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Discursos históricos

Uma data magna - Centenário do nascimento de Luiz de Mattos (3/1/1960)
Discurso do Sr. Antônio do Nascimento Cottas

(extraído de "Discursos de Antônio do Nascimento Cottas", 1993)

Ilustre auditório!

Na qualidade de discípulo que fui, e sou ainda, de Luiz de Mattos, e não na de marido de sua filha Maria Júlia de Mattos do Nascimento Cottas, tenho a subida honra de receber-vos nesta vossa Casa para vos falar do centenário do nascimento de Luiz de Mattos.

Na Vila de Chaves

Na histórica e tradicional Vila de Chaves, tomada em definitivo aos mouros em 1160, por iniciativa dos irmãos Rui e Garcia Lopes, oferecida essa conquista a Afonso Henriques, hoje cidade de Chaves, ainda conservando parte do seu cinturão de muralhas colossais que a guarneciam quando Vila, tornando-a impenetrável aos invasores, que muitos foram; foi nessa sempre saudosa terra, que a 3 de janeiro de 1860, no lar feliz de José Lavrador e D. Casimira Júlia de Mattos Chaves, nascia o menino Luiz, e longe estavam de supor que a esse infante caberia codificar o Racionalismo Cristão. Estava reservado a Luiz um futuro de lutas, trabalho, sofrimentos, mas também de glórias sem fim. (Palmas)

Senão vejamos:

Luiz de Mattos – Nasceu na Vila de Chaves – Província de Trás-os-Montes (Portugal), a 3 de janeiro de 1860, era filho de José Lavrador e Casimira Júlia de Mattos Chaves. Seu pai era natural de Orence, Província de Galiza (Espanha), descendente em linha direta da família de fidalgos Lavradores. Sua mãe era descendente dos grandes lutadores e fidalgos Mattos Chaves, fundadores da linda, hospitaleira e salubérrima Vila de Chaves.

Aos 13 anos, no ano de 1873, veio para o Brasil, desembarcando nesta cidade do Rio de Janeiro, onde o aguardava o seu irmão, já negociante, em Santos, Vitorino de Mattos Lavrador, e no Colégio São Luís, em Botafogo, internado foi por algum tempo, a fim de seguir estudos.

As "idéias malucas" de José Bonifácio

Desde que José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1823, entregara à consideração da Assembléia Constituinte do Império a sua célebre "Representação sobre a escravatura" que os historiadores contam – fora calcada na vida dos 4700 habitantes de sua vila natal, dos quais 2000 eram escravos – que as "idéias malucas" (*) do grande santista caíram em terreno fértil.

Era a primeira demonstração pública de sentimento abolicionista em forma de protesto parlamentar.

Apesar de apresentar medidas de previdência e aplicação necessárias à extinção do escravismo, sem choque imediato para o capital, seu projeto caiu diante da barreira intransponível dum sistema arraigado e dos interesses em jogo.

(*) A outra "idéia maluca" de José Bonifácio foi aconselhar a remoção da Capital do País para um sítio central (1821) "deste modo se chama para as províncias centrais o excesso de povoação vadia das cidades marítimas e mercantis" e, dirigindo-se à Assembléia Constituinte do Império em 8/6/1823, "Parece muito útil e até necessário que se edifique uma nova Capital do Império, para assento da Corte, da Assembléia Legislativa e dos Tribunais Superiores, que a Constituição determinar. Esta capital poderá chamar-se Petrópole ou Brasília". Fundou-se, em 1846, Petrópolis. Inaugurou-se, em 1960, Brasília. A outra"idéia maluca" foi a da Independência.

A reação dos abolicionistas

Mas, as palavras do grande tribuno encontraram eco na sua Província e, desde então, a substituição do braço escravo pelo braço livre passou a constituir objeto de estudo e cogitação dos paulistas, cujas fortunas, como ainda hoje, estavam representadas pelas suas fazendas de café.

Como conseqüência do incremento que tomavam as idéias de libertação dos escravos, desde 1827, começaram a chegar a Santos levas de colonos brancos, livres, que iriam formar as primeiras colônias agrícolas ou trabalhar nas fazendas paulistas.

Era a reação dos verdadeiros abolicionistas da lavoura paulista contra o regime desumano do trabalho forçado, que a Lei de 7 de novembro de 1831, extinguindo o tráfego de escravos, tentou dar remédio, nada conseguindo porque passou ele a ser feito por contrabando e em piores condições que anteriormente.

