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A ciência médica diante da nova era espiritualista

Glaci Ribeiro da Silva

[...] Nós, que nos encontramos encarnados, pertencemos às últimas gerações de uma era que se extingue, para dar começo à outra que se aproxima, plena de esperanças, de conquistas espirituais e de conseqüentes bem-aventuranças.[...] (Luiz de Souza, em Ao encontro de uma nova era, 8a ed., 1995, p. 16)

A época em que vivemos é apontada como a era científica, e a cultura ocidental se orgulha muito disso. Ela é dominada pelo pensamento racional e nela, muito freqüentemente, a única espécie de conhecimento considerado aceitável é o científico. Esse tipo de atitude é conhecido como "cientificismo" e impregna tanto nosso sistema educacional como as instituições sociais e políticas.

O racional e o intuitivo são modos complementares de funcionamento da mente humana. O pensamento racional é linear e analítico. Pertence ao domínio do intelecto cuja função é discriminar, medir e classificar. Ele tende, assim, a ser fragmentado. Nada mudou mais o nosso mundo nos últimos quatrocentos anos do que essa obsessão dos cientistas pela medição e pela quantificação. Já o conhecimento intuitivo não é necessariamente intelectual, pois o ser humano é capaz de adquiri-lo através da mediunidade intuitiva.

A sabedoria intuitiva é típica das culturas tradicionais e não-letradas e seu cultivo na nossa cultura foi sendo aos poucos negligenciado para dar lugar ao pensamento racional. Essa separação manifesta-se atualmente numa flagrante disparidade entre o desenvolvimento do poder intelectual, o conhecimento científico e as qualificações tecnológicas, por um lado, e a sabedoria e a espiritualidade, por outro.

O pensamento racional em nossa cultura é chamado de cartesiano, pois é baseado nas idéias do fundador da filosofia moderna: René Descartes.

René Descartes era um brilhante matemático e esse fato influenciou muito as suas idéias filosóficas. Ele acreditava que a linguagem da natureza - "esse grande livro que está permanentemente aberto ante nossos olhos" - era a matemática. Para entender a ciência natural (ou seja, da natureza) ele desenvolveu um novo método de raciocínio e descreveu-o em seu mais famoso livro, Discurso do método. Embora essa obra tenha se tornado um dos grandes clássicos da filosofia, seu objetivo não era ensinar filosofia, mas, sim, ciência. Isso fica evidente no título completo desse livro: Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências.

O ponto fundamental do método de Descartes é a dúvida. Ele duvida de tudo até chegar a algo de que não pode duvidar: a existência de si mesmo como pensador. Ele chegou, assim, à sua famosa frase em latim "Cogito, ergo sum" (ou seja, "Penso, logo existo"). Portanto, Descartes chegou à conclusão que pensar e ter a conciência de pensar definem o ser humano e que no pensamento reside a essência da natureza humana.

O "cogito cartesiano", como passou a ser chamado, fez com que Descartes previlegiasse a mente (ou espírito) em relação ao corpo físico levando-o ainda à conclusão de que essas duas entidades eram separadas.

Descartes baseou toda a sua concepção da natureza nessa divisão fundamental entre esses dois domínios: o da mente (res pensante) e o da matéria (res extensa), que ele considerava ser somente uma máquina. Para Descartes mente e matéria eram criações de Deus (ou Inteligência Universal), pois, para ele, a existência de Deus era essencial à sua filosofia científica.

Descartes é citado no livro Racionalismo Cristão e algumas das sua idéias fazem parte da Doutrina Racionalista Cristã. Elas foram provavelmente introduzidas nela pelo Mestre Luiz de Mattos - o codificador do Racionalismo Cristão.

No entanto, nos séculos subsequentes, os cientistas omitiram qualquer referência explícita à Inteligência Universal (ou Deus) e desenvolveram suas teorias de acordo com a divisão cartesiana, as ciências humanas concentrando-se na mente e, as naturais, no corpo físico.

