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Francisco Augusto Regala
(Presidente Astral da Filial Monte Sossego do Racionalismo Cristão, São Vicente, Cabo Verde)

Pode-se afirmar, sem receio de desmentido, que não há em São Vicente, um homem ou mulher do povo, como, aliás, de outras classes, que não devesse um favor ao Doutor Regala. (Notícias de Cabo Verde, edição de 15 de abril de 1937)

Há um estranho e poderoso fascínio na terra cabo verdiana, uma espécie de sortilégio que prende aqueles que, vindos de outras paragens, pelas mais diversas razões, nela algum dia tiveram uma experiência vivencial de certa duração, ou mesmo episodicamente fugidia. Prova disso, é a história tantas vezes repetida e quantas vezes renovada do cabo verdiano adotivo, daquele que, embora nato e criado noutras latitudes, ganhou afeição a estas ilhas, nelas lançando raízes e passando a amá las devotadamente, envolto pela MORABEZA da nossa gente, traço que tem sido e continua a ser enaltecido por personalidades estrangeiras, desde Archibald Lyall a Julião Quintinha, Augusto Casimiro, José Osório de Oliveira e, mais modernamente Manuel Ferreira, que tão bem soube penetrar a nossa idiossincrasia e interpretar o fenômeno de cabo verdianidade.

Foi esse o caso do Doutor Francisco Augusto Regala que, tendo vindo do Norte de Portugal (Aveiro) para Cabo Verde, por imposição de serviço, passou a viver definitivamente nesta ilha de São Vicente, aqui constituindo família e aqui morrendo, em 1937, contando 66 anos. No dia 11 de abril último, passou o qüinquagésimo sexto aniversário da sua morte, efeméride que pretendemos assinalar neste despretensioso perfil biográfico, pelas razões que aduziremos adiante. Na fugacidade do tempo que velozmente passou, para muitos dos seus contemporâneos viventes parece que foi ainda ontem que ele morreu. Mas, para as duas gerações que se seguiram, principalmente os jovens da faixa etária que vai até aos quarenta anos, possivelmente nem o eco esbatido do seu nome lhes chegou, num confrangedor e imerecido olvido! O Doutor Regala, como era conhecido, tinha chegado, muito novo ainda, a Cabo Verde, no primeiro quartel deste século, para exercer funções de médico, graduado em oficial subalterno do Exército, como era uso e costume naqueles tempos. O jovem tenente viria a atingir o alto posto de coronel, e nessa qualidade, como oficial de patente mais elevada residente na cidade do Mindelo quando da revolução do "Capitão" Ambrósio, no mês de junho de 1934, desempenharia, junto do povo amotinado e das autoridades civis e militares locais, uma ação apaziguadora de ânimos, que evitou o agravamento da sublevação e, possivelmente, contribuiu para salvar vidas. Fardado de branco, ostentando no peito o Colar de Santiago que o povo lhe oferecera, saiu para a rua e conseguiu serenar os espíritos exaltados com as suas palavras generosas, amigas, mas firmes. Ao tempo da sua chegada a estas ilhas, Cabo Verde e Guiné constituíam um Quadro único de Saúde. Por isso, teve de repartir a sua atividade entre as duas Províncias, de então. Em qualquer delas, a sua atuação como médico foi relevante. Mas seria principalmente a esta ilha de São Vicente que o Doutor Regala haveria de render serviços inestimáveis, fazendo todos nós contrair uma dívida de eterna gratidão, que se saldou, em parte, com o levantamento do busto que se ergue, acinzentando o ar, na Praceta que tem o seu nome, próximo da embocadura da rua que conduz ao Hospital Velho, onde exerceu a profissão de médico durante anos, com rara proficiência, dedicação e espírito de sacrifício, que lhe granjearam o respeito e a amizade de todos os mindelenses e não só. Exercia as suas funções num verdadeiro sacerdócio. O nome dele, milhares e milhares de vezes abençoado pelo povo anônimo e pronunciado com verdadeira veneração, chegava a todos os cantos do Arquipélago, envolto numa aureola de simpatia, admiração e afeto, que espontaneamente nasciam em todos quantos o conheciam ou experimentavam de perto a excelência do seu saber e o seu fino trato de gentleman. Quanto aos doentes, assistia lhes com reconhecida competência, observando os, medicamentando os, e assistia os com rara devoção, acompanhando os carinhosamente, na evolução nosológica dos seus males. Chegava a dar consulta a gente pobre, em plena rua, e não era raro vê lo sentado, nas suas horas de lazer, à porta do "CENTRAL", uma pastelaria chique da época, fundada por Pedro Bonucci e João Leça, que fica onde se instala hoje a conhecida Drogaria do Leão, rodeado de pacientes da "pobreza" que o iam procurar lá e a quem ele atendia, receitando, sempre com uma palavra de encorajamento. Sim, a marca mais dominante do seu caráter era decerto uma grande bondade, que ele prodigamente extrovertia em benefício de todos aqueles que precisassem da sua ajuda. Mas era principalmente a classe pobre a sua grande protegida. Essa foi a sua maior virtude. Levava até ao seio da população anônima o seu carinho e seu zelo, a sua proverbial abnegação.

