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Augusto Gomes da Silva

Glaci Ribeiro da Silva


(1904-1976)
   [...] De Santos (SP), passou a residir em São Paulo e a trabalhar nesta Casa o Dr. Augusto Gomes, que posteriormente se formou em Medicina e fundou o Centro Redentor - Filial da importante cidade de Campinas (SP). Sua esposa, Sra. Maria Dráusia Ribeiro Gomes; o pai desta, o Professor Leodegário Varejão; o Dr Sinforiano Sóstenes Ribeiro Varejão e Esposa, Sra. Aurora Mendes Varejão, que conheceram pessoalmente Luiz de Mattos, Maria Thomásia e Luiz Alves Thomaz, no Filiado de Santos [...] (Humberto Romanelli, no livro Racionalismo Cristão em Marcha em S.Paulo, p. 42).

Meu pai, Augusto Gomes da Silva, filho de João Pereira da Silva e Joanna Martins Gomes da Silva, nasceu em Pernambuco, na cidade de Cabo atualmente, Cabo de Santo Agostinho) no dia 31 de agosto de 1904. Posteriormente, seguindo o exemplo de outros racionalistas cristãos, inclusive do próprio Luiz de Mattos, simplificaria seu nome para Augusto Gomes.

Filho mais novo de uma família numerosa, viu-se após a morte dos pais responsável por suas irmãs ainda solteiras. Para melhorar a situação financeira e ajudar as irmãs, decidiu ir para Santos procurar sua tia Rosa Martins Gomes Varejão, que havia se casado com um viúvo também pernambucano e originário da mesma cidade onde ele nascera. O marido de sua tia – Leodegário Ribeiro Varejão –, era professor, escrevia versos, tocava piano, falava fluentemente o francês e era dono do Colégio Cruz e Souza, um externato misto que ficava na Rua Rangel Pestana.

Aceitando o convite da tia, ele passou a morar com o casal e a lecionar nesse colégio. Sempre almejou ser médico, mas como em Santos não houvesse ainda faculdade de medicina, diplomou-se em odontologia, profissão essa que nunca se interessou em exercer.

Em 1928, casou-se com Maria Dráusia, filha caçula de Leodegário e de sua primeira esposa. Após o casamento, continuou morando na casa do sogro, porém nunca se sentiu à vontade, visto que Leodegário – um homem genioso e autoritário, jamais o perdoara por ter atrapalhado seus planos de casar sua filha com um de seus amigos – um espanhol rico e já de certa idade.

Foi o rancor surdo, que o sogro não conseguia dissimular, o principal motivo que o fez eliminar o sobrenome Varejão dos seus quatro filhos. E, até mesmo Maria Dráusia, decidiu retirá-lo passando a assinar-se somente Ribeiro da Silva, sendo Silva, o sobrenome do marido e, Ribeiro, um dos sobrenomes de sua família paterna. [Nota: Na epigrafe desse artigo houve um engano no sobrenome de Maria Dráusia; ele foi corrigido posteriormente no livro "O Racionalismo Cristão em Marcha".].

Em 1930, o casal mudou-se para São Paulo livrando-se assim do ambiente tenso e desgastante que há muito vinham suportando. Na capital paulista, enfrentaram um reinício de vida muito difícil; o dinheiro era curto e foram morar num quarto de pensão onde, em 1931, eu nasci. Nessa época, Papai já trabalhava como escriturário da Segurança Pública Estadual, mas seu salário era tão irrisório que ele somente conseguiu registrar meu nascimento em 1933.

Papai amava São Paulo mas nunca perdeu sua identidade de nordestino; e, como a maioria deles, sempre foi um batalhador destemido e incansável. Naquela época, seu principal objetivo era tirar sua família daquela pensão e alojá-la numa casa que, embora simples, pudesse ter mais espaço e viver com privacidade.

Foi tanto a sua dedicação, tão desvelado, tão intenso o ardor com que se atirou ao trabalho, que esse sonho se concretizou tempos depois quando adquiriu em Guaiaúna – na época um subúrbio pobre da zona leste de S.Paulo –, uma casinha humilde; ficava no alto de um morro; não tinha água encanada sendo esta fornecida por um poço artesiano; para poupar Mamãe, todas as manhãs, antes de tomar o trem para São Paulo, ele já deixava a casa toda abastecida de água.

Papai era escravo dos seus deveres e vivia exclusivamente para a família. Era metódico, disciplinado e de uma bondade sem limites. Brincava alegremente com os filhos mas ensinava-lhes também, tudo quanto era preciso para enfrentar o lado prático da vida.

Homem de visão e previdente em relação ao futuro, esmerou-se na educação e instrução dos filhos; costumava dizer que antes de desencarnar queria deixar todos eles formados; e, de fato, a custa de muito sacrifício conseguiu realizar seu intento. Essa foi à herança que ele deixou aos filhos – nos deu o anzol deixando que cada um de nós fizesse sua própria pescaria.

