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Tentando decifrar os segredos da captação pelos médiuns do pensamento dos espíritos

Glaci Ribeiro da Silva

(...) Como agem os espíritos sobre os médiuns para externarem seus desejos e opiniões? Utilizam-se de alguns órgãos dos médiuns, da mesma maneira que alguns órgãos do aparelho rádio-receptor são utilizados para tornar audíveis as vibrações contidas no disco posto na vitrola (...). (Felino Alves de Jesus. A Ação dos Espíritos, do livro "Trajetória Evolutiva", pp 217-221, 1983).

Mas, afinal quais seriam os órgãos utilizados pelos médiuns para captar os desejos e opiniões dos espíritos? Essa pergunta não é respondida de uma forma direta em nenhum dos livros racionalistas cristãos.

Nas várias obras racionalistas cristãs, ao se falar de mediunidade, a maior preocupação é tanto em descrever os diferentes tipos desse fenômeno como, também, em chamar a atenção ao perigo que ele pode representar para aqueles que exercem a mediunidade fora das correntes racionalistas.

Como esses livros são lidos por um grupo heterogêneo de pessoas, o assunto é descrito sem muitos detalhes, para que assim ele possa ser entendido por todos, inclusive por aqueles menos intelectualizados.

Procurar uma possível resposta à essa pergunta é o tema que queremos desdobrar aqui, usando-se para isso fatos científicos já descritos na literatura internacional.

A mediunidade intuitiva está intimamente ligada à estrutura do embrionário órgão telepático, que é um reflexo da sensibilidade psíquica cujo desenvolvimento se irá, a seu tempo, denunciando. Conseqüentemente, a mediunidade intuitiva, a de incorporação e as funções rudimentares do incipiente órgão telepático perfazem, em ações coordenadas e complementares, uma soma de três predicados espirituais cujo desenvolvimento, quando sob rigoroso controle, oferece os mais perfeitos resultados na captação de pensamentos de espíritos desencarnados ou não. (A Mediunidade, do livro "Racionalismo Cristão", 42a edição, pp. 220-221, 2003.)

De acordo com o parágrafo acima, existe uma correlação entre a mediunidade, tanto a intuitiva como a de incorporação, com as funções rudimentares de um órgão telepático que é ainda incipiente.

Mas, afinal que "órgão telepático" será esse e onde ele estaria localizado?

Como a grande sensibilidade da faculdade mediúnica tem íntima ligação com o sistema nervoso [1], esse órgão telepático está, muito provavelmente, localizado no cérebro ou seja, no sistema nervoso central.

Quando em 1729 o astrônomo De Mairan (1675-1774) afirmou que os seres vivos tinham ciclos definidos pelo ambiente, a Academia de Ciências de Paris riu sarcasticamente de suas idéias. Atualmente, sabe-se que a grande maioria dos fenômenos biológicos se repetem obedecendo uma certa periodicidade ou seja, eles são produzidos ciclicamente. O mais evidente desses ciclos é o de "atividade e repouso" (dia/noite) que é sincronizado pela rotação da Terra. Eles são chamados ciclos circadianos – do latim, "em torno de um dia" pois, se repetem com intervalo de 20 a 28 horas. É sabido, também, que a maioria dos seres vivos, inclusive o homem, possui mecanismos internos que marcam o tempo, os chamados relógios biológicos. Relógios são mecanismos geradores de ciclos e seu produto final, aquele que podemos observar, são os ritmos biológicos [2].

Esse assunto é estudado pela Cronobiologia, um ramo da neurociência que foi criado e reconhecido oficialmente somente em 1956 [3]. Hoje em dia, a neurociência tem desenvolvido muitos métodos para estudar os ritmos e relógios biológicos procurando investigar como, quando e porquê nosso cérebro é modulado por ciclos naturais [4, 5].

O sistema circadiano é formado por um conjunto de estruturas que se encontram profundamente localizadas no interior do cérebro. Nos mamíferos, os relógios controladores desse sistema são os núcleos supra-quiasmáticos localizados no hipotálamo bem atrás do cruzamento (ou quiasma) dos nervos ópticos e a glândula pineal.

A pineal, uma pequena cunha avermelhada do tamanho de um grão de ervilha enterrada profundamente no centro do cérebro, até 1950 era considerada pelos cientistas somente como um órgão residual e sem funções importantes.