O ponto culminante da carreira do Doutor Regala coincide com o horroroso deflagrar da peste bubônica que flagelou a ilha de São Vicente, logo no início da segunda década do século, entre 1920 a 1921. Esse surto epidêmico, de proporções graves, generalizou se dentro de pouco tempo e ameaçou subverter a ilha numa onda de morte. O bacilo que causa essa doença, descoberto em 1894, em Hong Kong, pelo microbiologista francês Alexandre Yersin, deve ter cá chegado através do Porto Grande, que acabou por ser interdito à navegação. O Liceu Infante D. Henrique também fechou a suas portas. Havia pânico. Inicialmente não se tinha identificado a doença. Ocorriam mortes inexplicáveis até que a atenção dos técnicos de saúde foi chamada para o aparecimento de intumescência dos gânglios linfáticos da virilha das vítimas. Era o bubão denunciador! Daí ao diagnóstico correto foi um passo: estava identificada a execranda calamidade. A parte difícil ia começar agora: era preciso fazer se o controle do mal, travando a sua propagação.

Nesta conjuntura, o Doutor Regala não se poupou a esforços e tomou sobre os seus ombros essa responsabilidade. Só quem não conheça a cidade do Mindelo, a sua vida promíscua, os seus inúmeros problemas higiênicos e sanitários, na época, como se pode calcular, ainda mais graves, pode duvidar do esforço, do heroísmo, - diríamos melhor -, que tal responsabilidade acarretava. Mas o Doutor Regala consubstanciava no momento o conhecido aforismo inglês, the right man in the right place, pois iria demonstrar a sua competência e prodigalizar os seus cuidados. A peste bubônica encontrava um adversário à medida, alerta, que, denodadamente, iria travar um combate com ela até à sua completa extinção. O Doutor Regala multiplicava se numa atividade constante. Produziu mais do que humanamente seria de esperar: ministrava socorros aos atingidos, estava presente à cabeceira dos moribundos e procurava, ao mesmo tempo, neutralizar a marcha acelerada do flagelo. Com os fracos recursos médicos e medicamentosos existentes então, operou um verdadeiro milagre.

Por fim, ao longo de trabalho incansável e inúmeros sacrifícios, a peste bubônica cede. O Doutor Regala tinha saído triunfante duma luta que pusera à prova aquilo que de melhor encerrava a sua grande alma: alta consciência do dever, espírito de altruísmo e dedicação extrema e incondicional à saúde e ao bem públicos.

Vencida a batalha contra a peste bubônica, esta cidade do Mindelo, jubilosa e agradecida, promove lhe uma homenagem, e de todos os pontos de Cabo Verde lhe chegam testemunhos de afeto e de gratidão através de cartas e telegramas. Mas a homenagem que mais deve ter sensibilizado o Doutor Regala foi aquela que o povo lhe prestou no dia 3 de outubro de 1931: por iniciativa duma comissão integrada pelos cidadãos mais representativos do Mindelo, foram adquiridas, por subscrição pública, as conderações que tinham sido recentemente conferidas ao distinto médico pelo Governo Central. Tratava se do Colar de Santiago e respectiva Roseta. A Comissão, à frente de centenas de pessoas de todas as condições sociais, foi à casa dele oferecer lhe as referidas veneras, adquiridas com o produto da subscrição. Falou o Professor Alberto Leite. Lida uma mensagem alusiva, em que se punham em relevo os serviços valiosos prestados pelo homenageado à população, foi ovacionado e cumprimentado pelos presentes, que exteriorizavam, desse modo, a sua gratidão. Ninguém podia prever, nesse dia de festa e público regozijo, que a morte arrebataria o Doutor Regala subitamente, meia dúzia de anos mais tarde, vítima duma apoplexia, precisamente no dia 11 de abril de 1937, - um domingo cheio de sol -, contando 66 anos de idade, robusto aparentemente, mas já minado pela doença. Tempos antes, sofrera dois acessos de que se recompusera. Porém, o falecimento, quinze dias atrás, de seu filho Mario, a quem amava estremecidamente, deixara o muitíssimo

