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A implosão da mentira

Colaboração de José Maurício Kimus Dias

1. Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completa/mente. E mentem de maneira tão pungente, que acho que mentem sincera/mente. Mentem, sobretudo, impune/mente. Não mentem tristes. Alegre/mente mentem. Mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente. Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam. E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas. Sei que a verdade é difícil e para alguns é a cara e escura. Mas não se chega à verdade pela mentira nem à democracia pela ditadura;

2. Evidente/mente a crer nos que me mentem uma flor nasceu em Hiroshima e em Auschwitz, havia um circo permanente. Mentem. Mentem caricatural/mente: mentem como a careca mente ao pente, mentem como a dentadura mente ao dente, mentem como carroça à besta em frente, mentem como a doença ao doente, mentem clara/mente, como o espelho transparente. Mentem deslavada/mente, como nenhuma lavadeira, mente ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente. Mentem ardente/mente como um doente nos seus instantes de febre. Mentem fabulosa/mente como o caçador que quer passar gato por lebre. E na trilha da mentira, a caça é que caça o caçador com a armadilha. É assim cada qual mente industrial/mente, mentem partidária/mente, mentem incivil/mente, mente tropical/mente, mente incontinente/mente, mente hereditária/mente, mente, mente e mente e de tanto mentir tão brava/mente constroem um país de mentiras diária/mente;

3. Mentem no passado. E no presente passam a mentir a limpo. E no futuro mentem nova/mente. Mentem fazendo o sol girar em torno à Terra medieval/mente. Por isso, desta vez, não é Galileu quem mente, mas o tribunal que o julga herege/mente. Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o oriente pudesse descobrir, de mentira, um continente. Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso iludindo a corrente em curso, transformando a história do país num acidente de percurso;

4. Tanta mentira assim industriada me faz partir para o deserto penitentemente, ou me exilar com Mozart musicalmente em harpas e oboés, como um solista vegetal que sorve a vida indiferente. Penso nos animais que nunca mentem, mesmo quando tem um caçador à sua frente, penso nos pássaros cuja verdade do canto nos toca matinalmente. Penso nas flores cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente. Penso no Sol que morre diariamente jorrando luz, embora tenha a noite pela frente.

5. Página branca onde escrevo, único espaço de verdade que me resta, onde transcrevo o arroubo, a esperança, e onde tarde ou cedo deposito meu espanto e medo. Para tanta mentira só mesmo um poema explosivo-conotativo, onde o advérbio e o adjetivo não mentem ao substantivo, e a rima rebenta a frase numa explosão da verdade. E a mentira repulsiva se não explode para fora, para dentro explode implosiva.

Retirado do Jornal Novo Rumo, da Polícia Rodoviária Federal, fevereiro de 2002
Colaboração de José Maurício Kimus Dias, 26/4/2002

 

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