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As aldeias em que vivemos

Julio César do Nascimento

No início da colonização deste país continente, os povos que para cá vieram encontraram um grande contingente de nativos que foram submetidos à cultura européia, no que esta tinha de exploração, e a sua grande experiência em guerras e dominação.

Esses povos foram progressivamente dizimados pelas doenças e empurrados para o interior, na avalanche civilizatória. A índole indomável e culturas próprias fizeram dos nativos um contingente de trabalhadores somente accessível às missões jesuíticas, que com outra proposta, traziam pela conversão religiosa os braços e almas destes habitantes primevos para construir nas "missões", fortes e outras edificações, plantações e igrejas que não frutificaram mais devido à ganância dos donatários e concessões dos próprios jesuítas.

Resultou, finalmente, que através de manobras políticas os pombalistas expulsaram os jesuítas e puseram os índios e as missões nas mãos gananciosas que representavam os donatários.

Seguiu-se o contingente de escravos negros que após um grande período de exploração de mais de seis milhões de pessoas culminou na libertação, por força da lei e ação dos abolicionistas, dos sobreviventes desse período, que ingressaram como "livres", num país onde não tinham terras para plantar e lugar para ficar que não incomodasse aos proprietários.

A classe dominante de fazendeiros preferia tratar com a mão de obra barata, recém chegada da Europa, a lidar com um gentio acostumado a dar o menos possível de si, sabedores do destino de doença e morte, para eles o mais comum.

Desse processo "civilizatório" resultaram milhões de mestiços deserdados a se acotovelarem nas filas, relegados a favelas e cortiços, sem a instrução mínima ou com esta, porém alijados do convívio social mais ameno por modos e aparência.

Não se reconhece destes tantos nenhum direito e, hoje, somente os descendentes diretos da cultura branca européia encontram melhores oportunidades de justiça social. Em meio a este quadro, presenciamos uma explosão de violência e degradação de costumes enquanto um contingente cada vez maior de jovens busca através do trabalho voluntário auxiliar no resgate dos tantos espíritos transviados, próximos a perder uma outra de tantas encarnações.

Quantos de nós sofredores de hoje, não estamos a resgatar falhas deste passado? Quantos hoje insensíveis à miséria humana que nos cerca não estarão de joelhos no futuro, rogando por favores do deus milagroso das religiões milionárias, ou dos políticos da época, acostumados por gerações a manobrar tal massa ignorante?

É chegado o tempo de interromper o ciclo, de abandonar o véu de mesquinhez e ignorância e dar aos habitantes deste mundo uma real oportunidade de crescer. Aqueles que se avizinham do poder para explorar e dominar precisam ser contidos pela maioria silenciosa que trabalha e constrói a revelia de seus filhos os castelos atuais de luxo e desdém dos novos déspotas, esta minoria que por todo o mundo invoca o seu direito divino e genético através do liberalismo globalizado, que vem se revelando exploração globalizada.

Por quê meios, senão pela educação e pelo reconhecimento da evolução espiritual, poderão os excluídos compartir as tantas riquezas naturais de que esta terra ainda é privilegiada? Urge um tratamento com escola e amor para os pequenos, oportunidade para os adolescentes e espaço para moradia e trabalho, fora dos grandes centros para o contingente de miseráveis e desempregados que são expelidos diariamente das entranhas insaciáveis da sociedade neoliberal.

Sem esta iniciativa, enveredamos pelo caminho penoso e recorrente das convulsões sociais que já são costumeiras nas chamadas nações civilizadas e que podem suceder a guerra surda e o fratricídio com que convivemos dentro das nossas fronteiras.

As disciplinas de raciocínio e espiritualidade como as exaradas nas práticas e ensinamentos do Racionalismo Cristão, precisam ser trazidas a todos os níveis da população através de palestras, publicações e pelo exemplo de todos os seus simpatizantes para que a verdade da inexorável conseqüência de nossos atos e omissões, faça com que principalmente as novas gerações encontrem eco para as suas aspirações humanitárias em meio ao descaso e a falta de valores éticos das classes dominantes.

Julio César do Nascimento
São Paulo, 9 de abril de 2001

 

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