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Bases científicas dos ensinamentos do Racionalismo Cristão sobre o cultivo do bom humor

Glaci Ribeiro da Silva

(...) O bom humor abre caminho ao triunfo, já que desarma os pensamentos derrotistas e os receios infundados, afugentando o nervosismo. (do livro Racionalismo Cristão)

Inicialmente, o Racionalismo Cristão era denominado Espiritismo Racional e Científico Cristão. Por definir melhor a Doutrina, esse antigo nome sempre nos pareceu mais adequado, pois ele deixa explícito que o Racionalismo Cristão é uma filosofia Espírita que é Racional e Científica. É, também, uma filosofia cristã, pois essa foi a Doutrina que Jesus, o Cristo, tentou implantar no mundo Terra.

A palavra "racional" é usada aqui como um adjetivo e significa "que usa a razão, que raciocina, que se deduz pela razão" [1]. Usar o raciocínio e fazer deduções pela razão é o princípio fundamental da ciência. Portanto, a filosofia espírita do Racionalismo Cristão tem estreitas ligações com a ciência.

Em publicações recentes [2,3], procuramos desdobrar alguns ensinamentos do Racionalismo Cristão levantando hipóteses apoiadas na ciência convencional que pudessem explicá-los de uma modo racional e científico.

O assunto que vamos abordar hoje é um tema encontrado em várias obras da Doutrina sendo, também, freqüentemente tratado em comunicações do Astral Superior. Estamos nos referindo ao cultivo do bom humor, da alegria de viver, do otimismo e da serenidade com que devemos enfrentar os reveses da vida [4,5,6]. Vejamos, então, como esses ensinamentos da nossa Doutrina encontram apoio na ciência convencional.

Um dos fatores mais importantes na doença e na saúde são as defesas naturais do corpo humano. A estrutura encarregada dessa defesa é o chamado sistema imunológico [7]. De maneira bastante simplificada, o sistema imunológico é composto de vários tipos de células cuja função principal é atacar e destruir substâncias estranhas ao organismo. Sempre que observamos pus em uma ferida, estamos vendo o sistema imunológico em ação. O pus nada mais é do que uma massa de glóbulos brancos – um componente importante do sistema imunológico – que correram para o local do ferimento para isolar ou combater a infecção.

Os estudos pioneiros sobre estresse foram feitos, já na década de 20, por Hans Selye [8], um endocrinologista e diretor do Instituto de Medicina Experimental e Cirurgia da Universidade de Montreal. Esse autor mostrou que existe uma ligação evidente entre o estresse e a doença. Essa ligação é tão forte que se faz possível predizer a doença tomando como base o estresse sofrido pelas pessoas, na sua vida cotidiana. Esses estudos foram confirmados por pesquisas realizadas, tanto em animais de laboratório como na espécie humana, e começaram a revelar, também, o processo fisiológico por meio do qual as respostas emocionais ao estresse podem criar susceptibilidade à doença. Basicamente, foi demonstrado por vários pesquisadores que os efeitos do estresse emocional podem inibir, parcial ou totalmente, a atividade do sistema imunológico deixando, assim, o organismo à mercê de várias doenças [9,10].

Demorou muito para que a comunidade médica passasse a aceitar as idéias de Selye e a admitir os princípios da chamada Medicina Psicossomática. Essa demora deve-se, em parte, à orientação dos médicos clínicos seguidores da seguinte norma: problemas físicos são produzidos por causas físicas e devem ser tratados através de intervenção física.

Na realidade, o que estava faltando para tornar essas idéias mais aceitáveis pela comunidade médica eram pesquisas que identificassem um mecanismo fisiológico específico pelo qual os estados emocionais contribuíssem para o aparecimento de doenças.

Ultimamente, este mecanismo de inibição parcial ou total (nesse último caso, ela é chamada "supressão") do sistema imunológico pelo estresse tem sido muito estudado e está começando a ser elucidado.

