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Um limite estreito separa a depressão da obsessão

Glaci Ribeiro da Silva

A obsessão é um dos males de que mais sofre a humanidade. [...] a culpa da obsessão cabe, em grande parte, às próprias vítimas, por haverem, quando sãs, alimentado os pensamentos com que formaram as correntes de atração em que se apoiaram os obsessores [do livro Racionalismo Cristão].

Nessas últimas décadas, a ciência tem evoluído bastante, embora ela continue sendo basicamente materialista. E é por não reconhecer a existência da vida fora da matéria que sua evolução tem sido menor do que na realidade poderia ser.

O chamado Transtorno Obsessivo-Compulsivo [também conhecido pela sigla TOC] é uma das doenças mentais que mais tem desafiado a ciência que, ultimamente, tem dedicado a ela muitas investigações [1,2,3]. Porém, se analisarmos esse distúrbio pela ótica racionalista cristã, é fácil verificar que o doente portador desse distúrbio é, na realidade, um obsedado.

Na descrição dessa patologia, pode-se observar muitas das características descritas no livro básico da Doutrina, capítulo sobre Obsessão [4], cuja sintomatologia os discípulos do Racionalismo Cristão conhecem muito bem. A ciência convencional detecta os sintomas obsessivos e compulsivos [ou incontroláveis] presentes nessa doença mental, mas não os sabe explicar adequadamente, recomendando que, para controlá-los, o doente faça uso de certos medicamentos e se submeta a uma Psicoterapia Cognitiva-Comportamental [2].

Esse grupo de pacientes apresenta uma depressão muito intensa e um alto índice de suicídios. Neles observa-se também um certo grau de ansiedade [1].

Historicamente, a moderna medicina tem assumido como missão a cura dos Sintomas da doença ignorando o doente, ou seja, aquele que convive com a doença. E esse comportamento é reforçado por um modelo médico que afasta inteiramente a hipótese de que a mente influencia o corpo de forma considerável.

Em 1974, o psicólogo Robert Ader [5] descobriu que o sistema imunológico, tal como o cérebro, era capaz de aprender. Essa constatação causou um grande impacto na comunidade científica porque, até então, se acreditava que somente o cérebro tinha essa capacidade. Seguindo as idéias de Ader, outras investigações foram feitas resultando na descoberta de miríades de formas de comunicação entre o sistema nervoso central e o sistema imunológico.

A presença dessas rotas biológicas [6] ligando o cérebro e o sistema imunológico mostra a existência de uma interligação muito íntima entre a mente, a emoção e o corpo. Esse estudo é feito pela Psiconeuroimunologia, uma disciplina da moderna Neurologia que atualmente tem estado em grande evidência. A própria denominação dessa disciplina é um reconhecimento das ligações psico, de mente; neuro, do sistema neuroendócrino (que inclui o sistema nervoso e o sistema hormonal); e imunologia, do sistema imunológico.

Recentemente, investigadores dessa área puderam compreender mais o papel que o estresse representa na ansiedade e na depressão [7]. Descrevemos, abaixo, as conclusões a que esses investigadores chegaram. Porém, por achar oportuno, acrescentamos nessas conclusões algumas observações a respeito de obsessão. Estas observações aparecem nessas conclusões entre parênteses e em itálico.

Nosso corpo está em equilíbrio homeostático quando vários indicadores fisiológicos – como temperatura, nível de glicose, freqüência cardíaca, e outros – estão o mais próximo possível do "ideal". Um agente estressor é qualquer coisa capaz de tirar o corpo dessa homeostase e a resposta ao estresse é uma série de adaptações fisiológicas que culminam com o restabelecimento do equilíbrio.

Essa resposta inclui, principalmente, a secreção pelas glândulas supra-renais de dois tipos de hormônios: a adrenalina e os glicocorticóides. Estes dois hormônios preparam o organismo para enfrentar um perigo iminente ("luta ou fuga") mobilizando energia para os músculos, aumentando o tônus cardiovascular para que o oxigênio possa ser transportado mais rapidamente pela corrente sangüínea e inativando funções não essenciais para aquele momento.

