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Quando fala por nós "o inimigo oculto"

Julio Cesar do Nascimento

Praticar os princípios espiritualistas explanados pela Doutrina racionalista cristã vai desenvolvendo com o passar dos anos uma maneira de ser e de ver o mundo coerente com os mesmos. Porém, o que praticamos e a visão que temos é a nossa interpretação de tais princípios, que pode aqui ou acolá, ser menos fiel à verdade que estes explanam, conforme esta nossa capacidade de interpretar seja mais ou menos aperfeiçoada.

Aperfeiçoar a nossa capacidade de interpretar a verdade pressupõe disposição para raciocinar e agir. Raciocinar sobre os fatos da vida, comparando-os com os princípios que buscamos aprender, agir na luta contra o que acreditamos ser em nós imperfeições que nos afastam da evolução, evolução esta que reconhecemos alcançaremos com a obediência as leis espirituais.

Cada momento vivido no mundo Terra é para o espírito uma fonte de relevantes experiências, pois, enquanto este segue acoplado à matéria mais densa, temos através do exercício da vontade e do livre-arbítrio que ordenar os pensamentos e atos, para que estes estejam em consonância com os princípios norteadores da evolução. A evolução nesta fase da existência onde a Força (espírito) se acopla à matéria mais densa (corpo físico) é ditada pela capacidade posta em ação, para com equilíbrio exercermos as faculdades despertas da vida espiritual.

Como todos os momentos vividos são potencialmente importantes, o aproveitamento pleno de uma encarnação deveria ser raciocinar e agir com base na consciência de cada um destes, ocorre que a matéria é por natureza inerte e o é tanto no sentido físico quanto no metafísico. Por conta desta sua propriedade mantém-se na direção ou inação que lhe deu a partícula da Força, até que esta a reoriente.

E o que vem a ser esta inércia? A ciência oficial ainda investiga sem uma conclusão cabal sobre a natureza da inércia da matéria. Ainda o faz sob os aspectos físicos, dentre estes o energético, mas, como pretendemos aqui desdobrar, mais do que no princípio físico, uma manifestação secundária, a matéria é inerte no princípio metafísico.

A ação da Força sobre a matéria a vivifica, dá sentido e propósito à sua existência e nesta assunção do propósito, o raciocínio de cada espírito encarnado é o maestro que imprime a direção que a matéria vivificada toma na sinfonia da existência.

Um maestro no exercício da regência, para que os músicos estanquem de súbito uma nota, deixa cair a batuta executando um movimento como se de súbito a sua mão e o seu braço ficassem sem força ou energia. No entanto, ecoam ainda no espaço por vibração da matéria os acordes que precederam está nota estancada.

A vibração do pensamento originada do espírito imprime na matéria astral a natureza deste pensamento e esta permanece inalterada até que o espírito a modifique. Quando acoplado à matéria o espírito vibra sobre o seu corpo astral (matéria fluídica) e este sobre o corpo físico (matéria condensada), determinando como este vai se comportar mesmo que cessada a ação da Força, ou seja, a ação do pensamento.

O fenômeno que assim se observa não reflete uma natureza autônoma da matéria, mas a sua propriedade de inércia metafísica.

O modo de raciocinar das criaturas encarnadas vai produzindo a natureza dos pensamentos que estão impressos no chamado inconsciente coletivo e este forma um repositório de energia impulsionadora da matéria. Quando a nossa consciência espiritual se afasta da observação atenta e do desdobrar do raciocínio sobre a existência, a matéria segue a última programação e as que residem, tanto nestes pensamentos adensados na atmosfera (inconsciente coletivo) quanto nas interferências intuitivas de espíritos que permanecem na atmosfera da terra, mesmo após se desacoplarem do corpo físico.

A natureza do pensamento seguido pela matéria será daquele mais presente na sua gravação original, daquele mais repetido, ou seja, dos pensamentos que formaram hábitos ou vícios.

Substituir um hábito ou vício depende de uma ação da Força (espírito), sobre a matéria fluídica e desta sobre a matéria condensada (corpo físico). Libertar-se da interferência do inconsciente coletivo ou do astral inferior, para a escolha mais acertada, depende da ação consciente do espírito desdobrando em raciocínio e buscando inspiração astral superior, para que os pensamentos que vai deitar sobre a matéria tenham a constância e a energia necessária para reprogramá-la.

Em cada encarnação avançamos um pouco mais na maestria de reger a sinfonia da vida, ação do espírito sobre a matéria e, dominando este mister, somos incumbidos de novos desafios coerentes com as experiências adquiridas.

Quando manifestamos pela palavra a nossa vontade e os pensamentos que temos ou dos quais somos intuídos, a passagem mesmo de intuições reconhecidas como do Astral Superior pelo veículo material sofre a influência do acoplamento do espírito à matéria e dos pensamentos e hábitos viciosos ainda gravados nesta. Para auxiliar-nos a identificar a interferência e distorções produzidas, devemos de forma desarmada, dialogar com outros estudiosos da doutrina e, expondo as nossas idéias e conclusões, dar condições para que outras criaturas possam com a sua evolução e experiências diversas apontar o que lhes parece uma falsa interpretação dos princípios doutrinários, favorecer o nosso raciocínio com a diversidade de visões, razão de encarnarmos frente a espíritos de diferentes graus evolutivos.

Quando negamos a necessidade de observar e aprender, quando acreditamos ter aprendido o bastante da humanidade a tal ponto que as novas lições nos serão ditadas pelo Astral Superior, estacionamos a nossa evolução na presente encarnação e passamos a dar de nós uma maior disponibilidade ao astral inferior, que não perde tempo em, identificando os cismas e desarmonias, reforçar com as suas intuições os pensamentos viciosos, que como escreveu Antônio Vieira são originados do nosso "inimigo oculto", a nossa vaidade.

(O autor é Militante na Filial Ribeirão Preto, SP)

 

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