A sobrevivência nas sociedades primitivas dependia da identificação imediata de um perigo e uma escolha rápida entre lutar e fugir, deveria ser feita. No entanto, a vida moderna obriga-nos, com muita freqüência, a inibir nossas respostas de fuga-ou-luta, por serem elas poucos aceitáveis socialmente. Nosso corpo foi planejado de forma que os momentos de estresse, seguidos por uma reação física do tipo lutar ou fugir, causem poucos danos. No entanto, quando a resposta fisiológica ao estresse não é descarregada – por causa das conseqüências sociais da "luta" ou "fuga" – o estresse não é liberado e se torna crônico.

O estresse crônico produz, muito freqüentemente, desequilíbrios hormonais e essas disfunções hormonais podem desencadear doenças. A pressão arterial, por exemplo, é regulada por hormônios e uma criatura pode ficar hipertensa devido ao estresse crônico.

Todos nós produzimos, ocasionalmente, células no corpo que são anormais e capazes de gerar câncer. Em geral, o sistema imunológico vigia de perto o aparecimento dessas células e as destrói [10]. Agentes externos, radiação, herança genética e alimentação são quatro fatores que desempenham um papel etiológico importante no aparecimento do câncer. As células anormais geradoras de câncer podem ter surgido naturalmente ou pela ação deletéria de um desses fatores etiológicos citados acima. Mas, resta saber por que nosso sistema imunológico se descuidou dessa vez e permitiu que essas células se reproduzissem transformando-se em um tumor maligno. Existem várias pistas mostrando que, no caso do câncer o sistema imunológico sofre uma exclusão, ou seja, ele é totalmente inibido.

Alem da descoberta de Selye, mostrando a supressão do sistema imunológico pelo estresse crônico, outros estudos sugeriram também o envolvimento de fatores mentais nessa supressão. Eles foram realizados por Humphrey e colaboradores no Conselho de Pesquisas Médicas da Grã-Bretanha [11]. Esses autores revelaram que a imunidade do corpo contra a tuberculose poderia ser profundamente afetada com o uso da sugestão hipnótica demonstrando, portanto, de maneira clara, a influência do estresse mental e emocional nas defesas do corpo. E, por fim, o Dr George Solomon, da Universidade Estadual da Califórnia [12,13] descobriu que incisões feitas no hipotálamo – uma parte do cérebro profundamente envolvida em produção hormonal e considerada, também, a mais diretamente associada às emoções – levam a uma supressão do sistema imunológico.

A saúde depende dos nossos pensamentos e da atitude que temos para enfrentar a vida [5]. Pensamentos elevados, alegria de viver e bom humor são verdadeiros tônicos para nosso organismo e antídotos muito eficientes no combate ao estresse.

Se o funcionamento pleno do sistema imunológico é importante na prevenção de doenças, mais importante ainda é saber mantê-lo alerta e hígido quando estamos doente. Esse assunto foi tema de uma Comunicação dada recentemente por Augusto Gomes da Silva, Presidente Astral do Filiado de Campinas (SP): [...] Nem sempre o corpo físico se mantém saudável. Porém, se no comando desse corpo físico estiver um espírito forte, esse corpo físico perde a sua fragilidade porque sabe lutar e vencer uma doença séria quando ela aparece. É muito importante encarar um revés com muita serenidade, muita calma e muito bom humor, se possível for. De nada adianta lamúrias, de nada adianta o espírito de derrota. Muito pelo contrário, [é necessário] procurar levar uma vida normal, procurar se alimentar adequadamente e ter pensamentos elevados.

Vejamos, agora, como a ciência demonstra experimentalmente esse outro aspecto do mesmo assunto.

Estudos experimentais desse tipo têm sido feito basicamente por psicólogos [14,15,16]. Esses profissionais usam como ferramenta para estudá-lo as chamadas profecias auto-elaboradas. Segundo esses cientistas, quando esperamos que algo aconteça agimos de uma forma tal para que isso venha realmente a acontecer. Ou seja, se um paciente espera melhorar, com certeza tomará seus remédios e seguirá o regime prescrito pelo médico aumentando, desta forma, as suas possibilidades de recuperação. Se ele, pelo contrário, acha que vai morrer, acredita que não vale a pena seguir as recomendações do seu médico e acabará sucumbindo. Este exemplo ilustra uma das características básicas de uma profecia auto-elaborada – o chamado círculo de reforço: uma expectativa de sucesso, com freqüência leva ao sucesso fornecendo, assim, a prova que a expectativa original estava correta. Por outro lado, uma expectativa de fracasso conduzirá, em geral, a um resultado negativo, validando, portanto, a expectativa negativa original.