Essa resposta ao estresse pode também ser mobilizada por mera antecipação. Assim, quando alguém imagina erroneamente (possível intuição dada por um obsessor) que uma ameaça à sua homeostase está para acontecer, ele poderá entrar no chamado estresse psicológico (possível detonador da obsessão).

Os trabalhos pioneiros sobre estresse psicológico foram feitos já nas décadas de 50 e 60 do século passado [8]. Descobriu-se, então, que esse estresse era exacerbado se não houvesse uma saída para a frustração, um sentido de controle dando a impressão de que algo melhor poderia ocorrer. Assim, é bem menos provável que um rato venha a desenvolver uma úlcera em resposta a uma série de choques elétricos se ele puder roer um pedaço de madeira inteiro, porque ele tem uma saída para sua frustração. Da mesma forma, uma pessoa se tornará menos hipertensa quando exposta a um barulho alto e desagradável, se ela acreditar que pode pressionar um botão, a qualquer momento, para diminuir o volume, pois assim ela terá um sentido de controle da situação.

Suponhamos, porém, que não existam essas facilidades e que o estresse seja crônico. As ameaças repetitivas vão exigir dessa pessoa uma vigilância constante levando-a a concluir que precisa se manter sempre em guarda (presença constante do obsessor), mesmo na ausência do estresse. É dessa forma que a ansiedade se instala. Uma outra alternativa é que a pessoa não consiga superar o estresse crônico por sentir-se incapaz, mesmo em circunstâncias que ela poderia, na realidade, dominar (o obsessor tem o controle total do espírito daquela criatura). Nesse caso, a depressão tomou conta dela.

A ansiedade parece causar um massacre no sistema límbico, a região do cérebro que controla as emoções. A região primariamente afetada é a amígdala cerebral, uma estrutura envolvida na percepção e na resposta a estímulos que evocam medo. É interessante notar que a amígdala é também o centro da agressão, salientando o fato de que a agressão pode ter suas raízes no medo – uma observação que pode explicar, por exemplo, o comportamento, geralmente muito agressivo, dos portadores de complexo de inferioridade, pois, neles, é o medo que predomina.

Contrastando com a ansiedade, sentida como uma hiperatividade desesperada, a depressão é caracterizada por sentimento de desamparo, desespero, sensação de estar exausto (lentidão psicomotora) e perda da percepção do prazer de viver. Conseqüentemente, a depressão tem uma biologia diferente; a liberação crônica de hormônios glicocorticóides induzida pelo estresse contínuo reduz o nível de noradrenalina em uma outra região do cérebro – o Locus Coeruleus – provocando então a lentidão psicomotora. O estresse produz, também, depressão agindo nos caminhos cerebrais do humor e do prazer. Nesse caso, existe uma secreção diminuída de dois hormônios: a serotonina e a dopamina; a primeira é importante na regulação do humor e dos ciclos de sono e a segunda é a moeda principal do caminho do prazer.

Em resumo, enquanto na ansiedade há uma verdadeira enxurrada de sinais excitatórios de luta ou fuga, a depressão se caracteriza pela apatia, pelo torpor e pela falta de vontade de viver (idéias de suicídio são intuídas pelo obsessor).

É interessante observar que medicamentos anti-depressivos capazes de aumentar os níveis de serotonina no espaço existente entre um neurônio e o outro (a chamada sinapse nervosa) são capazes de reduzir os sintomas obsessivos-compulsivos sugerindo, assim, que a depressão é o pano de fundo do transtorno obsessivo-compulsivo.

É importante não confundir essas duas patologias mentais com episódios eventuais de ansiedade e depressão que qualquer pessoa está sujeita a ter. Assim, é perfeitamente normal haver ansiedade quando alguém se confronta com uma situação nova e desconhecida, por exemplo: assumir um novo emprego, prestar um exame vestibular, defender uma Tese, etc. Da mesma forma, uma pessoa pode ter uma depressão devido à morte de um ente querido ou ao fim de um relacionamento, por exemplo.