O movimento popular

O movimento abolicionista, a reação popular, teve início em Santos, após a terminação da guerra do Paraguai, em 1870.

Pontificava, então, Xavier da Silveira, aconselhando a fuga em massa dos núcleos de sofrimento, defendendo depois os escravos recapturados pelos "Capitães de Mato" perante o Júri, justificando tais fugas perante o Direito.

Ficaram na História, como palavras de fogo, as últimas por ele dirigidas ao Conselho de Jurados, num Júri de São Paulo, que acabara de condenar um negro fugido e por ele defendido: "Cumpre o teu destino angustioso, pária deserdado de toda proteção social! (E num grito em que pôs toda a veemência de sua alma) Senhores jurados! Eu nunca mais voltarei ao Júri de São Paulo!" (Palmas)

Voltou, definitivamente, para Santos, onde fundou o matutino "A Imprensa", que dirigiu durante os três anos que ainda teve de vida, morrendo devorado pela varíola.

O "Apóstolo Negro"

Escreveu, então, o próprio Luís Gama, cuja ação se desenvolvia em São Paulo: "Enquanto Xavier da Silveira viveu, a luz vinha de Santos, porque ele era o porta-bandeira da Abolição na Província de São Paulo e nós todos esperávamos sempre a palavra de ordem, que vinha dele".

Morto em 24 de agosto de 1882, Luís Gama, que sucedera a Xavier da Silveira na Chefia da Campanha, ao falar no cemitério, o advogado e ex-promotor e Juiz Municipal de São Paulo, Antônio Bento de Sousa e Castro, estendendo a mão sobre o caixão do "apóstolo negro" jurou que "a campanha abolicionista deveria prosseguir até a vitória final, e que dali por diante ele seria o seu porta-bandeira".

O ponto alto da campanha

Meses depois, Antônio Bento visitava Santos, percorrendo as casas dos chefes locais do movimento abolicionista e reduto fortificado do Jabaquara, convencendo-se, então, de que "se achava diante do ponto alto e confiante da campanha", palavras dele a alguns chefes abolicionistas santistas.

Abolicionistas ardorosos, como José do Patrocínio e Cândido Barata Ribeiro, sentindo o acolhimento dado pelos santistas à causa abolicionista, visitaram Santos, nessa época, realizando conferências no Teatro Guarani sobre os temas Abolição e República, tendo o primeiro, em cena aberta, entregue a carta de alforria a dez escravos, depois de falar mais de uma hora, sob aplausos frenéticos da assistência, que superlotava o teatro.

* * *

Luiz de Mattos e os historiadores

Encontramos pela primeira vez o nome de Luiz de Mattos, citado pelos historiadores da campanha abolicionista em Santos, numa reunião, em 1882 ¾ Luiz de Mattos tinha apenas 22 anos de idade ¾ (palmas prolongadas) para a criação dum reduto para os escravos fugidos, espécie de Quilombo, como refúgio geral e único, ao invés de se ocultarem nos porões e quintais de casas amigas.

Desde a primeira reunião

Era o reduto do Jabaquara que nascia, que chegou a contar mais de 1000 escravos foragidos, com vigias pela atalaia do morro, sob as ordens de Quintino de Lacerda, também ex-escravo, e contra o qual o Governo enviou tropas para o arrasar!

Assim, o núcleo mais importante de rebelião contra a escravatura, o mais forte reduto, o que ocupou lugar saliente na história da abolição, teve a presença de Luiz de Mattos na reunião primeira, que tratou de sua fundação. (Aplausos demorados)

Como sempre, nos movimentos desta natureza, contam os historiadores "foi feita a coleta inicial, entre os participantes da reunião, completado o total aí apurado com as importâncias subscritas pelos demais adeptos".

Ainda nessa primeira reunião, procedeu-se a escolha do lugar onde devia ser criado o reduto, atrás das terras de Matias Costa, lugar de difícil acesso e por um único caminho. Enfim, um ponto estratégico!

