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Amor segundo Vieira

Paulo Freitas*

(Abordagem não-acadêmica baseada no Sermão do Mandato, de 1643 em diante, do Mentor Astral do Racionalismo Cristão)

Os amantes e poetas sempre deram conotação sensualista ao pensamento do Padre Antonio Vieira sobre o amor. Até Vinicius de Morais pegou carona para fazer caminho fundo e diametralmente oposto, exaltando a materialidade do amor. E quantos mais não o fizeram, arrastando para a seara da limitação humana o amor espiritual, equivocadamente, posto ser o espírito imortal.

Filmes foram produzidos "com base" (risos) nas definições do verdadeiro amor contidas em todos os seis sermões do Mandato, recheadas de cenas até de sexo incompatíveis com as doutrinações de alto cunho filosófico e moral produzidas por Antonio Vieira aqui na Terra. O filme em questão pode ser assistido no site www.portacurtas.com.br (digite "remédios" na guia de busca) e faz menção aos Remédios do Amor, em que Vieira avalia o desmedido amor de Jesus.

Não cuidou Vieira do amor carnal, cujas citações lhe foram vampirizadas e deturpadas. Não o amor humano, o amor sensual. Mas o amor pelo espírito, o bem-querer astral. Então, resume Vieira, se a pessoa deixou de amar por algum tempo (um segundo que seja na cronologia humana), então não teve amor de verdade, dito assim nos sermões do Mandato e de Xavier Dormindo e Acordado. E cita sempre o sentido do amor de Jesus pela humanidade como exemplo do amor verdadeiro.

Ainda que repleto de alegorias religiosas, salta aos olhos a convicção espiritualista de Vieira em desacordo com os dogmas e rituais a que servia. E ele usou o amor do Cristo, o amor sem remédio, como gancho para suas dissertações mais polêmicas. E, no seu bom lirismo nos veio com essa:

Como amasse mais amou menos, nem como amasse menos amou mais, senão como amasse amou.

Nesse particular, meditando sobre o tema, temos mais uma cristalina oposição à idéia do deísmo humano. Como poderia Deus ser Deus (para nós, o Grande Foco, Inteligência Universal) se os que nele acreditam muito falam que é capaz de sentimentos menores, como a vingança, a ira, a revolta e de impor os piores castigos incompatíveis com um amor incondicional. Então, teríamos um Deus que não sabe amar de verdade, o que constituiria uma desmedida aberração. É Vieira quem sentencia:

O amor dos homens, ou míngua, ou cresce, ou pára; o do Cristo nem pode minguar, nem crescer, nem parar, porque é, foi e será sempre amor perfeito, e por isso sempre o mesmo, e sem alteração nem mudança.

E se o chamado "amor divino" não muda, não pode existir a idéia de imposição de castigos à humanidade e tampouco a concessão do perdão.

O mais impressionante naqueles sermões do Mandato (ou nas revelações de Xavier Dormindo ou Acordado) é a insistência do Padre Vieira falar em "encarnação" e "desencarnação", prevalecendo-se de um equívoco da religião que professava, que diz "e o Verbo se fez carne e habitou entre nós". Para o Padre Vieira, Jesus se fez homem conquanto era espírito e veio habitar a Terra. E desafiava as escrituras e instituições, questionando:

Por que não diz S. João que o Verbo se fez homem, senão carne, e por que não disse que habitou conosco, senão em nós?

O amor de que trata Vieira em muitas frases que foram sendo vampirizadas por amantes e poetas, é "princípio sem princípio", em que se "ama sem começar", ama-se com naturalidade, assim entendido por ser fruto de incontáveis reencarnações. Para Vieira, o amor verdadeiro não começa, é inato ao ser humanho. O amor do espírito não está sujeito à corrosão e envelhecimento humanos, não é uma imperfeição corporal. Nenhum ser precisa aprender a amar, já nasce sabendo, está contido no espírito, dentro de nós.

O amor – vede se é maior este – o amor essencialmente é união, e quanto mais une ou procura unir os que se amam, tanto maiores efeitos tem, e tanto maiores afetos mostra de amor. Estar conosco é assistência de fora, estar em nós é presença íntima; estar conosco é estar perto, estar em nós é estar dentro; estar conosco é companhia, estar em nós é identidade.

E enquanto divaga sobre santos, profetas e padres, nosso Mestre discorre sobre dois supremos amores: o de Deus, pai e o de Jesus, e lança por terra um questionamento que beirou à heresia. Em sendo Deus o pai de Jesus era-lhe facultado fazer distinção entre seus filhos? Em sendo Jesus unigênito era lícito a Deus, todo poderoso, fazer uma escolha pelo povo e sacrificar seu filho? Discriminando assim, não seria um Deus.

Já ali, Antonio Vieira parecia estar intuído da certeza que davam à Força Criadora o nome de Deus tanto quanto lhe atribuíam formas e valores que certamente não haveria de tê-las.

Certo de que o "amor de Deus" fez uma opção pelo povo homicida, desprezando o próprio filho, revelando-se, portanto, um amor de forte apelo material. Já o amor de Jesus era de tal forma espiritual, imutável, incessante, que deixou-se imolar ainda jovem sem ter completado a sua missão. Vieira comparou o amor do "pai" e o amor do filho:

De um e outro amor recolho um só documento muito breve. E qual é? Que seja tal o nosso amor na vida que o continuemos à vista da morte.

E cita o bem-querer de Jesus por Judas, certo que estava da traição. Ainda assim, foi por amor que Jesus beijou os pés de Judas, lembra Vieira, classificando de amor-desmedido, sem remédio, in verbis:

Pode haver maior loucura, pode haver maior cegueira, que amar aquilo mesmo de que sei que ou me hei de arrepender, ou me hei de condenar?

E Vieira utiliza o amor para dar uma visão do que é o TEMPO como se já estivesse em plano astral. Para ele, o amor carnal é como as colunas dos templos, os mármores. Não resiste à ação corrosiva do tempo, desfragmenta-se e perde a utilidade. O amor do espírito não sofre a ação desse mesmo tempo, estendendo-se pela eternidade incomensuravelmente.

*Jornalista Profissional e militante da Filial Niterói/RJ

Fevereiro 2008

 

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