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Luiz de Mattos

Tendo nascido em 3 de janeiro de 1860, na cidade de Chaves, em Portugal, Luiz de Mattos imigrou para o Brasil aos 13 anos de idade, desencarnando na cidade do Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1926.

Dotado de grande inteligência e de invulgar espírito empreendedor, já aos 23 anos tornava-se próspero homem de negócios, como grande comerciante de café na praça de Santos, não parando aí sua incursão pela atividade empresarial, ao fundar, entre várias companhias, uma estrada de ferro e uma de natureza financeira – o Banco de Santos.

Sua prosperidade econômica deu-lhe ensejo de mostrar o lado generoso, distribuindo, a mancheias, os recursos de que dispunha, seja como grande benfeitor de sociedades beneficentes na cidade de Santos, seja ajudando as pessoas que reconhecia carentes ou que lhe solicitavam ajuda, fazendo-o sem alarde, pois, como simples que era, não admitia que seus gestos de solidariedade humana, a todo momento manifestos, pudessem ser objeto de divulgação.

Humanista por excelência, os interesses da coletividade estiveram presentes em muitos momentos de sua vida, quando, por exemplo, abraçou, com a força da sua alma de verdadeiro cristão, a causa da abolição da escravatura no Brasil. Como abolicionista, travou uma longa batalha para ajudar os escravos a escapar de condições humilhantes e desumanas e a se estabelecerem em quilombos, que eram campos secretos, protegidos pelo movimento antiescravagista. A abolição da escravatura, com a lei que pôs fim àquela situação vergonhosa para o País, foi largamente festejada, durante dias, por Luiz de Mattos e seus amigos.

Apesar de continuar cidadão português após os muitos anos de vida no Brasil, as suas lutas em prol dos interesses do povo brasileiro fizeram-no respeitado e admirado, levando a que fosse convidado para representar o Estado de São Paulo na Câmara. No entanto, na qualidade de vice-cônsul português em Santos, considerou que não podia aceitar a honra dessa representação e, embora se sentindo brasileiro também, entendeu que devia manter sua cidadania original.

Luiz de Souza, autor de diversas obras descritivas da filosofia racionalista cristã, ao ensejo da inauguração da placa designativa da Rua Luiz de Mattos em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, Brasil, ocorrida em 24 de setembro de 1950, assim se manifestou a propósito das multiformes demonstrações identificadoras do homem simples, generoso, empreendedor e sinceramente preocupado com as questões relevantes de interesse do povo, que foi Luiz de Mattos:

"Luiz José de Moraes Mattos Chaves Lavrador, ou apenas Luiz de Mattos, como era por todos conhecido, legou aos seus familiares, sobre quem influía, os exemplos mais alevantados de amor ao trabalho, de retidão moral, de dignidade pessoal e de liberdade.

Subtraiu do seu nome a classificação de "Chaves" e "Lavrador", designativos que lembravam a sua origem de nobreza das casas fidalgas portuguesas e espanholas, e simplificou seu nome para apenas Luiz de Mattos, em consonância com a sua alma simples e humana, inteiramente devotada aos interesses dos humildes.

Luiz de Mattos foi um gigante aos olhos do povo. Sempre ao lado das causas justas, não poupava esforços, nem sacrifícios, para alcançar os objetivos que minorassem o sofrimento alheio. Desinteressado de postos, posições ou cargos de evidência, não quis ingressar nas alas do Poder Legislativo do país, para dedicar-se ao viver comum de homem do povo, despretensiosamente, à custa de sua pena de jornalista, que soube vibrar como poucos, graças aos seus excepcionais recursos de inteligência, discernimento e equilíbrio.

Foi ele um dos mais ardorosos abolicionista da época, ao lado de seus amigos imperecíveis José do Patrocínio, Júlio Ribeiro, Francisco Glicério, Campos Sales, Bernardino de Campos, Luiz Gama e outros; participou, gloriosamente, dessa imortal campanha cívica, das mais memoráveis dentre as que se feriram no passado, em nosso solo pátrio.

Por ocasião da proclamação da República, teve papel destacado no cenário dos acontecimentos, ao lado dos correligionários de Deodoro, e não se prevaleceu de coisa alguma para se beneficiar das valorosas atitudes assumidas. O seu ideal resumia-se em ver vitoriosa uma causa que lhe pareceu a melhor para o bem do Brasil, não lhe passando nunca pela mente o propósito de colher para si vantagem de qualquer espécie, em troca dos gestos decisivos de sua ação patriótica.

Cavalheiro, educado, estudioso, letrado, revelou-se um hábil e esclarecido conselheiro em todos os transes difíceis por que atravessara o país nos seus dias. Oliveira Botelho, Hermes da Fonseca, Rui Barbosa e Epitácio Pessoa conheceram-lhe o valor dos sábios conselhos ou das acertadas previsões.