Embora tenham sido os cientistas os responsáveis por essa decisão errônea, posteriormente foi Descartes quem foi acusado de errar. E isso foi feito formalmente em 1994 pelo neurologista português António R. Damásio em seu livro O erro de Descartes. Décadas antes desse livro ter sido publicado, tanto o seu autor como vários outros cientistas haviam se dado conta finalmente da grande influência que a mente exerce sobre o corpo físico.

Mas Descartes foi muito menos "cartesiano" do que a maioria dos médicos atuais, pois, embora defendesse a separação de corpo e mente, considerava a interação entre ambos um aspecto essencial da natureza humana. Ele também estava perfeitamente ciente das implicações que a interação corpo-mente tinha em medicina. Assim, quando alguém lhe pedia ajuda e lhe descrevia os sintomas físicos do seu mal, ele os analisava chegando muitas vezes à conclusão de que a principal origem daquele problema era a tensão emocional ou o estresse emocional, como atualmente se diz.

Talvez o mais acertado seria dizer que o assim chamado "erro de Descartes" decorreu do fato dele desconhecer a existência da vida fora da matéria, conceito esse que vem sendo ensinado desde 1910 pela Doutrina Racionalista Cristã.

Essas concepções de Descartes tiveram uma influência decisiva no desenvolvimento das ciências humanas, mas, também limitaram muito o direcionamento das pesquisas científicas. O problema é que os cientistas, encorajados por seu êxito em tratar os organismos vivos como máquinas, passaram a acreditar que estes nada mais são que máquinas. As conseqüências mais sérias desse modo de pensar foram especialmente danosas na medicina, pois interferiram negativamente para que os médicos aceitassem a natureza espiritual de muitas patologias.

Na área médica, o uso da filosofia cartesiana vem tendo uma longa duração e causando, por isso, um grande prejuízo à saúde pública. Assim, três séculos após Descartes, a medicina ainda se baseia nas noções do corpo, como uma máquina, da doença, como uma avaria nessa máquina, e da função do médico, como o consertador dessa máquina.

Por terem predominado na Era Científica o racional e o intelectual, o progresso da humanidade foi unilateral. E essa evolução unilateral está atingindo agora um estágio alarmante tão paradoxal que beira à insanidade: a ciência médica e a indústria farmacêutica estão pondo em perigo nossa saúde e o departamento de defesa do país que atualmente está na liderança tornou-se a maior ameaça à segurança mundial!

O mundo Terra tem passado por vários ciclos de transformações ou mutações e, nestes últimos tempos, nós estamos vivenciando uma dessas mutações. Há dois mil anos atrás Jesus, que era dotado de grande clarividência, já previa que o mundo, antes de findar o segundo milênio, iria passar por transformações fundamentais.

Nos anos setenta esse fato foi focalizado por Luiz de Souza na sua excelente obra racionalista Ao encontro de uma nova era. E, mais recentemente, esse mesmo assunto foi também analisado no livro O Ponto de Mutação, do físico austríaco Fritjof Capra.

Nas décadas finais do século XX, uma onda espiritualizadora começou a se espalhar pelo mundo, ganhando rapidamente cada vez mais força fazendo com que muitos chamem a época em que vivemos atualmente de "Era Espiritualista" por ela ter nas idéias espiritualistas a sua principal característica.

Esse sopro renovador alcançou também médicos e cientistas da área da saúde e das ciências biológicas.

Assim, embora o materialismo ainda seja predominante entre a maioria desses profissionais, muitos deles já mostram um certo amadurecimento espiritual que os fazem compreender melhor a verdadeira realidade. São estes os que foram atingidos por essa nova aragem e marcados indelevelmente por ela. Disso resultou uma feliz e proveitosa parceria entre os cientistas que, até então, haviam estudado somente o corpo material, com aqueles que vinham se dedicando ao estudo da mente, como os psicólogos e os psiquiatras.

Essa união tem frutificado e gerado grupos diferenciados de cientistas importantes e já mundialmente respeitados. O objetivo desses grupos tem sido demonstrar que as desordens espirituais são a causa principal tanto da grande maioria das perturbações emocionais como, também, dos problemas físicos decorrentes delas.

É dentro dessa nova mentalidade que têm surgido vários ramos novos e muito promissores da ciência como, por exemplo, a Medicina Psicossomática, a Psicobiologia, a Psiconeuroimunologia, etc.