Existe um limite muito estreito separando a ansiedade e a depressão consideradas normais daquelas que são patológicas. Esses dois eventos, mesmo quando normais, provocam estresse. E, conforme já explicamos anteriormente [9], o estresse inibe o sistema imunológico, sendo que, no estresse contínuo, esse sistema chega a ser suprimido deixando assim o organismo totalmente sem defesa. Portanto, mesmo sendo esses fenômenos decorrentes de uma reação normal eles devem durar o menor tempo possível para evitar a cronificação do estresse. Para isso, é importante que a pessoa use o poder do pensamento posto em ação pela sua força de vontade. Essas são as duas armas mais poderosas de que todos dispomos para evitar a obsessão.

O livro básico da Doutrina racionalista cristã dedica um capítulo inteiro à obsessão [4] e dele retiramos as frases abaixo:

Só os esclarecidos que têm consciência do valor dessas poderosas forças, que se chamam vontade e pensamento, são capazes de manter à distância os obsessores.

[...] Quantas vezes a simples partida de um ente querido para o além – coisa tão natural na vida – conduz ao inconformismo, à aflição e ao desespero!

[...] O melhor procedimento dos que ficam para com os que partem é elevar o pensamento às Forças Superiores com firmeza e convicção, envolvendo-os na ternura da irradiação amiga para auxiliá-los a romper a camada atmosférica terrestre e a seguirem para os mundos a que pertencem.

Os obsessores, sempre que a afinidade for intensa, não se apartam da vítima, pelo prazer que têm de permanecer onde se sentem bem.

[...] o mau uso do livre-arbítrio, a vontade mal educada, a incontinência e desregramentos sexuais, o descontrole nos atos cotidianos, o nervosismo irrefreado, os desejos insuperáveis, a ambição desmedida e o temperamento voluntarioso [são] os caminhos que levam à obsessão.

Embora não haja ainda um consenso, ultimamente muitos cientistas têm investigado as idéias espiritualistas da filosofia budista. É esse o caso de Francisco Varela [10,11], um importante psiconeuroimunologista chileno que foi autor de vários livros sobre esse assunto. Ele viveu os últimos anos de sua vida na França (faleceu em maio de 2001), onde foi Professor da Escola Politécnica de Paris.

Com a rápida expansão mundial que o Racionalismo Cristão vem tendo nessas últimas décadas, é bem provável que, em médio prazo, seus ensinamentos espiritualistas sobre a vida fora da matéria possam vir a ser assimilados por outros cientistas beneficiando, assim, grande parte da Humanidade que é portadora de obsessão.

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS

 

Referências bibliográficas

[1] Adams, R. D. & Victor, M. Syndromes of Emotional [Affect and Mood] Disturbances. In: Harrison's Principles of Internal Medicine. 10th ed., 1984, pp. 136-145.

[2] Cordioli, A. V. As Prováveis Causas e o Tratamento do TOC. In: Vencendo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo. 1ª ed., Porto Alegre: Artmed, 2003, pp. 2-18.

[3] Cordioli, A. V. Psicofarmacoterapia do Transtorno Obsessivo-Compulsivo: Uma Revisão. In: Vencendo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo. 1ª ed., Porto Alegre: Artmed, 2003, pp. 125-180.

[4] A Obsessão. In: Racionalismo Cristão, 36a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 194-202.

[5] Ader, R. In: Psychoneuroimmunology. Robert Ader, David Felten and Nicolas Cohen eds., Philadelphia: Academic Press, 2001.

[6] Reichlin, S. Secretion of Immunomodulatory Mediators from the Brain. In: Psychoneuroimmunology. Edited by Robert Ader, David L. Felten and Nicholas Cohen. Philadelphia: Academic Press, 2001, pp. 345-365.

[7] Baldessarini, R. J. Biomedical Aspects of Depression. Washington DC: American Psychiatric Press, 1983.

[8] Solomon, G. F. Emotions, stress, the central nervous system, and immunity. Annals of the Academy of Sciences 164: 335-343, 1969.

[9] Glaci Ribeiro da Silva. Bases Científicas dos Ensinamentos do Racionalismo Cristão sobre o Cultivo do Bom Humor. Gazeta Racionalista, novembro de 2003.

[10] Francisco Varela. In:The View From Within: First Person Approaches to the Study of Conciousness. Edited by Francisco Varela and Jonathan Shear.

[11] Varela, F. Neurophenomenology: a methodological remedy to the hard problem. Journal of Conciousness Studies 3: 16-40, 1996.


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