A ação abolicionista

Por essa época, já o jovem Luiz de Mattos vivia radicado à vida santista, identificado com as aspirações, os anseios do seu povo, sofrendo pelos seus ideais de liberdade e progresso, cooperando para a solução de seus problemas, que depois se tornaram da própria nacionalidade! (Palmas demoradas)

Sua ação estendia-se pela palavra escrita e falada, nos artigos que publicava na "Cidade de Santos" e no "Diário de Santos", ao lado dos idealistas da época, e nas reuniões dos simpatizantes, que se prolongavam horas a dentro da noite.

Jornalistas santistas

Nessa ocasião, escreviam na imprensa santista Artur Bastos, Vicente de Carvalho, Léo d'Afonseca, Silvério Fonte, Alberto Sousa, Ferreira de Meneses, aos quais se juntaram mais tarde Rubin César, Sóter de Araújo, Henrique Porchart, grande figura das duas campanhas e futuro chefe da política republicana santista, Silva Jardim, paladino da Abolição e apóstolo da República e Júlio Ribeiro, (palmas) filólogo eminente, jornalista vivaz e destemeroso, que dedicou sincera amizade a Luiz de Mattos, que perdurou por toda vida, e outros, todos concitando a mocidade a exigir a Abolição imediata, aconselhando-a a proteger os escravos, encaminhando-os para o reduto livre do Jabaquara ou para as serras de Santos.

O ideal acima do interesse

Apesar de radicado em Santos e aos 23 anos de idade com os encargos de responsabilidade por uma firma exportadora de café, entre outros, três motivos avultam para que Luiz de Mattos se mantivesse, pelo menos em atitude discreta, reservada, senão neutro ou alheio ao movimento abolicionista, que cada vez mais tomava vulto na cidade santista, que foi o principal centro abolicionista do país.

Não seria necessário declarar-se contra o que ouvia nas conversas ¾ pois falava-se principalmente nas casas comerciais, onde se realizavam reuniões e se travavam acaloradas discussões entre entusiastas do abolicionismo ¾ bastaria manter-se em discreto alheamento, evitando comparecer a tais reuniões, submisso aos imperativos de seus próprios interesses.

Não era brasileiro

O primeiro motivo é que Luiz de Mattos não era brasileiro. Chegado a Santos aos treze anos de idade e logo iniciado no comércio, contava em 1882, 22 anos de idade e gozava das melhores relações no comércio e na indústria locais.

O que tinha ele com os movimentos abolicionista e republicano que empolgavam o país, que o acolhera de braços abertos e já propiciara o início da fortuna?

Lutando a favor dos escravos

O segundo motivo, é que dedicado a caçadas, a que tomara gosto nas suas andanças pelo interior do Estado, a visitar fazendeiros, comitentes que lhe mandavam café em consignação a fim de ser exportado, tornara-se muito conhecido e benquisto pelos ricos proprietários de fazendas, agricultores que tinham suas fortunas em terras, cafezais e ... escravos.

Pobres escravos, que lhes tratavam das lavouras, trabalhando como verdadeiras bestas de carga, sem condições humanas de vida, tendo o bacamarte, o bacalhau e a gargalheira, como símbolos da perversidade na exploração de uma casta.

Portanto, quando aqueles fazendeiros soubessem que Luiz de Mattos era abolicionista, que pregava abertamente pela imprensa a fuga dos escravos das fazendas, que os acoitava no Jabaquara e ainda contribuía com remédios, roupas e dinheiro para mantê-los escondidos dos "Capitães de Mato", que os procuravam para capturar, no mínimo, deixariam arrefecer suas relações comerciais com quem trabalhava contra seus interesses, seus negócios, suas fortunas.

Cavando a própria ruína

Havia mais o terceiro motivo: o próprio Luiz de Mattos pela natureza do seu próprio negócio, exportação de café, tinha necessidade de manter escravos a seu serviço, como toda a gente: eram ensacadores, empilhadores, tropeiros, carregadores, toda a coorte de humildes escravos que, naquela época, eram empregados em seu negócio de transporte, armazenamento e embarque de café nos navios, que o transportaria para o exterior do país.

E o jovem negociante, Luiz de Mattos, dando largas aos seus sentimentos humanitários e altruísticos, às suas idéias de liberdade e independência, aos seus anseios de solidariedade humana, (palmas) estava simplesmente cavando sua ruína material, a perda de suas relações comerciais, a falência do seu negócio ...

* * *

Temos lido em vários escritos, e é repetido ainda pelos descendentes de Luiz de Mattos, que ele perdeu e ganhou fortunas. Isso compreende-se, com relação à sua atuação na campanha abolicionista, onde seus interesses o aconselhavam, pelo menos, a manter-se num alheamento discreto.