René Descartes (1596-1650), filósofo, místico e fundador da matemática moderna, afirmava ser a pineal a "sede da alma racional" [6]. Existe uma farta literatura sobre a glândula pineal editada pelo kardecismo e por várias seitas esotéricas. Neste artigo, não pretendemos considerar esse tipo de literatura, embora nela sejam descritos alguns fatos curiosos, mas de procedência duvidosa.

O estudo científico sistemático da pineal teve seu início somente no final dos anos 50. Em 1958, Aaron Lerner e seu grupo extraíram da pineal um hormônio, fato esse que a caracterizava como uma glândula endócrina. Lerner chamou esse hormônio de melatonina. Mas, a importância da glândula pineal cresceu muito a partir de 1959 quando Julius Axelrod, o grande cientista e ganhador do Premio Nobel, começou a estudar e a esclarecer algumas das funções dessa glândula [7, 8, 9].

A pineal trabalha em estreita sintonia com o hipotálamo controlando vários fenômenos fisiológicos como sede, fome, sono, impulso sexual, os biorritmos e, até mesmo, o relógio biológico do envelhecimento [10].

Inicialmente, a pineal era um olho e seu nicho era um orifício escavado no osso parietal direito. Ela não estava sozinha – seu companheiro fotorreceptor existe, ainda hoje, debaixo da pele que cobre o dorso do crânio de alguns animais. Ele é o órgão parapineal, ou terceiro olho dos anfíbios e répteis contemporâneos. Já a pineal se introduziu profundamente no crânio e alojou-se no teto do terceiro ventrículo [11].

A pineal dos mamíferos recebe através de um nervo que se origina na retina, informações sobre as condições de luz ou escuridão que predominam em um dado ambiente. Portanto, a pineal nos mamíferos também conserva sua função ancestral de fotorreceptora capturando e processando energia luminosa.

Ao cair da tarde, a pineal inicia a secreção de melatonina lançando-a na corrente sanguínea. Nas 24 horas do dia, essa secreção atinge um máximo durante a fase de escuridão e um mínimo no ápice de luz. Por isso, costuma-se dizer que a melatonina é o hormônio da escuridão.

Além de ser um transdutor fotoneuroendócrino, a pineal é capaz também de computar intervalos de tempo. Portanto, esta glândula é tanto um relógio como um calendário.

A origem embrionária da pineal é muito semelhante à dos olhos laterais, pois, as duas estruturas se desenvolvem a partir de uma evaginação diencefálica.

Pode-se dizer assim que, tanto por sua história evolutiva e oncogênica como por sua estrutura e funções, a pineal parece ser o terceiro olho dos mamíferos [12].

O Racionalismo Cristão sempre enfatizou muito a necessidade de o ser humano ser disciplinado no seu modo de viver. A própria Doutrina é regida por várias normas, onde os horários devem ser obedecidos rigidamente.

Como a mediunidade intuitiva é comum a todos os seres humanos, é muito provável que as normas disciplinares preconizadas pelo Racionalismo tenham como objetivo a melhor captação pelos discípulos da Doutrina das boas intuições enviadas pelo Astral Superior pois, disciplinando o seu modo de viver, a pineal dessas criaturas ficaria mais sensível e sintonizada. Ou seja, ter disciplina nos horários significaria entrar em sintonia com os órgãos do complexo pineal.

No caso dos médiuns, por serem dotados também de mediunidade incorporativa e, muitas vezes, até de vidência, essas recomendações são mais enfáticas ainda: "Para que possam cumprir adequadamente suas funções, os instrumentos mediúnicos do Racionalismo Cristão devem levar uma vida rigorosamente disciplinada, habituando-se a ter horas para tudo" [13].

A palavra telepatia significa a transmissão ou comunicação extra-sensorial de pensamentos e sensações, à distância, entre duas ou mais pessoas [14]. A comunicação entre os espíritos e o médium é feita através do pensamento, portanto, por telepatia. No ser humano, o desenvolvimento pleno da glândula pineal ainda não se completou e deverá ocorrer no curso da evolução [15]. Estes fatos justificariam, portanto, a frase "incipiente órgão telepático" que é mencionada nos livros da Doutrina.