Papai foi um homem à frente de seu tempo, um verdadeiro visionário que sempre defendeu os direitos da mulher. O texto abaixo foi transcrito do meu álbum de recordações e escrito por ele quando completei quinze anos. Ao escrevê-lo, Papai parecia prever que, muitos anos depois, graças a Independência (com "i" maiúsculo como ele sempre enfatizava) que ele me facultou conquistar, eu seria capaz de, sozinha, criar meus três filhos; e, principalmente fazer deles pessoas íntegras e úteis para a sociedade.

[...] Faça, em época oportuna, uma boa escolha e dispense generosamente o "emprego de marido". Para isso, faculto-lhe obter uma profissão liberal que lhe dê a verdadeira Independência, o que significa entrar em igualdade de condições na sociedade conjugal, precavendo-se de uma má e impensada preferência ou de uma revelação vindoura. Expresso-me assim, por falar a uma moça e com a minha franqueza, só posso desejar um bom futuro, igual ao que todas as moças almejam: c a s a m e n t o – mas, ...em tempo oportuno. Conquiste pois, antes de tudo, sua INDEPENDÊNCIA. [...].

A família de Augusto Gomes era profundamente católica; e, em Recife, Papai foi aluno de um colégio dirigido por padres. Na adolescência, porém, após questionar os dogmas e mitos religiosos, decidiu abandonar o catolicismo, tornando-se um livre-pensador, fazendo de sua religião a moral cristã, a família e o cumprimento do dever.

Em 1910, Luiz de Mattos tinha feito em Santos uma larga campanha de difusão dos princípios racionalistas escrevendo uma série de artigos na "Tribuna". Papai teve acesso a eles através de seu cunhado – Sinforiano Sóstenes Ribeiro Varejão; este também lhe emprestou, vários números do "A Razão" que Luiz de Mattos havia fundado no Rio, em 1916.

Entusiasmado com a lógica dessa nova filosofia de vida, decidiu estudá-la melhor; fez isso, freqüentando assiduamente as sessões da Casa Berço e lendo livros racionalistas cristãos. Compreendida a Doutrina, a ela se entregou de corpo e alma, sem a menor vacilação, pois percebeu que finalmente encontrara a Verdade.

Em 1935, a Casa-Chefe do Racionalismo Cristão atendendo ao pedido de Antônio de Ornelas Flor, autorizou a fundação de um Correspondente da doutrina na capital paulista – a cidade de São Paulo. Mas, esse correspondente não teve infância, pois graças à atuação dinâmica e incansável do seu fundador, no curto prazo de poucos meses alcançou um desenvolvimento tal, que a Casa-Chefe em 24 de março de 1936, achou por bem elevá-lo à categoria de Filial. Esta, recebeu o nome do bairro onde estava localizada, ou seja, Filial Santana do Centro Redentor.

Papai teve notícia dessa auspiciosa nova, através da correspondência que mantinha com Titio Sinforiano. Pouco tempo depois, ele conseguiu vender a casa da Guaiaúna e mudamos para Santana; ali, fomos morar numa casa muito grande, na rua Pedro Doll; onde, Papai e Titio - que também mudara para São Paulo, instalaram suas famílias. E, nesse mesmo imóvel, esses dois amigos inseparáveis, fundaram um externato misto – o Colégio Mont'Alverne, onde começaram a lecionar.

Depois de devidamente instalados, todo esse grupo começou a militar na Filial Santana; nele, estavam incluídos Leodegário Ribeiro Varejão e sua esposa, Rosa Martins Gomes Varejão que, no entanto decidiram morar em um outro endereço.

Na organização da Primeira Diretoria do Centro Redentor, Filial Santana, Papai foi escolhido como Segundo Secretário.

Muitos são os fatores que levaram ao surgimento da Escola Paulista de Medicina (EPM) tais como o crescimento populacional, a industrialização da cidade nas primeiras décadas do século 20, o sistema do vestibular até então vigente, o sistema de cátedras da Universidade de São Paulo (USP) que restringia os círculos acadêmicos a poucos profissionais, gerando descontentamento entre os médicos com condições de lecionar mas sem espaço, etc.

Sob a liderança de Otávio de Carvalho, reuniram-se então vários médicos daquela época, com a intenção de fundar uma nova escola médica em São Paulo.

O evento deflagrador foi o vestibular para a Faculdade de Medicina da USP em 1933, quando muitos estudantes aprovados foram considerados excedentes e sem a possibilidade de efetivarem a matrícula. Otávio de Carvalho convidou, então, esses mesmos estudantes a se matricularem na nova escola que estava nascendo.

Nos anos de 1935/1936 a EPM começou a funcionar em Vila Clementino, mas as primeiras turmas viviam na incerteza acerca da validação do seu diploma; esta só foi dissipada em 1938 com o reconhecimento da nova escola pelo Governo Federal.

Papai fez parte da turma de 1944 da EPM; ele era chamado carinhosamente de Vovô por seus colegas, pois tinha 40 anos e era pai de quatro filhos; naquele tempo, eu tinha 13 anos e ainda me recordo emocionada quando vi meu Pai receber seu diploma no Teatro Municipal.