Até à vitória!

Mas o que acontecia? Viu-se Luiz de Mattos aderir de pronto ao movimento, freqüentar reuniões de conspiradores, escrever nos jornais, contribuir com dinheiro, mantimentos e remédios para minorar o trágico destino dos infelizes escravos, fujões das fazendas de café, que a princípio eram escondidos em quintais, sítios de conhecidos simpatizantes do movimento e, quando pelo número não mais era isso possível, eram encaminhados ao Quilombo de Jabaquara, que ele ajudara a fundar e manter, até à vitória do movimento! (Palmas)

O reduto do Jabaquara

O Quilombo do Jabaquara! O mais temível, o maior centro de escravos fugidos do país, que chegou a abrigar mais de 1000 escravos, dos quais cerca de 200 armados, sob o comando do também ex-escravo Quintino de Lacerda. Essa récua de escravos tinha patrulhas armadas, vigias, na Serra do Cubatão, para favorecer, proteger os negros fujões, que vindos de São Paulo, encontravam na serra quem os guiasse e orientasse para aquele reduto.

Os fugitivos chegavam seminus e famintos e Luiz de Mattos, como vários outros, comprometeu grande parte de seus haveres nessa campanha, fornecendo-lhes comida, roupas e medicamentos e socorros de toda a espécie, chegando mesmo a dificuldades comerciais depois, em conseqüência dos sacrifícios a que se impôs nas duas campanhas, mas principalmente na da Abolição.

A reação do Governo

Até que o movimento de fugas e queixas, levadas aos Governos Estadual e Federal, fizeram com que este enviasse forças: a primeira sob o comando de Dom Joaquim Baltazar da Silveira, e a segunda, do Capitão Canto e Melo, que desistiram do ataque ao reduto e limitaram-se a cercar os fugitivos nas fraldas do Cubatão, tomando posição defensiva.

Liberdade e evolução

Luiz de Mattos trazia inatos em sua alma os anseios de liberdade e progresso, pelos quais se batia a população santista e que contagiavam a todos. (Palmas). Seu espírito liberal e acolhedor, o ambiente de trabalho em que vivia, em contato com humildes trabalhadores, ensacadores de café, carroceiros e carregadores de estiva, no principal porto exportador do país, tornaram-no um entusiasta da causa abolicionista, porque sentia de perto o sofrimento, a miséria, a vida sem esperanças daqueles infelizes escravos, (aplausos) sujeitos à tirania de feitores sem entranhas!

A campanha abolicionista

Findo o trabalho de cada dia, suas idéias de independência, seus sentimentos de solidariedade humana, floresciam em palestras nas redações dos jornais, nas reuniões com os simpatizantes da causa, (*) em seus artigos para a "Tribuna de Santos" e outros jornais da época, em todas as oportunidades que se lhe deparavam para dar expansão à altivez e firmeza de suas atitudes em prol da grandiosa causa, que empolgava aos santistas.

¾ O que importava a Luiz de Mattos o sacrifício de trabalhos e canseiras, arriscar-se em reuniões clandestinas, sentir os sobressaltos dos esconderijos e das tocaias, para ocultar os pobres escapos ao cativeiro, perseguidos pela polícia, se estava cooperando para a vitória duma causa justa? (Aplausos demorados)

(*) A farmácia de propriedade de Teófilo de Arruda Mendes, entusiasta das duas campanhas, era um dos pontos de reunião dos próceres abolicionistas e republicanos, em Santos.

A vitória!

Porque é preciso considerar que com a Abolição, não só se apagava da civilização brasileira uma nódoa moral, que nos inferiorizava perante os outros povos, mas, e principalmente, contribuía-se para que as novas gerações recebessem o sangue e o braço livre dos colonos europeus, canalizados pelas correntes imigratórias que se formavam em substituição aos cativeiro até então reinante. (Palmas)

A teoria da reencarnação

Depois de apresentado, em rápidas pinceladas, um dos mais fascinantes quadros da vida tumultuosa de Luiz de Mattos, façamos, agora, ligeiras comparações.