Nosso cérebro é um gerador de energia elétrica. Ela é gerada nos neurônios e caminha por uma tubulação especial – o axônio dos nervos. Os pensamentos produzem vibrações magnéticas [16]. Portanto, é bem provável que os pensamentos gerem no cérebro radiações eletromagnéticas. O sistema circadiano responde à exposição de campos eletromagnéticos que afetam a produção de melatonina (o hormônio da escuridão) pela pineal dos mamíferos [17], pois, ela tem uma sensibilidade sui generis a radiações eletromagnéticas [18]. Os Espíritos Superiores exercem maior ação sobre a Terra à noite [19]. As comunicações dadas pelos Espíritos Superiores através dos médiuns no Racionalismo Cristão, ocorrem no período noturno e na semi-obscuridade.

Todos estes fatos descritos acima reforçam muito a hipótese de ser essa glândula (ou o complexo de estruturas cerebrais da qual ela faz parte), o possível órgão(s) do médium responsável pela captação de pensamentos dos espíritos.

O provável envolvimento da pineal em mediunidade ainda é, no momento, somente uma hipótese. E, para que ela seja validada pela ciência convencional, deverá ser provada experimentalmente através de metodologia adequada. E isso certamente será providenciado, em tempo oportuno, pela captação de intuições do Astral Superior por cientistas racionalistas.

Com a expansão crescente do Racionalismo Cristão pelo Mundo e a intensificação dos estudos que têm sido feitos atualmente sobre a glândula pineal, cronobiologia e biomagnetismo, essa prova experimental exigida pela ciência convencional será certamente fornecida num futuro não muito distante. Isso é somente uma questão de tempo.

 

A Autora é médica e militante do Filiado de Porto Alegre, RS.


Referências bibliográficas

[1] A Mediunidade. In: Racionalismo Cristão, 42a edição, 2003, pp. 217-224.

[2] Wright, K. (2002) Os tempos da nossa Vida. Scientific American Brasil. 5: 70-77.

[3] Marques, N. & Menna-Barreto, L. In: Cronobiologia: Princípios e Aplicações, pp. 125-145, 1997.

[4] Reichlin, S. (1983) Neuroendocrinology: Pineal Gland and Circumventricular organs. In: Williams Textbook of Endocrinology, pp. 492-553.

[5] Turner, C.D. (1971) Neuroendocrinology. In: Turner General Endocrinology, pp. 328-413.

[6] Loklorst, G.J.C. & Kaitaro, K.K. (2001) The originality of Descartes' theory about the pineal gland. Journal for the History of the Neuroscience, 10: 6-18.

[7] The Julius Axelrod Papers (1959-1974). In: The pineal Gland and the Melatonin Hypothesis, pp 50-67.

[8] Brownstein, M. & Axerold, J. (1974) Pineal Gland: 24 Hour Rhythm in Norepinephrine Turnover. Science, April, pp. 163-165.

[9] Axerold, J. (1974) Pineal Gland: A Neurochemical Transducer. Science, 28:1321-1328.

[10] Reiter, R.J (1995) The pineal gland and melatonin in relation to aging: a summary of the theories and of the data. Experimental Gerontology, 30: 199-212.

[11] Segoviano, A.J.G. e Rodriguez, R.C. (1997). A pineal e seus efeitos sobre o sistema imunológico. La Academia, 7: 35-43.

[12] Eakin, R.E. (1973) In: The third Eye. (University of California Press).

[13] Mediunidade e Médiuns. In: Prática do Racionalismo Cristão, 12a edição, pp. 73-89, 1989.

[14] Aurélio Buarque de Holanda. In: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2a edição revisada e ampliada, 1986.

[15] Elden, C.A. (1989) Pineal: Still too Much To Learn. Chemistry, May, pp. 22-25.

[16] Luiz de Souza, As Irradiações. In: A Felicidade Existe, pp. 311-319, 1963.

[17] Tripp, H.M.; Warman, G.R.; Arendt, J. (2003) Circularly polarised magnetic fields does not acutelly supress melatonin secretion from cultured Wistar rat pineal glands. Bioeletromagnetics, 24: 118-124.

[18] Burk, D.H. Jr. (1990). The Basis of Bioelectricmagnetism. Medical Acupuncture Journal, 2: 57-63.

[19] Cartas Doutrinárias. In: Espiritismo Racional e Científico Cristão em 1933, pp. 100-101.

 

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