A EPM era uma escola particular e para arcar com mais essa despesa, Papai – sempre ativo e trabalhador – passou a representar uma firma alemã que fabricava produtos de borracha, e a divulgar produtos de um laboratório farmacêutico em consultórios médicos. Durante seu curso, ele convivia muito pouco com a família e Mamãe ficou sobrecarregada. Ela porém, nunca se queixou, pois sempre apoiou o marido, ciente que a compreensão é o elo mais forte de uma união conjugal.

A formatura de Papai foi um marco importante para todos nós; depois dela nosso status social mudou; o mesmo aconteceu com nossa situação financeira, pois Papai ocupava agora na Segurança Pública o cargo de Médico; além disso, ele mantinha um consultório em casa e, sempre que possível, Mamãe o ajudava, recebendo os clientes ou agendando consultas. Todos esses fatos, porém, não influenciaram o modo de ser e de viver que sempre tivemos – continuamos sendo pessoas simples e sem sofisticações.

Geralmente o médico recém formado tem dificuldade de arrumar clientes, pois sendo jovem não inspira confiança. Papai não precisou enfrentar tal problema e, em poucos anos, formou uma clientela muito boa. Para bem atendê-la estudava para se manter atualizado; e tudo assimilava com facilidade por ser muito inteligente e possuir senso prático.

Os anos e as décadas passaram na voragem do tempo; os filhos ficaram adultos; foram tomando seu rumo e meus pais ficaram sozinhos: eu fui para os Estados Unidos fazer pós-graduação; minha irmã, havia muito tempo já morava naquele país; e, meus dois irmãos, estavam em Piracicaba; o mais velho, estudando agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e, o mais novo, trabalhando como economista em um Banco.

Enfrentar a chamada Síndrome do Ninho Vazio é sempre muito doloroso para os pais; particularmente, para as mães; e, Mamãe sofreu muito com isso. Para tentar resolver essa situação, que também o afetava, Papai se aposentou da Segurança Pública e o casal mudou-se para Campinas – uma excelente cidade do interior paulista que não distava muito de Piracicaba e onde não havia ainda uma Casa racionalista cristã.

Papai já tinha planos de iniciar em Campinas um núcleo de estudo da Doutrina; visando isso, alugou uma casa numa avenida movimentada, que ficava próxima do terminal rodoviário e do centro da cidade. Esse imóvel tinha um quintal grande e nele Papai mandou construir um barracão coberto, com pé direito alto no mesmo molde adotado por Antônio Flor nos primórdios da Filial Santana.

Devidamente autorizado pela Casa-Chefe foi realizado no dia 12 de janeiro de 1964 a primeira reunião do Correspondente do Racionalismo Cristão em Campinas. Seu primeiro Presidente foi Augusto Gomes e, na sua gestão, foi adquirido o terreno da Avenida Brasil, 310 e dado início à construção do edifício sede da Filial do Racionalismo Cristão. Ela foi inaugurada no dia 19 de julho de 1970. No livro O Racionalismo em Marcha é narrado esse episódio, bem como o histórico da cidade de Campinas.

Papai divulgava o Racionalismo Cristão em Campinas através de pequenas notas que publicava semanalmente no "Correio Popular". Além disso, com autorização da Casa-Chefe, ele, Titio Sinforiano e Mamãe percorriam as cidades do interior paulista que já possuíam Correspondentes, para tirar dúvidas e orientar seus militantes sobre a disciplina da Doutrina.

Augusto Gomes desencarnou em Campinas, no ano de 1976, na mesma data em que nasceu. Tinha completado nesse dia 72 anos; concorreram para essa desencarnação prematura os vários enfartes cardíacos que teve devido a diabetes.

Algum tempo após sua desencarnação, ele assumiu a Presidência Astral da Filial Campinas em substituição a Júlio Prestes. Em 31 de dezembro de 2003 esse valoroso espírito ascendeu a planos mais elevados e foi substituído nessa função espiritual por Kelson Valente Serra.

Bibliografia

Alves, Martins José. Prefácio. In: Saber Viver: lições de uma longa vida, de Pompeu de Aquino Cantarelli. Ed. Centro Redentor, 2a ed., p. 19, 2003.

Filial Centro Redentor de Campinas. In: Memorial de Antônio Cottas: sua obra, sua pena e sua voz. Casa Chefe do Racionalismo Cristão, 1a ed., 1994, p. 57; 1994.

Filial Centro Redentor de Santana. In: Memorial de Antônio Cottas: sua obra, sua pena e sua voz. Casa Chefe do Racionalismo Cristão, 1a ed., p. 79; 1994.

Inauguração da Casa Racionalista de Campinas. In: O Racionalismo Cristão em Marcha. vol. 4, p. 203-258, 1974.

Fotos da Filial Centro Redentor de Campinas. In: Memorial de Antônio Cottas: sua obra, sua pena e sua voz. Casa Chefe do Racionalismo Cristão, 1a ed., p. 170; 1994.

Site pessoal da autora: www.glaciribeirodasilva.med.br

(Fevereiro de 2009)

 

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