Benemérito de índole, de quanto dava não queria que se fizesse alarde, mas os beneficiados não se podiam conter e, assim, numerosos feitos humanitários vieram à tona e se tornaram públicos. Homem de recursos, foi sócio benfeitor de várias associações de caráter altruístico. Grandes porções de seus haveres ele as distribuiu com os necessitados. Não resistia à dor de assistir o sofrimento alheio sem que não se movesse, prontamente, com o fim de aliviar o aflito; tudo quanto tivesse em mão ia em socorro imediato; não poucas vezes voltava ao lar sem um real nas algibeiras, mas com a alma transbordante de alegria, por haver propiciado benefícios. Na sua alma não se aninhava o rancor. Teve desilusões, e grandes, foi muitas vezes traído e ludibriado, mas soube desculpar e esquecer.

Luiz de Mattos contribuiu, com vigorosa parcela, para enriquecer as páginas de ouro de nossa história. A sua memória é evocada pelos que conhecem a sua passagem luminosa pela Terra, com admiração profunda e não menor respeito. A sua vida foi um repositório farto de exemplos edificantes. A sua conduta, sempre firme e corajosa, valia como barreira contra qualquer opressão. Aqueles que viviam do suor do rosto, em esforço braçal, encontravam, nesse defensor, a segurança de um apoio que não faltava. Era, por isso, quase venerado nos meios populares dos homens de trabalho rude. A sua lembrança não se apagará jamais. ..."


Luiz de Mattos, como livre pensador, não se filiou a nenhuma religião, pois prescindia de qualquer delas para balizar a conduta do homem honrado, respeitador do seu semelhante, solidário com a dor dos que sofriam, como verdadeiro cristão que era. A sua noção de honra e de valor pessoal, intangíveis, levava-o a não aceitar o que diziam determinados religiosos e respectiva doutrina, que Jesus Cristo teria oferecido a outra face como prova de sua humildade, pois esse nobre atributo espiritual jamais poderia implicar, no seu entendimento, na aceitação do gesto vil de ofensa de tal natureza, justificado no objetivo, de quem a realiza, de humilhar o ofendido.

Um dia, chegados os cinqüenta anos de idade, sofreu Luiz de Mattos um ataque cardíaco e, durante dias seguidos, tudo o que viu foi um túmulo frio como prenúncio da morte. Começou a ponderar sobre as razões da existência do ser humano, pois não podia aceitar que viver seria somente o que via com os olhos da matéria. Deveria haver alguma coisa além da vida física. Talvez houvesse uma alma, mas, indagou-se: o que seria ela?

Recuperado da saúde, Luiz de Mattos atendeu a um convite feito por Luiz Thomaz, a quem conhecera na casa comercial de um amigo comum, de irem os três a um centro espírita na cidade de Santos, e poder examinar o que seu médico, Dr. Oliveira Botelho, afirmava: que só o espiritismo como ciência poderia explicar certas enfermidades para as quais a Medicina materialista não tinha remédio. Resolveu, finalmente, iniciar os estudos que acabaram por fornecer-lhe as bases para a defesa do espiritismo como ciência, e não como fruto de noções de natureza mística, inexplicáveis cientificamente.

Ao instituir o Racionalismo Cristão como filosofia espiritualista assentada no verdadeiro cristianismo, Luiz de Mattos estava convencido de que a felicidade da humanidade somente poderia ser alcançada com a substituição do materialismo, base de seitas e religiões, pelo espiritualismo, fundado em princípios racionais e cristãos.

O respeito que Luiz de Mattos sempre devotou ao seu semelhante levou-o a firmar, como questão fundamental na difusão da doutrina racionalista cristã, o acatamento ao livre-arbítrio das pessoas, jamais impondo o código de conduta cristã que defende, diferentemente das seitas e religiões, que se importam mais com a adesão conquistada tantas vezes pela imposição, que submete, em razão do temor dos castigos pela não-aceitação do que elas prescrevem.

Fato inegável é que, com seu código de disciplina racionalista cristã, Luiz de Mattos abriu ensejo a uma nova mentalidade que se expande dia a dia, engrossando as fileiras daqueles que, em número crescente, vêm rompendo os grilhões de crenças e misticismos que repudiam a razão, passando a entender e a agir sob a convicção de que cada criatura humana deve se conduzir de forma a refletir seus reais sentimentos espirituais.

Luiz de Mattos foi muito hábil em apresentar os princípios racionalistas cristãos de forma simples e prática, pois, assim fazendo, permitiu que os mesmos estivessem ao alcance de qualquer mentalidade. A simplicidade com que são descritos esses princípios, deixando patente o desvalor da linguagem de afetação, fizeram com que fossem facilmente compreendidos por todas as camadas sociais. Desses princípios deve-se dizer, por último, que uma das suas grandes virtudes é poderem ser resumidos em uma única palavra: CONDUTA.

 

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