Em resumo, nesses estudos psicológicos é usada a auto-sugestão, ou seja, o poder do pensamento posto em ação pela força de vontade. O pensamento é a mais importante faculdade espiritual do homem [17,18]. O livro básico da Doutrina racionalista cristã dedica um capítulo inteiro ao pensamento [19], e dele retiramos as frases que se seguem: Ele é vibração do espírito, poder espiritual (...). Pensar é raciocinar. É criar imagens, conceber idéias (...). O espírito imprime ao pensamento a própria força de que é dotado (...) e, esta força, tem como medida o grau de evolução do espírito.

No mesmo capítulo do livro mencionado acima consta, ainda, o seguinte parágrafo: A história da medicina registra inumeráveis casos de doenças graves cujas curas, por muitos consideradas milagrosas, apenas se deveram à reação espiritual dos próprios enfermos e à atração que souberam exercer das Forças Superiores.

Portanto, mais uma vez os ensinamentos da nossa Doutrina encontram na ciência um apoio absoluto e total, pois somos nós por meio do pensamento e da força de vontade [20] que temos o poder de dirigir nosso sistema imunológico. E, por decisão nossa, ele poderá ser direcionado tanto para a cura como para a evolução negativa de uma doença.

A autora é médica e militante na Filial de Porto Alegre, RS


Referências bibliográficas

[1] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2a edição revista e ampliada, 1986.

[2] Glaci Ribeiro da Silva. Tentando decifrar os segredos da água fluidificada. Gazeta Racionalista, setembro de 2003.

[3] Glaci Ribeiro da Silva. Tentando decifrar os segredos da captação pelos médiuns do pensamento dos espíritos. Gazeta Racionalista, outubro de 2003.

[4] O Bom Humor. Racionalismo Cristão, 36a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 165-166, 1986.

[5] Caruso Samel. A Atitude. Reflexões sobre os sentimentos, 1a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 46-50, 2001.

[6] Fernando Faria. Reveses. Para quando os reveses chegarem, 1a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 57-66, 2000.

[7] Jan Klein. Regulation of the immune response. In: Immunology, Boston: Blackwell Scientific Publications, pp 387- 391,1990.

[8] Selye ,H. The stress of life, New York: McGraw-Hill, 1956.

[9] Bathrop, R. W. (1977) Depressed lymphocyte function after bereavement. Lancet, April 16, pp. 834-836.

[10] Southam, C. M. (1960) Relationships of immunology to cancer: a review. Cancer Research 20: 271-289.

[11] Humphrey, J. H. (1977) Cited in review of L. L. LeShan's book by P. B. Medawar, New York Review of Books, June 9, 24.

[12] Solomon, G. F. (1969) Emotions, stress, the central nervous system, and immunity. Annals of the Academy of Sciences 164, pp. 335-343.

[13] Solomon, G. F.; Amkraut, A. A. & Kasper, P. (1974) Immunity, emotions and stress. Annals of Clinical Research 6, pp. 313-322.

[14] Rosenthal, R. & Rosnov, R. L. (Eds.) The volunteer subject. In: Artifact in Behavioral Research, New York: Academic Press, 1969.

[15] Simonton, O. C. & Simonton, S. (1975) Belief systems and management of the emotional aspects of malignancy. Journal of Transpersonal Psychology 7, pp. 29-47.

[16] Weinstock, C. (1977) Psychodynamics of cancer regression. Journal of the American Academy of Psychoanalysis 5, pp. 285-286.

[17] Força do Pensamento. A vida fora da matéria, 21a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 39-41, 1996.

[18] Caruso Samel. O Pensamento. Reflexões sobre os sentimentos, 1a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 310-314, 2001.

[19] O Pensamento. Racionalismo Cristão, 36a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 119-124, 1986.

[20] Luiz de Souza. A Força de Vontade. Ao encontro de uma nova era, 4a ed., Rio de Janeiro: Centro Redentor, pp. 91-97,1977.

 

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