eu"

Nesse período clássico, sempre que o particular (o individual) se impõe, instaura-se um conflito, um elemento de perturbação. Por isso, busca-se restaurar a ordem, o equilíbrio. Quando o "eu" ganha vulto, é equacionado como "nós", isto é, ainda se nota a forte tendência para a generalização.

Institui-se um movimento de pêndulo, em que o homem ora se orienta pela razão, ora dá atenção às informações que lhe chegam através dos sentidos. Todo elemento de "perturbação" da ordem racional estabelecida é, de uma forma ou de outra, neutralizado pela ação da razão. Nesse embate, passam-se praticamente 300 anos, em que acompanhamos os movimentos denominados Classicismo, Barroco, Arcadismo (Iluminismo).

São, portanto, necessários três séculos para que, finalmente, seja dado espaço para a expressão do indivíduo, o que ocorre com força total no Romantismo, no início do século XIX.

Voltados os olhos para esse novo objeto de conhecimento – o "eu" –, num primeiro momento, é focalizada apenas a camada mais externa desse enigma que é o homem. Isto é, observa-se o "eu" que se relaciona com o "outro", o "eu social", aquele que está circunscrito pelo ambiente em que está inserido e com o qual interage.

Nesse início de descobertas, privilegia-se o sentimento, a emoção. Conquista-se espaço para a expressão do "eu". Mas sua realização emotiva encontra obstáculos sociais. Daí a temática mais recorrente nesse período: a "tensão", o conflito "eu" versus sociedade.

Esse olhar – que busca compreender o ser humano como um indivíduo inserido num ambiente social – ocupa o centro das investigações do homem, em sua busca de conhecimentos, por cerca de 80 anos. Período em que predominam as visões de mundo expressas em movimentos estéticos rotulados de Romantismo e Realismo.

Mas, antes de findar esse século, o homem já se dá conta de que há aspectos ainda mais perturbadores nesse "eu", objeto de sua observação, em que tem os olhos postos.

Em busca do autoconhecimento

Para além dos aspectos sociais, inicia-se uma busca do conhecimento que envereda pelos campos do subconsciente, do inconsciente. Como é previsível, busca-se, inicialmente, o inconsciente coletivo. Essa visão, entretanto, vai-se particularizando, até se chegar à verdade inconteste de que cada indivíduo é um ser único, com atributos próprios, em busca de sua própria trajetória. Não há mais limites generalizantes, o homem vê-se entregue a si mesmo, obriga-se a uma busca individual do caminho a ser seguido.

Chega-se, assim, ao século XX com a mente despertada para uma realidade multifacetada, com infinitos ângulos de abordagem, pois tem-se a consciência de que cada indivíduo é um ser complexo que reage de forma particular à realidade em que está inserido porque tem uma bagagem interior própria.

Quanto interesse tem despertado esse olhar que privilegia a bagagem individual que impulsiona o indivíduo para esta ou para aquela direção!

Busca-se, na verdade, conhecer a essência de cada ser; essência que se revela em sua interação com o mundo, mas não pode ser explicada nem pela realidade que o cerca (como se pretendeu no passado), nem pela forma como os outros indivíduos reagem, pois cada ser é único e deve, portanto, buscar o conhecimento de si mesmo. E é nessa busca que obterá respostas às eternas perguntas existenciais "Quem sou?", "De onde vim?" , "Qual o sentido da vida?", "Para onde vou após o término da vida terrena?" Essa busca é intensificada ao longo do século XX e ainda anima o início deste novo século.

Conclusão

Podemos, para concluir, observar que o homem demorou praticamente quinhentos anos para libertar-se das peias que o impediam de se considerar sujeito do conhecimento, isto é, sentir-se capaz de encontrar respostas que expliquem o sentido da vida terrena. Mais trezentos anos decorreram até que percebesse a importância de dividir seu olhar de forma a abarcar a realidade que o cerca e ele próprio.

Mas em menos de um século conseguiu dar um mergulho em direção ao seu "eu" interior, descortinando com rapidez camadas cada vez mais instigantes de sua interioridade. Movimento esse que já se traduz num interesse inequívoco pelo conhecimento do que possa ter ocorrido antes da presente existência terrena, o que revela um passo decisivo em direção ao conhecimento de si mesmo como um ser em contínua evolução.

Observando-se essas conquistas que a literatura registra, não é possível ignorar o ritmo cada vez mais acelerado em direção ao autoconhecimento. E é nessa busca, sabemos, que encontrará respostas para o significado da existência terrena.

Diante desse quadro, ainda que tão simplificado, é possível vermos com clareza que o homem caminha segura e firmemente em direção aos conhecimentos que lhe trarão respostas satisfatórias para as perguntas que sempre o inquietaram e que foram, sem sombra de dúvida, a mola propulsora para essa busca contínua e incansável.

Podemos, enfim, responder com segurança que o homem não só evolui continuamente, como também que essa evolução vem-se processando em ritmo cada vez mais acelerado.

À medida que se liberta de ideias e noções cerceadoras e, confiante em sua capacidade, procura conhecer-se, avança destemidamente na obtenção das respostas que lhe darão segurança para bem conduzir seu viver terreno.

É bem verdade que o percurso é árduo e há muitas pedras no caminho. Muitas vezes as dificuldades podem levar ao desânimo, ao sofrimento, mas são constantes os sinais de que o homem enfrentará com coragem e determinação essa caminhada de descobertas, sem se deixar abater, sem permitir que falsas soluções ou subterfúgios o desviem da rota vislumbrada.

Março 2009

 

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