. Nesse domingo ensolarado e fatídico, o Doutor Regala tinha ido ao cemitério visitar a campa do filho. Sabe se que a família quis dissuadi lo de fazer essa romagem de saudade, receando o pior, mas em vão! O pai inconsolável teimou em ir. Era impossível detê-lo. Lá foi, num dos poucos automóveis existentes na época, e, já no cemitério, apoiado em sua bengala e amparado pelas suas filhas mais novas, aproximou se da sepultura. Repentinamente, o Doutor Regala cai, fulminado! Transportado a toda a pressa para casa, e apesar de prontamente assistido por colegas que a ela acorreram de imediato, o ilustre clínico morre pouco tempo depois, rodeado pela esposa, pelas filhas, pelo seu genro, Dr. Vicente Rendall que casara recentemente com uma delas, D. Armanda, e por um grupo de amigos íntimos.

O seu funeral, cerimônia de grande e comovente solenidade, muito concorrido, em que se incorporaram representantes de quase todas as instituições de Cabo Verde, foi uma grande manifestação de pesar. A juventude mindelense estava representada por delegações de alunos do Liceu, dos Falcões e dos Boy Scouts, as duas últimas sendo organizações cívicas de grande projeção. Abria o cortejo o pároco da freguesia, Rev. Artur Nunes, de cruz alçada. A Câmara Municipal de São Vicente, de que o Doutor Regala fora anteriormente presidente, fez depor sobre o seu ataúde coberto de flores uma coroa em cujas fitas estavam gravadas as seguintes palavras: "AO BENEMÉRITO DOUTOR FRANCISCO AUGUSTO REGALA, SAUDOSO PREITO DO MUNICÍPIO E DA CIDADE DO MINDELO".

Atrás da carreta mortuária, o Dr. Armando Bonucci Veiga, Oficial do Exército e Professor de Liceu, transportava uma almofada de cetim sobre a qual se viam as inúmeras condecorações do extinto. Entre elas destacava se o imponente Colar de Santiago, jóia que ele especialmente estimava, por ter sido essa que seis anos antes, no dia 3 de outubro de 1931, como se disse atrás, o povo lhe fora oferecer em sua casa, adquirida por subscrição pública.

Ainda na véspera da sua morte, dera consultas na sua residência, gratuitamente, como sempre, à gente pobre a humilde. O Notícias de Cabo Verde, na tiragem do dia 15 de abril de 1937, quatro dias depois do triste desenlace, escrevia o seguinte: "Pode se afirmar, sem receio de desmentido, que não há em São Vicente um homem ou mulher do povo, como, aliás, de outras classes, que não devesse um favor ao Dr. Regala".

Logo a seguir ao enterro, lançou se a idéia de se abrir uma subscrição pública cujo "produto" se destinasse a perpetuar a memória do ilustre médico, num monumento evocativo. Assim, acabou por ser criada a "Comissão Pró Monumento ao Dr. Regala", constituída logo a 1 de maio seguinte. Foi presidente dessa Comissão o Dr. Baltasar Lopes da Silva, então um jovem brilhante professor e advogado de 30 anos, que, com o seu dinamismo, levou a bom termo essa incumbência.v Com o montante que resultou das contribuições dadas tanto pelo mais carente e humilde cidadão como pelo mais abastado - (houve dádivas que variaram de 1$00 a 2.000$00) -, encomendou se em Lisboa o busto do saudoso e benemérito facultativo. Este busto ainda lá está, de face voltada para o Poente, no largo fronteiro à avenida que conduz ao Hospital Velho, casa que foi palco de tantas ações meritórias praticadas pelo DOUTOR FRANCISCO AUGUSTO REGALA. O busto atesta, sem dúvida, o reconhecimento da ilha de São Vicente. Mas é uma parte, - só uma pequena parte -, das homenagens que se lhe devem, por direito próprio.

E, por falar nisso, aqui fica um veemente reparo e um URGENTE apelo a QUEM DE DIREITO, no sentido de se tirar quanto antes da degradação em que está a Praceta onde se levanta o monumento, bem como a peanha ou plinto onde assenta, fazendo se um arranjo urbanístico condigno. Porque não o fazer e deixar as coisas como estão atesta a nossa... INGRATIDÃO!

E, como diz o povo, a INGRATIDÃO... dói!

Ainda mais: para que se não repita novamente em África, 2.000 anos depois, o célebre desabafo do Cônsu1 Cipião Africano, o conquistador de Cartago, referindo se ao ESQUECIMENTO em que Roma o fizera cair, desgostoso, por lhe ter prestado relevantes serviços: "INGRATA PATRIA OSSA MEA NON POSSIDEBIS"...

Francisco Lopes da Silva

Mindelo, 20 de novembro de 1993

(Colaboração de Manuel Rocha, fevereiro de 2007)

 

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