Para nós, os racionalistas cristãos, como para Jesus, Horácio e outros, inclusive os sábios indianos e chineses, é admitida a reencarnação do espírito, e este, nas suas encarnações, deixa sempre estereotipados seus traços morais e fisionômicos das encarnações passadas. Senão vejamos: à frente da Beneficência Portuguesa, nesta capital, vê-se uma estátua representando Afonso Henriques; compare-se com o quadro que aqui temos e vejamos se não há semelhança?! Vede! O mesmo porte! Lá, o guerreiro valente, alçando uma espada pesando trinta quilos. Aqui, o Revolucionário espiritualista, pensativo, com a mão direita sobre os livros!

¾ E por que tendo sido ele Afonso Henriques, não encarnou em Coimbra ou Lisboa, e foi encarnar naquela "Suíça Portuguesa", Chaves?

A modeladora de caráter

Porque era ali que ele precisava retemperar-se moral e fisicamente, herdando dos pais não só o sangue puro, mas a austeridade tradicional dos Mattos Chaves. (Palmas). A Sra. Casimira, aquela que ele escolheu para Mãe, era uma senhora grandemente austera, e como sabemos, as mães é que modelam e caldeiam o caráter dos filhos. Os pais, podem servir de modelo, mas a modeladora, a formadora do caráter é sempre a Mãe.

Precisamos saber que esse Afonso Henriques mandou prender a própria mãe, para que não se comprometesse a obra do Conde D. Henrique, seu augusto pai.

O emancipador de Portugal

Isto equivale dizer que esse espírito já trazia bagagem espiritual digna de admiração. Desde os seus 16 anos deixou ver o seu tirocínio nos desígnios de Portugal. Foi ele o seu emancipador.

¾ Mas, comparemos agora Nun’Álvarez Pereira a Luiz de Mattos, e o que vemos?

Semelhança marcante nos traços observados em Afonso Henriques e em Luiz de Mattos, e como espírito, sempre desprendido. Companheiro amicíssimo de D. João I, toma atitudes desassombradas, luta contra Castela, vence heroicamente, e não precisando manejar mais a espada, podendo dizer-se possuir quase metade de Portugal, dá tudo o que possuía e vai recolher-se ao Convento do Carmo, e como frade pedir óbolos para a sua Ordem ...

Aliança necessária

Sempre bom e simples esse espírito, vemo-lo em Luiz de Mattos, incapaz de pedir, que nunca pediu, mas de mãos abertas a dar tudo que possuísse na algibeira.

¾ E por que se veio unir a ele Luiz Alves Thomaz?

¾ Justamente por tudo ter sido traçado no Espaço, e como almas encarnadas em Portugal, terem de emigrar para o Brasil, e como que empurradas uma para a outra, entenderem-se e fundirem-se num só querer para codificação do Racionalismo Cristão. (Palmas prolongadas). Luiz de Mattos, para ser o instrutor espiritual, e Luiz Thomaz, o guardião dos haveres materiais

Como Nun’Álvarez, desencarnou em 1360, e outras encarnações teve, sempre de evidência histórica, haja vista a de D. Diniz e a de Cavaleiro de Oliveira.

O homem superior

Codificado o Racionalismo Cristão, em 1910, analisando a vida doutrinária de Luiz de Mattos, reconhecemos que firmou os Princípios morais difundidos por Jesus, o Cristo, e trabalhados por este nas encarnações de Confúcio e Platão. Para Confúcio, "o homem superior preza a sua alma; o homem inferior, os seus bens. O homem superior, sempre se lembra das penas que passou por seus erros; o homem inferior, sempre se lembra dos presentes que recebeu".

"O homem superior é liberal para com as opiniões alheias, sem as acatar; o homem inferior aceita as opiniões alheias, mas não é liberal para com elas".

"O homem superior é forte, mas não briga; mistura-se facilmente aos outros, mas não se arrebanha".

"O homem superior culpa a si próprio, o inferior, culpa os outros".

"Ao homem superior é fácil servir, difícil é agradar, pois só o que é direito lhe agrada, e ele sabe empregar as pessoas de acordo com as habilidades de cada uma".

"O homem superior é sempre ingênuo e desinteressado. Cresce para cima; o homem inferior, cresce para baixo".

"O homem superior é digno, mas sem orgulho; o homem inferior é orgulhoso, mas sem dignidade".

"O homem superior passa pela vida sem nenhuma linha de ação preconcebida, sem nenhum tabu; resolve, a cada momento, a sua maneira de agir".