O objetivo da Psiconeuroimunologia é estudar cientificamente a interação entre a mente (psico), o sistema neuroendócrino (neuro) que inclue o sistema nervoso e o sistema hormonal, e o sistema imunológico (imunologia).

O sistema imunológico é um dos sistemas mais complexos do nosso organismo e, graças a esses estudos fundamentais que têm sido feitos recentemente, muito se tem aprendido a respeito do seu funcionamento.

Novas técnicas moleculares e farmacológicas possibilitaram a identificação de uma intricada rede ligando o cérebro ao sistema imunológico - chamado por alguns de "o cérebro do corpo". Esse importante circuito permite um rápido e contínuo envio de sinais entre os dois sistemas. Substâncias químicas produzidas pelas células imunológicas enviam sinais para o cérebro que, por sua vez, envia sinais químicos para controlar o sistema imunológico. São esses sinais que continuamente são trocados entre o cérebro e o nosso sistema de defesa que podem explicar como o estado emocional influencia a saúde.

Essa sinalização biológica afeta também a resposta do organismo ao estresse que, quando crônico, é capaz de inibir totalmente o sistema imunológico deixando assim o organismo completamente desprotegido.

Só muito recentemente o estresse foi reconhecido como a causa de um grande número de doenças e distúrbios. Já o vínculo entre estados emocionais e doença, embora conhecido desde a Grécia antiga, ainda recebe pouca atenção por parte da classe médica.

Os estudos feitos pelos psiconeuroimunologistas têm sido os principais responsáveis de trazer novamente à tona e revalorizar o papel importante que a mente (o espírito) desempenha nas doenças. Essa era uma convicção que existia desde os primórdios da medicina e era aceita naturalmente por médicos e pacientes mas que foi sendo paulatinamente abandonada na era científica. A causa desse abandono foi tanto a divisão cartesiana assumida e defendida rigorosamente pelos cientistas como, também, pelo enorme poder financeiro exercido junto à classe médica pela indústria farmacêutica com sua crescente produção de medicamentos - as "balas mágicas" que os médicos deveriam usar para "consertar" a máquina humana...

Para que a ciência médica possa ir devidamente preparada ao encontro dessa nova era que se inicia, é importante que seus cientistas tenham em sua bagagem um bom acervo espiritual. Mas, sendo a evolução obrigatória e fazendo parte das leis imutáveis e irrevogáveis que governam o Universo, não serão os representantes da ciência médica - simples partículas em evolução nesse mundo físico - que irão se opor ao império dessas leis. Portanto, podemos ter a plena certeza de que, com o passar do tempo, o materialismo que ainda impera nesse grupo será substituído por uma bagagem espiritualista adequada.

Referências Bibliográficas

Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação. 24a ed. Pensamento-Cultrix: S. Paulo. 2003.

Damásio, António R. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. 11a reimpressão; S. Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Dixon, Bernard (1978). O domínio da matéria pela mente. In: Além das balas mágicas. Tradução de Margarida D. Black; editor T.A. Queiroz, Editora da Universidade de S. Paulo, S. Paulo, p. 88-116, 1981.

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Science of Mind-Body: An Exploration of Integrative Mechanisms http://videocast.nih.gov/PastEvents.asp?c+1&s+51

Souza, Luiz de. Ao encontro de uma nova era. In: Ao encontro de uma nova era. Rio de Janeiro, Ed. Centro Redentor, 8a ed., p. 15-20, 1995.

Spinelli, Miguel. Filosofia & Ciência: Análise histórico-crítica da Filosofia de Pitágoras a Descartes. S. Paulo: EDICON, 1990. Descartes e a transformação do conceito de filosofia: p. 267-335.

The biological basis for mind and body interactions. Org. by Mayer and C. B. Saper. Progress in Brain Research, vol. 122. Elsevier Science, 2000.

Webster, Jeanette I.; Tonelli, Leonard; and Sternberg, Esther M. Neuroendocrine Regulation of Immunity. In: Annual Review of Immunology, vol. 20, p. 125-163, 2002.

 

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