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A doutrinação

Julio Cesar do Nascimento

É de se supor, por juízo bem formado, que as palavras escolhidas para nos transmitirem o sentido do que se pratica no Racionalismo Cristão tenham sido bem intuídas aos codificadores da doutrina. Buscando, portanto o significado do que estas palavras adjetivam e as ações necessárias para que estas assumam integralmente os seus significado e poder, estaremos avançando no próprio entendimento da doutrina e seguindo o rastro luminoso das intuições emanadas do espaço para a seleção das mesmas.

O que se segue é tese e procura fundar no sentido científico as afirmações que farei, apoiado sobre outras bases do saber, é assim, provocação ao raciocínio que se bem formada, oferecerá um bom e largo apoio para outros pesquisadores da doutrina avistarem mais alto e ao longe o que ainda não alcança esta exposição ou a minha limitada articulação.

A palavra "doutrinação", nosso objeto de estudo, tem como mais mediato significado "ato de doutrinar". Pois bem, para o dicionarista, preocupado em cobrir os mais diversos usos do vocábulo, doutrinar é "instruir em qualquer doutrina" é também realizar prédica, catequese, ou pregação1.

Para o Racionalismo Cristão doutrinar é instruir, não numa doutrina qualquer, mas no conjunto de princípios que servem de base para o sistema filosófico e científico racionalista cristão.

Instruir significa aqui, esclarecer a criatura, sobre o sentido dos princípios doutrinários, quando aplicados às duas vidas que temos simultâneas, a material e a espiritual.

Uma vez definido o termo, resta saber como estabelecer as condições e como agir, para que a criatura, ou melhor, ambas as criaturas a que transmite a doutrinação e o doutrinado estejam ambos sendo instruídos em Racionalismo Cristão, ao invés de agirem como numa prédica, catequese ou pregação religiosa.

Da parte do doutrinador ou, melhor dizendo, do instrumento mediúnico que por intuição transmite a doutrinação e vai tonalizando-a com os alvores do seu Ser é preciso: atenção e concentração firmada no tema e na torrente de idéias que lhe chegam. É preciso também que o doutrinador atente para a natureza astral e material das criaturas a quem pretende fazer compreender aquilo que por ter sido a ele intuído, portanto comunicado de forma anterior à palavra, lhe é tão claro que sobre nenhuma destas idéias pode haver para ele dúvida ou confusão.

O mesmo não se pode afirmar sobre estas quando são racionalizadas e transmitidas pela palavra e posturas do doutrinador, já que para a transmissão vai ele se valer de palavras e dos conceitos doutrinários que apreendeu de forma mais ou menos fiel a origem.

O que mais precisa saber o doutrinador para lograr maior êxito no seu mister de fazer instrução, ou seja, de se fazer compreender pelo doutrinado?

É bom que saiba, e este saber vai moldando amigavelmente o seu modo de expor, que as criaturas encarnadas prestam maior atenção e se envolvem profundamente com o que lhe toca certas emoções. Pesquisadores da psicologia2 identificaram intuitivamente e depois comprovaram por experimentos que povos das mais diversas culturas apresentam emoções primitivas de alegria e prazer, tristeza, medo, ira, amor, surpresa e nojo. Estas combinadas expressam outras, que são destas derivadas.

E por que deve o doutrinador dar atenção a esta situação que de tão geral e comum passa desapercebida para a maioria?

Porque as palavras e posturas do doutrinador evocam nas pessoas antes de tudo emoções, estas emoções evocam lembranças e formas de interpretação das realidades exteriores. Estas interpretações determinam os limites auto impostos de raciocínio que a criatura estará pronta a aceitar3.

Preocupado em dar o melhor destino às intuições que recebeu e de como fazê-las chegar à assistência, vai o doutrinador se esmerando em compreender o processo de comunicação, para aprimorar-se como instrumento a serviço do Astral Superior.

As emoções não somente evocam as memórias e modos de pensar, como também são mais bem atingidas no seu modo positivo se forem evocadas no público, pela porção da personalidade que os psicólogos da análise transacional denominaram de Pai Nutridor4.

Pai Nutridor é uma expressão que procura representar o nosso modo de ser quando assumimos a postura de aconselhar e advertir amigavelmente sem críticas, como quando um pai faz conselho a um filho querido. Neste ponto recordo-me de uma prática comum no modo de doutrinar de Antônio Cottas, saudoso presidente da doutrina e seu atual Presidente Astral. Quando necessário falar aos jovens sobre o respeito que deveriam ter para com as mulheres, ele costumava narrar a despedida dos seus pais quando partiu para o Brasil, ainda pré-adolescente. Narrando ele o modo como a sua mãe lhe advertira carinhosamente, porem firmemente, para que respeitasse as moças como se fossem suas irmãs e as senhoras como a ela própria. Nesta narrativa ele ressaltava e descrevia a emoção da sua mãe e a dele próprio e, isto era o bastante para levar a assistência ao mesmo ambiente emocional e fazer comunicar de modo indelével a mensagem que ele pretendia.

O outro aspecto que deve estar presente na preparação mental do instrumento doutrinador é o que já está bem difundido, sobre a predominância de um ou dois canais de comunicação, auditivo, visual ou sinestésico nos indivíduos5. Assim, ao doutrinador atento não devem faltar exemplos na narrativa em linguagem a mais simples e direta, quando vai expondo o que lhe foi intuído, de forma que apresente as cores, os aromas, as sensações e tudo o mais que possa criar a atmosfera do que se pretende transmitir, pois esta forma de expor além de facilitar a criatura manter a atenção é também importante para que a mesma se identifique e mesmo compreenda a mensagem.

Por fim, mas certamente não por último, cabe ao assistente buscar através da atenção desarmada de preconceitos, manter-se tão perfeitamente integrado ao discurso do doutrinador, que com o passar do tempo, deixa de apreender pelas palavras do doutrinador e pela harmonia de vibrações do pensamento que criou, vai ele também recebendo intuitivamente os mesmos conceitos e ensinamentos da fonte, passa a ser ele próprio mais um instrumento educado e a serviço do Astral Superior.

Dedico este estudo ao dileto companheiro de doutrina e coordenador de ação doutrinária Prof. Lázaro.

Bibliografia

1- Buarque de Holanda, Aurélio. Novo Dicionário Aurélio, 1ª ed., Nova Fronteira, 1975.
2- Goleman, Daniel. Inteligência Emocional, 11ª ed. Objetiva 1995, apêndice A, p. 305-306.
3- Goleman, Daniel. op cit, apêndice B, p. 309.
4- Berne, Eric. What do you say after you say hello, 1ft ed, 21st printing, Batam Books,1985. p. 13.
5- Knight, Sue. NLP at Work, 1ft ed. Nicholas Brealey Publishing Ltd., 1995. p. 63-67.

Dezembro de 2006

 

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