"O homem superior não faz questão de boa comida e boa morada; atém-se aos seus deveres e cuida de sua linguagem, e se encontra um grande homem, segue-o como a um guia. Tem o que se pode chamar a paixão de aprender".

"O devoto que pretende buscar a verdade, mas envergonha-se de comer mal e vestir-se mal, não merece que se lhe dirija a palavra".

É ainda Confúcio que afirma: "Os bonzinhos são os ladrões da virtude".

Minhas senhoras e meus senhores!

Se nos demorarmos no passado histórico do mundo, depreenderemos que data de longe a preocupação dos bons espíritos em derramarem ensinamentos salutares.

A Doutrina em marcha!

O que nos deixou Luiz de Mattos é de ontem e continua sendo de hoje, porque sua Obra aqui está em marcha, (aplausos prolongados), mas Confúcio, na China, já 500 antes de Cristo, dizia com sabedoria:

"Para galgar as culminâncias é preciso começar de baixo, e para chegar a um lugar distante é necessário dar o primeiro passo: ¾ Ser bom filho e bom irmão já é começo para ser verdadeiro homem".

Confúcio recusava-se a dar exemplo concreto do verdadeiro homem, enquanto que de "homem bom" ele certamente não se recusaria a citar modelos.

Analisando, pois, a vida de Luiz de Mattos, perante a crítica construtiva de Confúcio, e de nós outros, temos em Luiz de Mattos "o verdadeiro homem" e não apenas o "homem bom".

O Racionalismo Cristão

Sua vida, sua alma, vemo-la retratada, não na sua efígie, mas na sua majestosa Obra ¾ o Racionalismo Cristão. (Palmas demoradas)

Foi, pois, Luiz de Mattos hábil instrutor de almas, um lutador incansável, um "verdadeiro homem".

A sua desencarnação deu-se antes do tempo. Concorreram para a antecipar: a falência dos seres, a quem ele estimava como filhos, a quem ele esclarecia carinhosamente e amparava espiritualmente, sempre desejoso de vê-los progredir. Vivia ele para a Doutrina e consigo queria ver caminhando os que se diziam seus amigos. Na "A Razão", quantas noites de tremendas lutas ele passou!

A luta foi grande, quer pela pena, quer pela palavra!

Desencarnou essa alma, para entre nós continuar a lutar e, hoje, mais ainda do que quando possuindo corpo físico. (Palmas). Hoje, ela é livre e está onde é preciso estar para intuir os que demonstrem querer lutar por causas justas.

A sua Obra ainda vagamente é definida, mesmo pelos que se julgam esclarecidos e conhecedores da Doutrina. Daqui a alguns anos, será assombrosa.

As almas que encarnando vêm, quando chegada à idade do raciocínio, assombrarão os velhos sem coragem, sem força moral, para se vencerem e corrigirem nos vícios. Felizes serão aqueles que tão bela Doutrina souberem passar aos vindouros!

A homenagem oficial

Meus senhores.Associando-se às homenagens que os racionalistas cristãos estão prestando a Luiz de Mattos, por ocasião do centenário de seu nascimento, o Governo da República mandou imprimir um selo comemorativo da passagem da efeméride. (Palmas prolongadas)

É um tiquinho de papel, no qual se vê o retrato do grande espiritualista, tendo ao fundo a sede do Racionalismo Cristão, no Rio de Janeiro, e o nome de nossa Pátria irmanado ao de quem tanto a amou.

A homenagem, merecida e justa, nos comove a todos. Porque se Luiz de Mattos desencarnou brasileiro, vimos como desde a juventude amou estremecidamente a Pátria de seus filhos! (Aplausos demorados)

Aqui viveu desde os treze anos de idade, sofrendo com as incompreensões e dificuldades, amando e vibrando com todos no decorrer de suas campanhas, trabalhando e lutando pela conquista das prerrogativas de povo civilizado e progressista. (Palmas)

Como espiritualista, viveu pregando a solidariedade humana, sem fronteiras, raças ou crenças e agora sua efígie e seu nome irão a todos os povos ainda num congraçamento de idéias e interesses. (Aplausos)

É a sua Obra que continua em marcha!

Senhores!

Luiz de Mattos há de ser visto e sentido sempre através de sua grande Obra ¾ O Racionalismo Cristão! (Prolongada salva de palmas. O orador é vivamente cumprimentado).

 

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